Léxico: «pediculose»

Fazem comichão

«É preciso estar atento às cabeças que, vá lá saber-se porquê, dão mais comichão e apertar a vigilância em tempo de aulas: “Logo que se suspeite de pediculose [infestação por piolhos], deve iniciar-se o tratamento e avisar a escola”, sugere Álvaro Birne, pediatra» («Regresso às aulas», Andreia Pereira, Notícias Magazine, 6.09.2009, p. 71). Está explicado o termo: infestação por piolhos. Em latim, «piolho» dizia-se pēdis, is, e o adjectivo relativo era pĕdĭcŭlāris, e. Se tem algo que ver com pés? Semelhança, apenas: em latim, «pé» dizia-se pēs, pĕdis. Ah, sim, e «pezinho» era pĕdĭcŭlus, i.

Pontuação

Gramática inata

Todos os dias aprendo, e não o digo por humildade, algo sobre a língua. Não apenas leio, estudo. Tudo razões para ficar perplexo quando me dizem, e tantos já o fizeram, que pontuam por intuição. Lembrei-me agora disto quando reli a entrevista que o investigador e especialista em sintaxe teórica João Costa deu à revista Notícias Magazine (6.09.2009), em que lembra que os alunos que terminam o 1.º Ciclo «vão ter de aprender a pontuar (ninguém pontua bem por intuição) e como se estrutura um texto (o que também tem de ser aprendido explicitamente). Algumas pessoas dizem: “Eu escrevo muito bem e nunca tive de aprender a pontuar.” Pois, teve sorte. Inferiu a partir das leituras que fez as regras de pontuação». Apesar de, segundo este especialista, haver «uma parte da nossa gramática que é inata, nascemos com ela, tal como nascemos com outras competências cognitivas. Ou seja, nem todo o nosso conhecimento linguístico decorre de uma interacção com o input».

Léxico: «loden»

Imagem: http://www.born-for-loden.co.uk/

Símbolo do grande capital



      Se bem me lembro, o dele era verde-azeitona. Ou não seria? De qualquer modo, quem se lembra, porque fala nisso, é Clara Ferreira Alves: «Freitas do Amaral foi ridicularizado como um símbolo do grande capital porque usava um loden» («Eu, quando há calistos, não posso!», Clara Ferreira Alves, Expresso/Única, 25.09.2009, p. 96). Loden é vocábulo inglês com étimo no alto-alemão e os dicionários ingleses dão-lhe esta definição: «A durable, water-repellent, coarse woolen fabric used chiefly for coats and jackets.»

Ortografia: «Caim»

Ora essa

Um leitor escreveu-me a dizer que é urgente que eu esclareça qual a «forma de escrever o nome do irmão de Abel!... Caim, Caím ou Caín (como está na capa do livro de Saramago)?». Não sabia que havia estas dúvidas tão excruciantes. Comecemos pelo último. Caín existe — mas em espanhol. (Em latim, é Cain, como se lê na Vulgata: «Adam vero cognovit Evam uxo rem suam, quae concepit et peperit Cain dicens: “Acquisivi virum per Dominum”» [Gn 4, 1]). Temos então Caim e Caím. Ora, esta última forma é espúria, pois, como sabemos, as vogais tónicas i e u não levam acento agudo quando, precedidas de vogal que com elas não formarem ditongo, se encontrem em sílaba terminada em l, m, n, r, z, ou forem seguidas do digrama nh: adail, Saul, Caim, ruim, constituir, juiz, moinho.

«Quartel militar»?

Redundâncias ibéricas

Alguns jornais espanhóis referiram ultimamente que tinham sido detectados casos de gripe A num «cuartel militar» («quartel militar»). Agora, a Fundéu, Fundación del Español Urgente, vem recomendar que se deve evitar a redundância, dizendo: «[…] basta con decir cuartel, pues ante esa palabra cualquier hispanohablante piensa en los militares. Se trata de una redundancia innecesaria, si bien es cierto que hay también cuarteles de bomberos, de policía… Pero cuando se habla de estos últimos siempre se menciona específicamente de qué se trata, precisamente porque si se dice solo cuartel de inmediato se piensa en el militar». E em português? É o mesmo: quartel é, na definição do Dicionário Houaiss, a «construção, edifício destinado a abrigar tropas 2 p.ext. MIL qualquer edifício onde esteja alojado um regimento, batalhão, destacamento etc.». E também por cá se diz e escreve, redundantemente, «quartel militar», como nesta notícia da RTP: «A Universidade Junior [sic], no Porto, contou este ano com a participação de cinco mil jovens, mil dos quais em regime de internato com alojamento num quartel militar» («Jovens no quartel militar», 23.07.2009, aqui).

«Comuna/commie»

Sem preconceitos


      É uma boa surpresa ver que os dicionários, ou pelo menos alguns, como o muito difundido Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não cederam a preconceitos e registam o vocábulo «comuna» na acepção, depreciativa, de «comunista». A língua inglesa também tem o termo correspondente, commie, e também está dicionarizado.

Tradução: «eulogy»


Espera aí!

«In his eulogy at the funeral for the girls…» E o tradutor: «Na sua eulogia feita durante o funeral das quatro raparigas…» Espera aí! O mais próximo que os dicionários da língua portuguesa registam é «eulógias», que são fragmentos de pão que os primeiros cristãos levavam para a consagração, na Missa. O termo inglês terá vindo do grego, mas através do latim medieval eulogium. Não, não é o étimo do nosso «elogio». Este vem do vocábulo latino ēlŏgĭum, ĭī, «inscrição; epitáfio; indicação, notícia breve, relatório, registo». O tradutor deveria ter optado, por exemplo, por elogio fúnebre.

Léxico: «bardo»

Outra poesia

«Neste dia o trabalho é mais duro, já que a Renova, sendo uma quinta velha, tem os bardos — fiadas de videiras — plantados mais juntos, impedindo a mecanização» («Um país nas vinhas», Susana Torrão, Notícias Sábado, 26.09.2009, p. 27). Quando ouvimos a palavra «bardo», normalmente é referida a Camões, e então, por antonomásia, o Bardo. (O étimo é o latim bardus, i, através do francês barde, que se referia ao cantor e poeta entre os Gauleses.) Mas este é outro bardo: vem de barda, na acepção de «tapume, formado por sebe, ramos, espinheiros ou silvas» e significa a fila de videiras ligadas a estacas e arames que formam um suporte vertical.

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