Regência verbal: «confrontar-se»

A pergunta essencial

«E é claro que, qualquer que seja o media, os seus responsáveis estão permanentemente confrontados à impossibilidade de os tratar e publicar todos» («A pergunta essencial», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 5.09.2009, p. 57). A pergunta essencial, no caso, é: conformamo-nos com a gramática ou inventamo-la? A regência do verbo confrontar na acepção de «ver-se diante», «deparar-se com» é feita com a preposição com, e fácil seria confutar a construção do autor aduzindo citações, mas não o farei. Quanto a media, o Livro de Estilo do Público recomenda, já que ninguém escreveria medium*, que se use, no singular, «órgão de comunicação (social)».

* Actualização em 23.10.2009

Bem, com algumas excepções: «Os blogues surgiram em massa, como um “medium rebelde”, sem regras e ao alcance de qualquer um» («Criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais», Catarina Homem Marques, Público, 11.4.2006, p. 47).

Deep South/Sul Profundo


Assim mesmo

      «[Aiken] É uma cidade enriquecida por as suas centrais nucleares fornecerem a energia para a Carolina do Sul e o plutónio para as bombas de hidrogénio, mas guardando as mansões do Sul profundo, com varandas, balaustradas e colunas gregas» («Bill Clinton pinta Carolina do Sul às cores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 26.01.2008). Embora seja um conceito mais do que geográfico, Deep South é essencialmente um topónimo — pelo que se terá de grafar em português com iniciais maiúsculas: Sul Profundo.

Sobre «reformatório»

Voltou

«Mas, na sala do primeiro ano, Zachary é conhecido como o rapaz que levou um castigo e está a caminho do reformatório» («Criança arrisca reformatório por levar faca de almoço para escola», H. C., Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 49). Ainda pensei que o facto de nas notícias dos jornais norte-americanos se ler a expressão reform school tinha sido determinante para a opção do jornalista por «reformatório», vocábulo muito menos usado actualmente, pois que agora se fala de institutos de reinserção social. Mas não. Já em Abril, e referindo-se a um adolescente díscolo e valdevinos do Sátão, distrito de Viseu, um jornalista usara o vocábulo: «Saiu do reformatório e aterroriza os pais» (Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 7.04.2009). Antigamente, ao estabelecimento de educação para menores delinquentes ou em perigo de delinquência chamava-se, consoante o escopo legal, casa de correcção ou escola correccional.

Jargão médico III

Imperfeito

«Segundo o médico oncologista [Lourenço Marques, do Serviço de Medicina Paliativa do Hospital do Fundão], 91% dos 126 pacientes daquele serviço de saúde que morreram no ano passado fizeram opiáceos fortes da última vez que foram internados, e, destes, 60% receberam morfina injectável» («Portugueses são dos maiores consumidores de morfina do mundo», Catarina Cristão, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 14). Eu disse que era culpa dos médicos falar-se assim? Enganei-me: é culpa dos jornalistas, que não pensam duas vezes e vão atrás.

Léxico: «viciação»

Perfeito

«O mesmo garante Lourenço Marques, da unidade [Serviço de Medicina Paliativa do Hospital] do Fundão: “Não temos casos de viciação”» («Portugueses são dos maiores consumidores de morfina do mundo», Catarina Cristão, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 14). Não é muito comum ver-se este vocábulo usado nesta acepção (acto ou efeito de viciar-se; estado do que está viciado), mas está correcto. Provém do latim vītĭātĭo, ōnis, «corrupção, acção de corromper; violação, desonra».

Numerais: por extenso e em algarismos

Como calha

      Lembram-se, decerto, desta questão. A jornalista escrevera: «Partilha [Elinor Ostrom] as 10 milhões de coroas suecas (980 mil euros) com Oliver Williamson» («A primeira mulher Nobel da Economia», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 51). Dois dias antes, contudo, outra jornalista tinha escrito: «As instituições que irão receber os dez milhões de coroas suecas (980 mil euros) entregues ao Presidente dos EUA em Oslo a 10 de Dezembro ainda não estão definidas, mas ao tomar esta decisão, Obama veio seguir uma tradição dos chefes de Estado americanos que venceram o galardão» («Quando ganha um presidente ganham os pobres», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 30). Sim, nesta frase o especificador já está correcto, mas reparem: no primeiro texto, «10 milhões»; no segundo, «dez milhões». Os numerais cardinais e ordinais escrevem-se por extenso até dez e décimo, respectivamente, e em algarismos a partir de 11 e 11.º No caso, contudo, estamos perante uma excepção: com quantias monetárias, usam-se os algarismos árabes.


Selecção vocabular

4.ª classe adiantada

      «A tragédia sucedeu num pequeno imóvel de três andares numa pequena rua da zona residencial de Raincy, considerada afluente, onde o criminoso habitava com seu pai, um antigo elemento das forças de segurança» («Discussão de vizinhos acaba num massacre em França», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 31). Sim, entre as acepções de «afluente» está a de «rico», mas tem de se adequar o vocabulário aos destinatários. Mesmo os portugueses com a sólida 4.ª classe de antigamente («que valia mais», não se cansam os próprios de nos lembrarem, «do que o 12.º ano de agora»), e são muitos, de afluentes só sabem que são rios que vão desaguar noutros rios. Sólida 4.ª classe… Vendo bem, mais do que sólida, era monolítica, pois, num igualitarismo bruto e cego, um aluno negro na Guiné, um «indígena», tinha de decorar os mesmíssimos afluentes e linhas ferroviárias da «Metrópole». A Linha do Vale do Vouga, a Linha do Dão, do Douro, do Minho, os reis de Portugal, mas também os portos da Índia Portuguesa, os portos de Angola, etc. Era o «Império».

Ortografia: «Évora Monte»


Variedade e erro

      «Quando D. Miguel I partiu para o exílio em 1834, deixou tudo em Portugal, excepto o prestígio que lhe abriu as portas das casas reais europeias. Em plena baía de Cascais, o rei denunciou a Concessão, afirmando que esta lhe fora imposta: ao fazê-lo perdeu automaticamente o direito a uma pensão vitalícia que Portugal ficara obrigado a pagar-lhe por esse acordo» («As ligações incríveis dos Bragança», Rita Roby Gonçalves, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 65). Mais conhecida como Convenção de Évora Monte, também é conhecida por Concessão de Évora Monte ou Capitulação de Évora Monte. E o nome da localidade ora aparece como o escrevi, que é considerada a forma correcta, ora como Évora-Monte, ora como Evoramonte, ora, num delírio antigramatical, como Évoramonte.

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