Jargão médico III

Imperfeito

«Segundo o médico oncologista [Lourenço Marques, do Serviço de Medicina Paliativa do Hospital do Fundão], 91% dos 126 pacientes daquele serviço de saúde que morreram no ano passado fizeram opiáceos fortes da última vez que foram internados, e, destes, 60% receberam morfina injectável» («Portugueses são dos maiores consumidores de morfina do mundo», Catarina Cristão, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 14). Eu disse que era culpa dos médicos falar-se assim? Enganei-me: é culpa dos jornalistas, que não pensam duas vezes e vão atrás.

Léxico: «viciação»

Perfeito

«O mesmo garante Lourenço Marques, da unidade [Serviço de Medicina Paliativa do Hospital] do Fundão: “Não temos casos de viciação”» («Portugueses são dos maiores consumidores de morfina do mundo», Catarina Cristão, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 14). Não é muito comum ver-se este vocábulo usado nesta acepção (acto ou efeito de viciar-se; estado do que está viciado), mas está correcto. Provém do latim vītĭātĭo, ōnis, «corrupção, acção de corromper; violação, desonra».

Numerais: por extenso e em algarismos

Como calha

      Lembram-se, decerto, desta questão. A jornalista escrevera: «Partilha [Elinor Ostrom] as 10 milhões de coroas suecas (980 mil euros) com Oliver Williamson» («A primeira mulher Nobel da Economia», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 51). Dois dias antes, contudo, outra jornalista tinha escrito: «As instituições que irão receber os dez milhões de coroas suecas (980 mil euros) entregues ao Presidente dos EUA em Oslo a 10 de Dezembro ainda não estão definidas, mas ao tomar esta decisão, Obama veio seguir uma tradição dos chefes de Estado americanos que venceram o galardão» («Quando ganha um presidente ganham os pobres», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 30). Sim, nesta frase o especificador já está correcto, mas reparem: no primeiro texto, «10 milhões»; no segundo, «dez milhões». Os numerais cardinais e ordinais escrevem-se por extenso até dez e décimo, respectivamente, e em algarismos a partir de 11 e 11.º No caso, contudo, estamos perante uma excepção: com quantias monetárias, usam-se os algarismos árabes.


Selecção vocabular

4.ª classe adiantada

      «A tragédia sucedeu num pequeno imóvel de três andares numa pequena rua da zona residencial de Raincy, considerada afluente, onde o criminoso habitava com seu pai, um antigo elemento das forças de segurança» («Discussão de vizinhos acaba num massacre em França», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 31). Sim, entre as acepções de «afluente» está a de «rico», mas tem de se adequar o vocabulário aos destinatários. Mesmo os portugueses com a sólida 4.ª classe de antigamente («que valia mais», não se cansam os próprios de nos lembrarem, «do que o 12.º ano de agora»), e são muitos, de afluentes só sabem que são rios que vão desaguar noutros rios. Sólida 4.ª classe… Vendo bem, mais do que sólida, era monolítica, pois, num igualitarismo bruto e cego, um aluno negro na Guiné, um «indígena», tinha de decorar os mesmíssimos afluentes e linhas ferroviárias da «Metrópole». A Linha do Vale do Vouga, a Linha do Dão, do Douro, do Minho, os reis de Portugal, mas também os portos da Índia Portuguesa, os portos de Angola, etc. Era o «Império».

Ortografia: «Évora Monte»


Variedade e erro

      «Quando D. Miguel I partiu para o exílio em 1834, deixou tudo em Portugal, excepto o prestígio que lhe abriu as portas das casas reais europeias. Em plena baía de Cascais, o rei denunciou a Concessão, afirmando que esta lhe fora imposta: ao fazê-lo perdeu automaticamente o direito a uma pensão vitalícia que Portugal ficara obrigado a pagar-lhe por esse acordo» («As ligações incríveis dos Bragança», Rita Roby Gonçalves, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 65). Mais conhecida como Convenção de Évora Monte, também é conhecida por Concessão de Évora Monte ou Capitulação de Évora Monte. E o nome da localidade ora aparece como o escrevi, que é considerada a forma correcta, ora como Évora-Monte, ora como Evoramonte, ora, num delírio antigramatical, como Évoramonte.

Plural de «manda-chuva»

Funciona… se pensarmos
O original falava em «many big-shot professionals», e o tradutor achou que seriam «demasiados profissionais manda-chuva». Pode ter consultado um dicionário (e não encontrou resposta para a sua dúvida), mas, se se tivesse posto a pensar, teria lá chegado com facilidade. Vamos lá ver: ele diz ou escreve «em toda a minha vida, só tive três guarda-chuva»? Pois claro que não! Nas palavras compostas formadas por verbo+substantivo, o segundo elemento pluraliza: guarda-chuvas, manda-chuvas.Com o Acordo Ortográfico de 1990, este vocábulo composto passará a escrever-se mandachuva.

Léxico: «autarca-modelo»

Funciona

Ora cá está a analogia a funcionar: «[Rui Rio] É actualmente o autarca-modelo do PSD, mas poderá, querendo, ocupar outras responsabilidades» («Conquistas e desilusões autárquicas do PSD», Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 4). Se se escreve, e até está dicionarizado, andar-modelo, também se escreverá autarca-modelo.

Translineação no latim

Facílimo

Se era, em vários aspectos, como a conjugação verbal e as declinações, mais complexo do que a língua portuguesa, o latim apresentava, comparativamente, particularidades gramaticais mais fáceis, como as regras da translineação, que se resumem nisto: duas consoantes no interior da palavra dividem-se, ficando uma em cada sílaba: fes-sus; pau-xil-lis-per; pas-ti-na-tum; ap-pa-ra-tus. A excepção a esta regra é o grupo consoante + l, r: lo-cu-ple-ta-tor; fi-bra. Havendo três consoantes, as duas primeiras pertencem à sílaba anterior e a terceira à seguinte, sanc-tus; sump-si; respeitando, porém, sempre o grupo indivisível surda/líquida, as-pri-tu-do; fic-trix; Zan-clei-us. Por outro lado, uma vogal separa-se da vogal seguinte, excepto, naturalmente, se se tratar de um ditongo: ae, au, oe, eu, ui.

Arquivo do blogue