Plural de «manda-chuva»

Funciona… se pensarmos
O original falava em «many big-shot professionals», e o tradutor achou que seriam «demasiados profissionais manda-chuva». Pode ter consultado um dicionário (e não encontrou resposta para a sua dúvida), mas, se se tivesse posto a pensar, teria lá chegado com facilidade. Vamos lá ver: ele diz ou escreve «em toda a minha vida, só tive três guarda-chuva»? Pois claro que não! Nas palavras compostas formadas por verbo+substantivo, o segundo elemento pluraliza: guarda-chuvas, manda-chuvas.Com o Acordo Ortográfico de 1990, este vocábulo composto passará a escrever-se mandachuva.

Léxico: «autarca-modelo»

Funciona

Ora cá está a analogia a funcionar: «[Rui Rio] É actualmente o autarca-modelo do PSD, mas poderá, querendo, ocupar outras responsabilidades» («Conquistas e desilusões autárquicas do PSD», Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 4). Se se escreve, e até está dicionarizado, andar-modelo, também se escreverá autarca-modelo.

Translineação no latim

Facílimo

Se era, em vários aspectos, como a conjugação verbal e as declinações, mais complexo do que a língua portuguesa, o latim apresentava, comparativamente, particularidades gramaticais mais fáceis, como as regras da translineação, que se resumem nisto: duas consoantes no interior da palavra dividem-se, ficando uma em cada sílaba: fes-sus; pau-xil-lis-per; pas-ti-na-tum; ap-pa-ra-tus. A excepção a esta regra é o grupo consoante + l, r: lo-cu-ple-ta-tor; fi-bra. Havendo três consoantes, as duas primeiras pertencem à sílaba anterior e a terceira à seguinte, sanc-tus; sump-si; respeitando, porém, sempre o grupo indivisível surda/líquida, as-pri-tu-do; fic-trix; Zan-clei-us. Por outro lado, uma vogal separa-se da vogal seguinte, excepto, naturalmente, se se tratar de um ditongo: ae, au, oe, eu, ui.

Lacunas lexicográficas


Canté!



      «As memórias de Vitorino são embaladas pelo canto alentejano e pelo tango. No Redondo, quando era ainda pequeno, sabia sempre que era dia de cinema quando pelo altifalante instalado no telhado do cine-teatro saíam os sons de Adios pampa mia, de Carlos Gardel» («Vitorino canta o tango argentino com sotaque alentejano», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 66). Canto ou cante alentejano. Não conheço nenhum dicionário que registe o termo cante, e bem podiam. O Dicionário Houaiss, por exemplo, regista cante hondo. É provável que o étimo do nosso vocábulo esteja no espanhol cante («Acción y efecto de cantar cualquier canto popular andaluz o próximo», in DRAE). Vitorino, tanguista? Não, o cantor «tinha um pé duro». Na língua portuguesa, tanguista é somente aquele que dança tangos, ao passo que em espanhol o vocábulo designa também o autor ou intérprete de tangos. (Cara Maria João Caetano: à casa de espectáculos com capacidade para a representação de peças de teatro e para a projecção de filmes dá-se o nome de cineteatro — sem hífen. Ah, e o título é Adiós, pampa mía!...)

Disparates na televisão

Imagem: http://www.canalpanda.pt/

Três metades de nada


O cozinheiro do Panda Cozinha, Tito Coelho (que deveria falar menos e evitar os «prontos»), anda há uma semana a preparar pratos com arepas. No final do episódio de hoje, propôs que metade das arepas fosse para ele, metade para o Panda e… metade para o Lobo Mau. Seria possível, sim, se dispusessem de várias doses e cada um comesse metade.

Léxico: «preceptorado»

De mal a pior

Catarina Guerreiro, jornalista do Diário de Notícias, foi visitar o Colégio Mira Rio, a escola mais bem classificada na tabela das escolas com melhores resultados nos exames deste ano (o chamado «ranking das escolas»). Todas as alunas, afirma, estavam nas aulas. Excepto uma. E onde estava esta? Pois «numa cadeira, no meio da relva, num jardim que existe à entrada da escola». Sozinha? Não. «À sua frente, uma professora conversava calmamente com ela.» Que amena conversa seria esta? «Tratava-se de uma ‘reunião de percepturado’», garante a jornalista, que escreve mais duas vezes «percepturado». Está-se logo a ver: de «preceptor», «percepturado»… Não era preciso, parece-me, saber latim: praeceptor, praecipio+-tor, praecipio, prae+capio… Afinal, até o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista o vocábulo: preceptorado: «influência, orientação. Direcção pedagógica». (Não, não fui seminarii alumnus — é assim que se diz, caro Fernando? —, mas tenho pena.)

Especificador de «milhão»

Vícios de linguagem

      «Partilha [Elinor Ostrom] as 10 milhões de coroas suecas (980 mil euros) com Oliver Williamson» («A primeira mulher Nobel da Economia», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 51). Acontece que «milhão» é um substantivo masculino (ao passo que «mil», por exemplo, é um numeral), pelo que deve ser antecedido de um especificador (artigo definido, artigo indefinido, pronomes, etc.) do género masculino.
      Fiquei a saber, por um texto de apoio («Um prémio ainda polémico») àquele que cito acima, que, afinal, o prémio não tem a designação que lhe é habitualmente dada: «Incorrectamente referido como Nobel da Economia, o galardão foi, na verdade, instituído em 1968 pelo Sveriges Riksbank, o Banco Central da Suécia, e atribuído pela primeira vez no ano seguinte. A confusão resulta da designação oficial — Prémio Sveriges Riksbank de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel —, mas o prémio é pago com dinheiro público.»

Notas bibliográficas

Há quem leia

      Sinto que se tem por vezes a ideia de que notas bibliográficas, índices e outras partes eventuais de uma obra não são lidas por ninguém. Mas não é assim, e descurar a sua correcção pode ter custos, porque há sempre quem esteja atento: «Contudo, nem sempre deparamos [na obra D. Maria I — A Rainha Louca, de Luísa Paiva Boléo. Lisboa: Esfera dos Livros, 2009] com uma redacção fluente do texto; e as notas bibliográficas têm erros e repetições, por vezes na mesma página» (António Valdemar, Expresso/Actual, 9.10.2009, p. 31). Que sirva de escarmento.

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