«Governância» II

Está melhor

      «Foi preciso a crise abater-se sobre a economia mundial para que uma mulher, Elinor Ostrom, 76 anos, da Universidade de Bloomington no Indiana, fosse distinguida com o Nobel da Economia. Quarenta e um anos após o surgimento do galardão, os seus estudos sobre a governação económica das empresas valeram-lhe a maior distinção a que um economista pode aspirar» («Primeira mulher a ser galardoada», Diana Ramos, Correio da Manhã, 13.10.2009, p. 21). Isto foi hoje, porque ontem o Correio da Manhã falava em «governança». A edição de hoje do Diário de Notícias também opta por «governação». Contudo, certa imprensa, talvez receosa de que os leitores não dominem a língua portuguesa, usa o termo inglês, governance. Só faltou ter-se usado «governância», como já li.

Léxico: «Xiistão»

E assim até ao infinito

Acabo de rever um texto em que foi usada a palavra «Xiistão». Foi a segunda vez que a li, a primeira tinha sido há quatro anos. Mesmo da primeira vez, aquilo que pretendia significar saltou logo aos meus olhos ― como terá saltado aos olhos da maioria dos leitores. A produtividade (ou criatividade), que é o nome que na linguística se dá à capacidade de interpretarmos ou produzirmos enunciados que nunca antes ouvimos ou lemos, é uma das mais admiráveis propriedades das línguas naturais. «O pressentimento terá alguma substância, pois receia-se o surgimento de uma espécie de “Xiistão” no Sul do país a ombrear com o Curdistão, no Norte — ambas regiões ricas em petróleo» («Constituição iraquiana põe sunitas em pé de guerra», Cadi Fernandes, Diário de Notícias, 30.08.2005).

Sobre «podar»

Julgue quem puder

Tratava-se de traduzir uma frase latina: «Agricola terras arabat, frumentum seminabat, paruas populos secabat.» Alguém propôs que fosse: «O lavrador lavrava, semeava trigo e podava pequenos choupos.» A questão é se o vocábulo podar não se aplica somente a árvores de fruto. À margem da questão, é interessante verificar como do mesmo termo, putare (putō, āre, āuī, ātum), que inicialmente significava somente podar, se formou, na língua latina, uma outra acepção, a de julgar. E como é que isto aconteceu? Pois porque para podar é preciso avaliar, ponderar — julgar — que ramos devem ser cortados (amputados).

Citações e arroba

Sem queixas

«Parece que o Times», escreve Daniel Okrent, «se porta muito bem na rectificação das citações mal feitas. No início de Dezembro, quando [a] expressão “n’é”, de Sylvester Croom, treinador de râguebi do Estado do Mississipi, foi branqueada como inglês padrão [@], surgiu de imediato uma correcção» (O Provedor. Selecção de crónicas, textos, e até algumas retractações do Provedor dos Leitores do New York Times, de Daniel Okrent. Lisboa: Edições 70, 2008, p. 65. Tradução de Victor Silva). Cá, os entrevistados não se podem queixar muito da imprensa: não raramente, os jornalistas limitam-se a transcrever as declarações, deixando ficar erros gramaticais de toda a espécie. Fora de contexto, como muito bem explica Okrent, ficam quase todas as citações. Só uma perguntinha: que faz ali aquela arroba? No sítio do NYT, lê-se isto: «The Times seems to be pretty good about rectifying misquotations; in early December, when Mississippi State football coach Sylvester Croom’s spoken “ain’t” was prettified into standard English, a correction appeared swiftly.»

Actualização em 12.10.2009

Não se incomodem, eu respondo. A explicação da arroba está aqui: «Quando o contexto não fornece informação suficiente (título, data e lugar da publicação), inseri [@] para que o leitor possa localizar facilmente uma versão da referência na Internet, o que significa que o artigo mencionado pode ser encontrado no site www.publicaffairsbooks.com/publiceditor#1» (p. 43).

Sobre «crisma»

Não vejo porquê


      Alguns jornalistas já vão sentindo, o que me parece um manifesto exagero, que devem explicar o que é o crisma: «Curiosamente, noutros marcos importantes da vida religiosa dos crentes, como o baptismo, a primeira comunhão ou o crisma (confirmação do baptismo), a descida não é tão acentuada» («Casamentos católicos caem 62% em apenas uma década», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 13). Curiosamente também, vemos que no Dicionário Houaiss o vocábulo «crisma» é dado como pertencendo aos dois géneros, sem distinguir entre o óleo que serve para administrar (masculino) este sacramento e o próprio sacramento (feminino), como fazem alguns dicionários. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, óleo, sacramento e mudança de nome é tudo do género masculino.

Léxico: «business angels»

Uma no cravo…

      «O enquadramento fiscal dos investidores informais em capital de risco, ou business angels, poderá ser incluído já no Orçamento do Estado para 2010, anunciou António Castro Guerra, secretário de Estado-adjunto da Indústria» («‘Business angels’ vão ter regime fiscal específico», Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 33). Mais uma locução inglesa bem lançada na imprensa e com a qual vamos ter de viver nos próximos tempos. Desta vez, o jornalista teve o bom senso, que nem sempre nem todos têm, de explicar o que significa em português.
      Por outro lado, vejam: «secretário de Estado-adjunto». No sítio do Governo, lê-se «Secretário de Estado Adjunto». Mesmo no jornal Público, de uma maneira geral pouco propenso a apuros formais, é desta forma que é grafado, em consonância com o recomendado no seu Livro de Estilo, em que se pode ler que director adjunto e ministro adjunto não levam hífen (p. 90), e na página 101, na entrada relativa a cargos, lê-se secretário de Estado adjunto.

Léxico da chapelaria

E por falar nisso…


      Na recensão da obra Indignação, de Philip Roth (Lisboa: Dom Quixote, 2009, tradução de Francisco Agarez), escreveu Paulo Nogueira: «Como sempre, Roth é exímio ao facultar o contexto. Na “Pastoral Americana”, ficamos a saber tudo sobre fabricação de luvas (talvez mais do que o necessário). Aqui, quando acabamos o livro, podemos abrir um talho» (Actual, 3.10.2009, p. 34). Isto porque o pai do protagonista, Markus Messner, é talhante kosher. Sou grande apreciador deste tipo de literatura, e, se bem que o contexto não seja dado apenas pelo recurso a um léxico próprio, quero contribuir para que futuras obras forneçam contextos informativos. Hoje divulgo alguns termos ligados à chapelaria. Poucos, mas outros léxicos, como o relativo ao cavalo, começaram assim e actualmente têm mais de mil entradas.
Cardiço m. Espécie de carda pequena, usada pelos sombreireiros para levantar o pêlo aos chapéus.
Castrorrosa f. Máquina da indústria de chapelaria.
Copa f. A parte do chapéu, boné, etc., que cobre directamente a cabeça.
Formilhão m. Instrumento com que os chapeleiros enformam as abas dos chapéus.
Formilho m. Instrumento de chapeleiro, para enformar a boca da copa dos chapéus.
Fulista m. Oficial de chapelaria encarregado de preparar os feltros.
Potança f. Prov. dur. Peça de madeira ou cepo sobre a qual os chapeleiros amaciam e lustram os chapéus de seda.
Propriagem f. Trabalho que os chapeleiros executam nos chapéus depois de tintos.│Oficina onde se preparam os chapéus.
Secretagem f. Operação que consiste na aplicação de químicos, à base de compostos de mercúrio, destinados a realizar transformações específicas no pêlo.
Sombreireiro m. Fabricante ou vendedor de sombreiros ou chapéus.
Suflagem f. Operação em que o pêlo é afastado e soprado dentro de uma máquina, de tal forma que o mais leve passa à operação seguinte e o mais pesado, com impurezas, é retido e rejeitado.

Léxico: «desinscrever»

Sim e sopas


      Um leitor consultou-me para saber o que acho do uso do verbo «desinscrever». Usou-o numa «newsletter», diz (e melhor diria se tivesse dito «boletim informativo»), e um leitor «insurgiu-se», escrevendo que o vocábulo não existia, mesmo com o Acordo Ortográfico de 1990, afirmação que revela bem a dimensão da ignorância do leitor. Será melhor, pergunta, usar «cancelar» em vez daquele verbo? Respondi ao consulente que, embora não esteja dicionarizado, nada impede que se forme o verbo desinscrever, mas que seguisse, ainda assim, o conselho do seu leitor. No final da mensagem do consulente, vinha o desabafo de que, tendo consultado o «Ciberdúvidas, também se fica na mesma, nem sim nem sopas». Só depois de ter respondido ao leitor é que fui consultar o Ciberdúvidas. O consultor F. V. P. da Fonseca escreveu em 2006: «De facto, anular a inscrição é que está bem, embora teoricamente pudesse admitir-se o termo desinscrever-se, que não encontrei em lado nenhum, por ninguém se ter lembrado de inventá-lo.» Eu não encontrei dicionarizado o verbo «desinscrever», mas não afirmei que «anular a inscrição» é que está bem. Na Internet, há milhares de ocorrências da palavra, pelo que já alguém se lembrou de inventá-la. (Afinal, o prefixo des- é o mais produtivo da língua portuguesa.) No sítio da Universidade de Coimbra, por exemplo, leio: «Assim, se um outro utilizador se desinscrever numa das turmas, ou se novas vagas/turmas forem criadas para a disciplina, o utilizador receberá essa informação por email.» Fico a pensar se em 2006 o termo não aparecia de facto «em lado nenhum». A intenção de traduzir numa só palavra o verbo inglês unsubscribe poderá estar na origem do uso relativamente frequente do verbo desinscrever.

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