Ortografia: «ribossoma»


Dois esses


      «Toda a gente já tomou antibióticos pelo menos uma vez na vida, mas a maioria desconhece o que são os ribosomas» («Chave para antibióticos premiada», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 30). Se a jornalista escreve 13 vezes «ribosoma», convicção não lhe faltará. Com um s apenas, só se for em inglês — ribosome. Ainda que uma cabeleireira mande fazer um toldo, cartões-de-visita e publicidade em que se lê «unisexo», vá que não vá, mas uma jornalista tem de dominar as basezinhas da ortografia.

«Cônsul-geral/consulesa-geral»


Trapalhadas

      «O Consulado Geral de Portugal em Caracas vai premiar trabalhos de investigação sobre o associativismo português na Venezuela, realizados por alunos luso-venezuelanos de Comunicação Social, revelou ontem a cônsul-geral Isabel Brilhante Pedrosa» («Consulado de Caracas apoia associativismo», Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 12). Compreendo que a titular do cargo se auto-intitule, em documentos legais, cônsul-geral, mas porque não escreveu o jornalista «consulesa-geral»? Até o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, em verbete autónomo, consulesa: «funcionária do ministério dos Negócios Estrangeiros de um país que exerce a sua actividade em país estrangeiro e tem a seu cargo a defesa dos interesses dos seus compatriotas e das boas relações comerciais entre os dois países». (O Dicionário Houaiss, por seu lado, regista «consulesa», mas somente no verbete de «cônsul».) Mais estranho ainda é o jornalista ter grafado, numa discrepância inexplicável, «Consulado Geral» e «cônsul-geral». Apesar de não se colher uma opinião consensual nos dicionários, ou se usa o hífen em ambos os vocábulos ou em nenhum. Prefiro, seguindo o que estabelece o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, cônsul-geral e consulado-geral.

Prefixo re- no novo acordo

Mal pensado


      «Pode também re-endereçar mensagens entre duas contas» («Cem pessoas presas no caso das ‘passwords’», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 50). Temos de tudo: jornais que adoptaram (mais ou menos, como vimos) as regras do Acordo Ortográfico de 1990, jornais que respeitam estas regras apenas numa (!) coluna e jornais que, de vez em quando, escrevem certos vocábulos em conformidade com o acordo.
      É verdade que a alínea b), n.º 1, da Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 não exemplifica com o prefixo re- (e parece que os redactores do texto se esqueceram dele), mas, por analogia com os que ali são referidos, se o segundo elemento começar por e, deverá ser seguido de hífen. É o caso de re-endereçar. O que sucede é que o VOLP não seguiu a regra. Só verbos, vejam quantos sofreriam esta alteração: reedificar, reeditar, reeducar, reeleger, reembolsar, reencarnar, reencontrar, reentrar, reenviar, reerguer, reescalonar, reescrever, reestruturar, reestudar, reexaminar... Mas como regras são regras, o programa FLIP 7, que os computadores da redacção do Record têm instalado, mandam separar por hífen o prefixo re- quando o segundo elemento se inicia com a vogal e.

Ortografia: «açafrão-da-índia»

Isso era dantes


      «São precisas 100 mil flores da espécie Crocus sativus para obter 500 gramas de açafrão. Não admira que esta seja a especiaria mais cara do mundo e que muitos optem por usar um substituto: o açafrão das índias, extraído da raiz de uma planta da família do gengibre» («Especiaria de luxo», Teresa Resende, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 92). Em termos de ortografia, o Expresso e as publicações que o acompanham estão actualmente muito longe dos cuidados de outrora. Ignorando a Crocus sativus, que dizer deste açafrão das índias? Que percebia, neste caso, que grafassem com maiúscula inicial o topónimo. Correcto, contudo, é açafrão-da-índia, tal como açafrão-agreste, açafrão-bastardo, açafrão-bastardo, açafrão-bravo, açafrão-primavera, açafrão da terra, açafrão-de-outono, açafrão-do-campo, açafrão-do-mato, açafrão-palhinha, açafrão-vermelho.

Léxico: «metroviário»

Nova

      «Entrou no sector ferroviário, com a operação da Fertagus, que liga Setúbal a Lisboa, e iniciou-se também no metroviário, com o Metro do Sul do Tejo» («O rei do garrafão», João Palma Ferreira, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 40). Não é palavra que apareça todos os dias. Vem assim fazer companhia a ferroviário, rodoviário e rodoferroviário. O Dicionário Houaiss regista-o: «adj.s.m. (c1985) B relativo a ou o funcionário, agente, empregado do metropolitano (‘sistema de transporte’)».

Nado-morto/nado-vivo

Explicação

      Todos os dias deparamos com incoerências e lacunas nos dicionários. O que explica que nem todos os dicionários registem nado-vivo — se todos registam nado-morto? Há-de ser a explicação para, ao lado de nado-morto, sobretudo em estudos estatísticos, aparecer nado vivo.

«Dreadlocks» e «rastas»

Um ano antes


      «Gosto do cabelo dele, que é escuro e espesso e com dreadlocks, chegando-lhe quase aos ombros» (Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008, p. 58). Nesta tradução, a tradutora preferiu dreadlocks a «rastas», ao contrário do que vimos aqui.

«Bundle of straw»?

Imagem: http://www.hit-vietnam.com/


Um estágio no campo


      «Saltamos um portão de quinta e avançamos por um caminho íngreme e escorregadio. O lavrador tinha acabado de cortar o feno e tinha-o atado em medas. Cheirava maravilhosamente» (Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008, p. 185). Aos meninos das cidades, os pais levam-nos a casa dos avós para verem donde vêm os ovos. Quem leva os tradutores ao campo (já que eles não querem ir aos dicionários) para estes verem o que é uma meda? Acredito que cheirasse maravilhosamente, mas o lavrador não tinha atado o feno em medas.

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