Tradução: «right»

«Certo»? Errado


      «— A Mãe franze a testa.
      — Piza não — diz ela. — Agora sou vegan, não te tinha dito? Nada de queijo, leite, ovos ou mel.
      — Certo — diz o Pai, parecendo novamente perdido» (Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008, p. 24).
      Há muito tempo que ando a ler e a ouvir isto na televisão, dos desenhos animados a filmes. Desde quando é que em português assentimos desta forma, cara Cristina Queiroz? Por certo que nunca. É a má tradução do advérbio right.

Grafia dos topónimos

Salem é capital

      Ora aqui estão dois extremos: acabei de rever um texto em que se referia a localidade norte-americana de Beavercreek — Oregão, escrevera o autor, jornalista. Pouco faltava para ser a deliciosa planta herbácea, fortemente aromática, da família das Labiadas, espontânea em Portugal, muito utilizada como tempero na culinária. Por outro lado, na obra Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy (tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008), leio o seguinte: «No meu oitavo aniversário, veio um postal de Marrakech, em Marrocos, uma fotografia de uma rapariga árabe sorridente com os braços cobertos de pulseiras douradas» (p. 8). Estamos mais habituados ao contrário: ver Oregon e Marraquexe.

Os limites das palavras


Sr. e Sra. Elton John


      «O cantor britânico Elton John e o marido David Furnish querem adoptar um bebé ucraniano de 14 meses» («Elton John precisa de favor do Presidente da Ucrânia para adoptar», Diário de Notícias, 15.09.2009, p. 56). Depois de já ter lido várias vezes que David Furnish é o marido de Elton John, e desta vez num jornal como o Diário de Notícias, é tempo de dizer alguma coisa. Consulto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e que vejo? A definição de casamento, matéria relacionada, é agora (?) a seguinte: «contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família em conjunto». «Entre duas pessoas», não «entre duas pessoas de sexo diferente» ou, como se lê no Dicionário Houaiss, «união voluntária de um homem e uma mulher, nas condições sancionadas pelo direito, de modo que se estabeleça uma família legítima». Podia ser resultado de algum lóbi no Departamento de Dicionários da Porto Editora, mas as definições de «marido» e de «esposa» (porque «mulher», na acepção de esposa, para este dicionário, pertence ao registo popular) permanecem intocadas. Marido é o «homem casado (em relação à esposa); cônjuge do sexo masculino» (confere, à primeira vista, com David Furnish) e esposa é a «mulher em relação à pessoa com quem casou» (não confere, à primeira vista, com Elton John). Só uma mudança na legislação e nas mentalidades trará mudanças aos dicionários.

«Metainformação»: ortografia e conceito

Com ou sem hífen?


      No art. 5.º, 1, da Portaria n.º 662-H/2007 de 31 de Maio, que determina a organização interna do Instituto Nacional de Estatística, pode ler-se metainformação: «O Departamento de Metodologia e de Sistemas de Informação coordena o desenvolvimento técnico-científico no domínio das metodologias estatísticas e apoia as unidades orgânicas do INE, I. P., e os restantes organismos integrantes do Sistema Estatístico Nacional (SEN), concebe e gere o sistema de informação, a infra-estrutura tecnológica e informacional e o sistema de metainformação estatística.» E na página da Internet do INE encontramos a seguinte definição do conceito: «A metainformação é informação que descreve os dados estatísticos, bem como os processos e instrumentos envolvidos na sua produção e utilização. Como exemplos podem referir-se as metodologias de amostragem e estimação, os conceitos e classificações utilizadas, o âmbito territorial e temporal dos dados, a descrição e caracterização dos processos de recolha, tratamento, análise, estudo e difusão dos dados.» Simplificando, a metainformação é informação sobre a informação, como a metalinguagem é informação sobre a linguagem (e um dos campos mais fascinantes do estudo de uma língua). Num texto intitulado «A gestão da metainformação no sistema estatístico português», da autoria de Isabel Duarte Fonseca et al., lê-se: «Qualquer sistema de informação estatística tem presente informação que estrutura os dados e os caracteriza. A este tipo de informação estruturante chamamos metainformação.»
      Ao contrário de meta-análise, em que, «por motivo de clareza ou de expressividade gráfica, por ser preciso evitar má leitura», como estabelece o Acordo Ortográfico de 1945, julgo que é preferível usar hífen, no caso de metainformação tal já não acontece, e deverá seguir-se a regra geral, que manda aglutinar os componentes na composição de palavras.

Tradução: «empower»

Mais de metade

      «Não raras vezes», escreve-me um leitor, «deparo com a palavra empower e ainda não lhe consegui encontrar uma outra paralela em português. Na sua opinião, qual seria?» Há, não podemos esquecê-lo ou ignorá-lo, estrangeirismos intraduzíveis. Não me parece que seja o caso. Já vi o termo traduzido (e já o traduzi) por capacitar. O que importa é que o leitor (ou ouvinte) saiba que o fazemos corresponder ao inglês empower. Usar capacitar nunca pode ser mais estranho do que usar empower, não é assim? Convém não esquecer, e foi mesmo notícia esta semana, que 51,3 % dos Portugueses adultos não falam uma única língua estrangeira.

«Correr atrás do prejuízo» II


A sibila

      Na Antena 1, a repórter Rita Roque, que vai acompanhar o líder comunista no seu périplo pelo País, disse que Jerónimo de Sousa «vai correr atrás do prejuízo». Se não conhecêssemos a sem-razão da expressão e não soubéssemos que é precisamente nas autárquicas que os comunistas mais simpatias angariam, poderíamos pensar que se trata de uma profecia da jornalista. Embora o meio natural desta expressão seja no jornalismo desportivo, também é usada, para evidente prejuízo da compreensão dos ouvintes, na informação generalista. Contigo isto não muda.

Uma acepção de «vernáculo»

Vernáculo estrangeiro

      «“A única resposta que dou é parafrasear o dr. Alberto João Jardim na expressão inglesa a propósito de jornalistas — ‘Fuck you!’”. Foi assim que o bastonário Pedro Nunes reagiu ao semanário Expresso por estar a investigar denúncias de alegado favorecimento pela Ordem dos Médicos (OM) ao ateliê [de arquitectura] onde a filha estava a estagiar» («(Des)Ordem nos Médicos», Vera Lúcia Arreigoso, Expresso, 25.09.2009, p. 28). Há pouco mais de uma semana, a imprensa noticiou que o presidente da Câmara de Almeirim, Sousa Gomes (do PS) dirigira à vereadora da CDU, Manuela Cunha, na reunião do executivo, «entre outras frases vernáculas», escrevia o jornalista, «cale-se com essa merda. Fale mas é na merda dos pardais» («“Cale-se com essa m… fale dos pardais”», J. N. P., Correio da Manhã, 18.09.2009, p. 18). A primeira acepção de «vernáculo» que ocorre a um falante com umas tinturas de latim será talvez um sentido figurado: linguagem correcta, sem estrangeirismos na pronúncia, vocabulário ou construções sintácticas. E mesmo que lhe ocorra também a acepção que já vem do étimo, já será menos provável que lhe venha à mente a acepção (popular e jocosa) de linguagem popular, carregada de calão, termos chulos, tanto mais que não é acepção que todos os dicionários registem. Experimentem — têm aí um à mão? — consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Pois é.

Léxico: «senciente», «senciência»

Registe-se

      «Apoiada no que tem sido feito em países como a Alemanha, a Suíça e a Áustria, a Liga [Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA)] sugere que os animais constassem [sic] no Código Civil como “seres sensíveis e sencientes”. Isto de forma a abranger com maior acuidade aqueles seres que, mais do que sensibilidade, revelam senciência (que, basicamente, consiste na capacidade de sentir emoções como prazer ou sofrimento)» («Tribunal penhorou cão», Sara Felizardo, Sol, 25.09.2009, p. 34). O adjectivo uniforme senciente, esse quase todos os dicionários registam. Vem directamente do latim, língua em que era um particípio presente. Já senciência é um neologismo ainda não dicionarizado entre nós. Contudo, o vocábulo correspondente em inglês, sentience, foi registado pela primeira vez na língua na primeira metade do século XIX.

Arquivo do blogue