«Collants», «colãs», «meias-calças»

Há alternativas

      «Quanto à nudez [nas cenas de sexo nas filmagens], não é assim tão real. Cuecas cor de pele, toalhas para evitar o contacto e o famoso tapa sexo [sic], inventado pelos brasileiros. “É uma coisa muito simples. Uns colãs de nylon, cortados em forma de cuecas. Depois deixa-se um triângulo e cola-se, com aquela cola de bigodes, à frente e atrás no meio do rabinho. Assim, se estiveres em cima de alguém, os órgãos não estão em contacto directo”, explica São José Correia» («Luzes, câmara, acção e sexo. Os segredos das cenas sensuais no cinema», Vanda Marques, i, 26.09.2009, p. 50). Bem, o aportuguesamento resolve um problema muito frequente: a grafia com erros da palavra original, collants. Mas, mesmo sem aportuguesamento, há quem contorne a questão, usando o termo meias-calças: «Visto a saia de ontem com uma camisola diferente, umas cuecas lavadas e umas meias-calças pretas com uma malha apanhada, que mal se nota, mesmo atrás do joelho» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 13).

«Meia hora»

Não lhes passa

      No jornal, via quase todos os dias «meia-hora» — e emendava. Os jornalistas usam o hífen nas circunstâncias mais inconcebíveis. Alguns tradutores não andam longe de tais abusos (a que juntam a falta de critério): «Estava seco há meia-hora, quando eu desci a rua para ir comprar leite e Smarties» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 41). «A minha cara escalda pela segunda vez em meia hora e levanto os meus olhos sem graça do tampo da mesa e encaro a Analisa» (idem, ibidem, p. 84). «A Mãe esteve fora quase meia-hora e eu estou tão contente por ela ter voltado que me atiro para os braços dela, a tremer» (idem, ibidem, p. 101).

Revisão

Uma amostra

      Azul Mar,
Cathy Cassidy (com tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009). A ficha técnica diz-nos que a revisão foi da responsabilidade dos Serviços Técnicos de Revisão da Livraria Civilização Editora, o que pode significar várias coisas, uma das quais, a mais consentânea com as incongruências que a seguir aponto, entre muitas outras, que não teve revisão.
«— Por que é que não podes? — quer ela saber.» (p. 20)
«— Porque é que estás a ser tão misteriosa? — explode ela. — É suposto seres a minha melhor amiga, só que nunca me contas nada. Só te convidei porque parecias muito em baixo hoje. Queria animar-te.» (p. 21)
«— Porque não?» (p. 22)
«Por que não?» (p. 30)
«— Por que é que a tua mãe deixou o Miguel? — quer saber a Joana. — Ele tem um caso? Ou ela?» (p. 57)
«— Olha, Mar, querida, eu amo-vos a ti e à Luz. Amo a vossa mãe. Ela já fez valer o seu ponto de vista, porque é que não pode simplesmente voltar para casa agora? Porque é que não te dou uma boleia para onde quer que vocês estejam e falo com ela?» (p. 63)
«Por que é que a Mãe não me avisou que isto poderia acontecer? Por que é que ela não me disse o que fazer?» (p. 64)
«— Professora, por que é que não fazemos uma peça? Por que é que não fazemos uma representação de Oliver! para toda a escola ver?» (p. 76)
«— Mais ou menos. — A Mãe olha para dentro da sua chávena de café. — Ouve, Júlia, não é como tu pensas. Ele é um bom homem, na verdade. Porque é que achas que eu fiquei com ele tanto tempo?» (p. 113)
«Por que é que não podemos ter uma televisão, um computador, um telefone?» (p. 120)
«Porque é que as pessoas acham sempre que aos onze anos já somos demasiado crescidos para magias?» (p. 137)
«— Mar, desculpa — diz ela. — A polícia entregou-me esta carta há bocado e quando eu a li… Por que é que não a puseste no correio, Mar, querida?» (p. 194).

Léxico: «portcullis»

Imagem: http://www.free-images.org.uk/


É mesmo


      «Será uma história provocadora de bocejos, passada num castelo, onde teremos de nos lembrar da palavra para casa de banho medieval, ou daquela coisa quadriculada que fica por trás da ponte levadiça? Portcullis» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 73). É mesmo, portcullis, a porta corrediça na entrada de um castelo. O étimo deste é o francês porte coleice.

Notas de rodapé

Imagem: http://jinque.win.mofcom.gov.cn/

É melhor não compreenderem


      Mais um insondável princípio editorial: os livros infanto-juvenis não têm notas de rodapé. Mesmo que precisem delas. «A Mãe lembra-se dos cartões de energia e corre a comprar alguns para podermos ter luz, aquecimento e uma refeição quente mais logo» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 44). São os energy prepaid cards. Tal como na África do Sul, na Grã-Bretanha tanto a energia eléctrica como o gás são pré-pagos, sistema concebido na era Thatcher para evitar clientes incumpridores. Até com o fornecimento de água era assim, mas as acções judiciais interpostas pelos cidadãos eram tantas que o sistema acabou por ser abolido. Os jovens leitores vão ficar um tudo-nada perplexos, mas já lhes passará — quando virarem a página.

Algarismos e «rasta»

Ainda pior

      Aos vinte e cinco dias do mês de Setembro de dois mil e nove… Há a falsa crença de que nas actas e nas obras de literatura não se podem usar algarismos. Algarismos, só na numeração das páginas. «Fiz com que a minha mãe me cortasse todas as rastas quando estava no Segundo Ano — ela ainda as tem numa caixa de madeira com as fotografias dela, a sua bijutaria hippie e um bilhete amarelecido do Festival de Glastonbury de há séculos» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 10). Se eu já achava estranho que a maioria dos professores que conheço escreva «2.º Ano», concluo agora que em algumas editoras o discernimento não é maior. Por outro lado, ainda não vejo o vocábulo «rasta» dicionarizado, ao contrário de «rastafári», «rastafarianismo» e «rastafariano».

Actualização em 23.10.2009

      Mas vai sendo usado todos os dias: «Pedro é o mesmo jovem de 17 anos e rastas compridas que na passada sexta-feira teceu duras críticas à política seguida pela ministra da Educação, na presença desta e do Presidente da República» («O jovem que desafiou a ministra da Educação quer um país que tenha as pessoas em conta», Renato Duarte, Público, 22.10.2009, p. 10).

Léxico: «farmácia de oficina»

Desleixo dos jornalistas


      «De acordo com o Infarmed, em 2008 foram registadas 208 alterações de propriedade de farmácias de oficina» («400 farmácias mudaram de proprietário», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 18). Da agência Lusa mandam assim o texto, e nos jornais deixam estar. Nem a generalidade dos jornalistas saberá o que é uma farmácia de oficina, quanto mais o leitor médio. O próprio decreto-lei (n.º 307/2007, de 31.08) que define o regime jurídico das farmácias de oficina não define este conceito. Como escreveu Vital Moreira há já cinco anos no blogue Causa Nossa, «antigamente os medicamentos eram feitos pelos farmacêuticos nas farmácias, verdadeiras oficinas de produção de fármacos. Hoje os medicamentos são fabricados e embalados nos laboratórios farmacêuticos». A maioria dos manipulados (designação que se dá aos medicamentos preparados manualmente, em farmácia ou nos serviços farmacêuticos hospitalares, mediante prescrição médica) é para a área da dermatologia. Vital Moreira concluía que o conceito de farmácia de oficina era arcaico, pertencia ao passado, e só servia «para continuar a legitimar serodiamente a ideia da exclusividade da propriedade das farmácias pelos licenciados em farmácia e a exclusividade da venda de todos os medicamentos, mesmo os de consumo e venda livre (como as aspirinas), em farmácias». Não sei até que ponto o nosso conceito, que subsiste apesar da alteração da lei, não deve algo ao francês pharmacie d’officine.

Léxico: «nível morto»

Preguiça dos jornalistas

      «O volume de água armazenado na albufeira do Roxo (Beja) está perto do nível morto e, se não chover “em breve”, a qualidade da água bruta poderá diminuir, o que irá obrigar a reforçar o tratamento para abastecimento público» («Falta de chuva diminui qualidade», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 21). A notícia continuava, mas sobre o conceito de nível morto, nem uma palavra. O leitor que pesquise. O nível morto de água numa barragem é aquele abaixo do qual a água não é usada para consumo.


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