Algarismos e «rasta»

Ainda pior

      Aos vinte e cinco dias do mês de Setembro de dois mil e nove… Há a falsa crença de que nas actas e nas obras de literatura não se podem usar algarismos. Algarismos, só na numeração das páginas. «Fiz com que a minha mãe me cortasse todas as rastas quando estava no Segundo Ano — ela ainda as tem numa caixa de madeira com as fotografias dela, a sua bijutaria hippie e um bilhete amarelecido do Festival de Glastonbury de há séculos» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 10). Se eu já achava estranho que a maioria dos professores que conheço escreva «2.º Ano», concluo agora que em algumas editoras o discernimento não é maior. Por outro lado, ainda não vejo o vocábulo «rasta» dicionarizado, ao contrário de «rastafári», «rastafarianismo» e «rastafariano».

Actualização em 23.10.2009

      Mas vai sendo usado todos os dias: «Pedro é o mesmo jovem de 17 anos e rastas compridas que na passada sexta-feira teceu duras críticas à política seguida pela ministra da Educação, na presença desta e do Presidente da República» («O jovem que desafiou a ministra da Educação quer um país que tenha as pessoas em conta», Renato Duarte, Público, 22.10.2009, p. 10).

Léxico: «farmácia de oficina»

Desleixo dos jornalistas


      «De acordo com o Infarmed, em 2008 foram registadas 208 alterações de propriedade de farmácias de oficina» («400 farmácias mudaram de proprietário», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 18). Da agência Lusa mandam assim o texto, e nos jornais deixam estar. Nem a generalidade dos jornalistas saberá o que é uma farmácia de oficina, quanto mais o leitor médio. O próprio decreto-lei (n.º 307/2007, de 31.08) que define o regime jurídico das farmácias de oficina não define este conceito. Como escreveu Vital Moreira há já cinco anos no blogue Causa Nossa, «antigamente os medicamentos eram feitos pelos farmacêuticos nas farmácias, verdadeiras oficinas de produção de fármacos. Hoje os medicamentos são fabricados e embalados nos laboratórios farmacêuticos». A maioria dos manipulados (designação que se dá aos medicamentos preparados manualmente, em farmácia ou nos serviços farmacêuticos hospitalares, mediante prescrição médica) é para a área da dermatologia. Vital Moreira concluía que o conceito de farmácia de oficina era arcaico, pertencia ao passado, e só servia «para continuar a legitimar serodiamente a ideia da exclusividade da propriedade das farmácias pelos licenciados em farmácia e a exclusividade da venda de todos os medicamentos, mesmo os de consumo e venda livre (como as aspirinas), em farmácias». Não sei até que ponto o nosso conceito, que subsiste apesar da alteração da lei, não deve algo ao francês pharmacie d’officine.

Léxico: «nível morto»

Preguiça dos jornalistas

      «O volume de água armazenado na albufeira do Roxo (Beja) está perto do nível morto e, se não chover “em breve”, a qualidade da água bruta poderá diminuir, o que irá obrigar a reforçar o tratamento para abastecimento público» («Falta de chuva diminui qualidade», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 21). A notícia continuava, mas sobre o conceito de nível morto, nem uma palavra. O leitor que pesquise. O nível morto de água numa barragem é aquele abaixo do qual a água não é usada para consumo.


Tradução: «support»


Difícil de suportar


      «Os dois foram viver juntos e tiveram uma criança. Marquez reclamava ter deixado o trabalho a pedido do actor de ‘CSI’ (em exibição na SIC), uma vez que este lhe prometera suporte financeiro» («Ex-companheira de Caruso retira queixa», Isabel Faria, Correio da Manhã, 22.09.2009, p. 44). Cara Isabel Faria: a imprensa anglo-saxónica é que fala em financial support, mas convém traduzir bem: apoio (ou sustento) financeiro. Suporte, nesta acepção, é anglicismo semântico que devemos evitar.

Sol/sol

Mais uma pazada


      «Não são jovens arrivistas à procura de um lugar ao Sol» («Aníbal, José e Manuela no país dos inimputáveis», João Miguel Tavares, Diário de Notícias, 22.09.2009, p. 7). Aqui, o nosso colunista confunde Sol com sol, e o revisor não estava lá para corrigir o erro primário. Já devia saber que se escreve com inicial minúscula quando nos referimos à luz que emana do astro Sol, que, este sim, se grafa com inicial maiúscula. Ou o jornalista também escreve «uma pazada de Terra»?

Precursor/percursor

Pequenas confusões


      «O pintor inglês JMW Turner, considerado um percursor do impressionismo, é celebrado pela Tate Britain, em Londres, que exibe a partir de amanhã alguns dos seus quadros ao lado dos mestres europeus que o inspiraram» («Exposição ‘Turner e os Mestres’ em Londres», Diário de Notícias, 22.09.2009, p. 54). É um erro muito comum, este de confundir percursor com precursor. Precursor é o que precede, o que vai adiante, o que anuncia com antecipação. Percursor, o que percorre, o que faz um percurso. Para quem é dado a confusões, a melhor mnemónica é esta: relacionar o prefixo pre- com um termo que exprima inequivocamente anterioridade, como pré-aviso, por exemplo, que é o aviso prévio, o aviso que foi feito antes. E o precursor é isso mesmo, o que está à frente no anúncio de algo.

Léxico: «roga»

Nas vindimas, com alegria

      «Todos os anos repetem-se as rogas de 40 pessoas que sobem o Douro desde Resende ou Cinfães para vindimar» («Vindimas antecipadas», Bernardo Esteves, Correio da Manhã, 21.09.2009, p. 21). Nas sociedades modernas, urbanas, deixámos de ouvir a palavra roga. Na definição (que parece redigida por um director da antiga FNAT, Fundação Nacional para Alegria no Trabalho) do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «grupo alegre de homens e mulheres, por vezes toda a população válida de uma ou mais aldeias de Trás-os-Montes e da Beira, que, na época própria, se desloca para o Alto Douro, para trabalhar nas vindimas». É um derivado regressivo do verbo rogar, na acepção de «assalariar, contratar».

Actualização em 26.09.2009

      «Juntos formam uma empreitada — a que no passado se chamava “roga” — de 35 a 40 vindimadores, vindos de Resende, Pinhão ou de São João da Pesqueira» («Um país nas vinhas», Susana Torrão, Notícias Sábado, 26.09.2009, p. 27).

Uso de estrangeirismos

Imagem: http://commons.wikimedia.org/

Do Vermont à Porcalhota


      «Com uma área de 20 mil metros quadrados, o parque temático permite a prática de ski, snowboard, skate, inline (patins em linha) e BMX freestyle» («Esquiar na Amadora por 18 €», Bernardo Esteves, Correio da Manhã, 21.09.2009, p. 19). Apesar de o título usar o verbo esquiar, no texto o jornalista achou que ficava melhor em inglês, para não destoar de tudo o resto… O que o levou também a usar o vocábulo inline, se bem que tenha tido de o explicar (patins em linha). Em vez de pensar que podia, pelo menos, usar duas palavras portuguesas, não, preferiu tornar o texto parcialmente compreensível a um turista anglófono. Assim, esquiar no Vermont ou na Porcalhota fica mais parecido.

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