Léxico: «porta-valores»

Imagem: http://jn.sapo.pt/

Valores



      «Dezassete mil euros foi quanto rendeu o ataque que um “solitário” armado protagonizou este sábado à tarde contra um porta-valores da empresa Esegur, na Pontinha. O roubo registou-se quando o porta-valores procedia à reposição de uma caixa Multibanco, junto a um centro comercial, confirmou ao 24horas fonte policial» («Assalto a porta-valores rende 17 mil euros», Valdemar Pinheiro, 24 Horas, 14.09.2009, p. 15). A lei designa-os vigilantes porta-valores. É a primeira vez que vejo a designação na imprensa, que habitualmente se lhes refere como seguranças. Quanto aos veículos em que se faz o transporte dos valores, são, como se sabe, carrinhas de valores (mas, por vezes, referidos como blindados): «Na Charneca da Caparica, Almada, quatro homens atacaram uma carrinha de valores estacionada junto a um banco» («Duas carrinhas atacadas», Miguel Curado, Correio da Manhã, 20.08.2009, p. 11).

Actualização em 21.09.2009

      Uma portaria (n.º 1084/2009, de 21 de Setembro) do Ministério da Administração Interna, publicada hoje, fala em «vigilante de transporte de valores».

Léxico: «bidiário»

Mais uma só deles

      «Quim, responsável pela formação dos sadinos, que ontem orientou a sessão bidiária da equipa, é o técnico eleito pela SAD para dirigir os sadinos no jogo de domingo, na Figueira da Foz, ante a Naval.» O revisor antibrasileiro embirra com a palavra «bidiário», «inventada pelos jornalistas». Também não a encontro atestada em nenhum dicionário, mas o certo é que na imprensa desportiva é de uso comum. Se há bissemanal, bimensal, bienal (ou bianual), porque não forjar bidiário? O revisor antibrasileiro não concordaria com a afirmação de Henry Becque de que não temos tempo para observar os outros, não temos tempo para os escutar: há apenas tempo para dizer mal deles. Não, não, ele também quer doutriná-los. Vai ter com eles, argumenta: «Se se realiza duas vezes ao dia, como é que é “a sessão”?»

Níveis de língua

Uma questão de nível

      «O escandaloso comportamento de Irby ocorreu a 26 de Março num voo entre Bangalore (Índia) e Londres. Mal o avião levantou voo, a herdeira começou a falar alto com o passageiro da fila de trás, Daniel Melia, que viajava com a namorada. Esta chateou-se e mudou-se para outra zona do avião, e foi então que Irby e Melia começaram a “flirtar descaradamente”. Num ápice consumiram três garrafas de vinho» («Socialite britânica bêbeda em avião», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 33). Está aqui em causa o nível de língua. Chatear(-se) provém do calão, e há muito entrou na linguagem familiar. O jornalista devia perceber isto. Mas há sempre a Iniciativa Novas Oportunidades...


Bem-comportado/malcomportado

Distraídos

      É um dos erros mais comuns: «É prudente desconfiar de gente com ar de bem comportada que se propõe moralizar a pátria. O País já teve uma má experiência na era democrática. Uns tantos homens bons (inspirados por um general Presidente da República, homem dotado de rara sensibilidade política que o levou a incompatibilizar-se com todas as bancadas parlamentares) fundaram um novo partido — Partido Renovador» («Os novos renovadores», Manuel Catarino, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 29).


BATE é acrónimo


Até que fura

      «Mais de cinquenta mil pessoas são esperadas na Luz amanhã, para ver o jogo entre as águias e o Bate Barisov» («Bate Barisov rende um milhão», Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 11). Consoante pender mais para o bielorrusso ou para o russo, ora será Barisov ora Borisov. Mas nunca é Bate, pois trata-se de um acrónimo: BATE.

Ortografia: «héli»

Acertaram em Julho

      «Bombeiros com medo de que o heli explodisse» (Luís Oliveira, Correio da Manhã, 14.06.2009, p. 10). «Felipe Massa recebeu assistência ainda no circuito sendo transportado de héli para o hospital» («Massa sobrevive a acidente a 200 km/h», João Paulo Godinho, Correio da Manhã, 26.07.2009, p. 39). «Depois de ter feito campanha num barco e de comboio, ontem o coordenador do BE sobrevoou a serra da Arrábida de helicóptero, Francisco Louçã fez a viagem a bordo de um ‘heli’ Agusta Westland 139» («Louçã sobrevoa a Arrábida», Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 28). Em três meses, três formas de grafar o vocábulo (redução, como já aqui vimos). As probabilidades de acertarem aumentam.

Tradução: «imbeccati»

Mal ensinados


      «Para o primeiro-ministro italiano, as revelações que nos últimos meses têm vindo a público sobre as suas festas privadas não passam de “calúnias”, contra as quais — garante — tem o direito de se defender com todos os meios ao seu alcance. “Um chefe de governo que vê como se difama o seu próprio país por parte de uns diários ensinados e que está calado sem reagir não tem o direito de recorrer aos meios legais para defender que isso não é liberdade de Imprensa, mas que se chama na realidade difamação?”, questionou o primeiro-ministro» («“Há canalhas na Imprensa”», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 31). «Diários ensinados»? No sítio da TVI, a tradução, porque é disso que se trata, ainda era pior: «“Um chefe do Governo que vê como se difama a seu próprio país por parte de uns diários leccionados e que esteve calado sem reagir, não tem o direito de recorrer a meios legais para defender que isso não é liberdade de imprensa mas se chama difamação?», assinalou o primeiro-ministro.» O diário La Stampa reproduziu as declarações do primeiro-ministro italiano: «Un capo del governo che vede diffamare il proprio Paese da giornali chiaramente imbeccati, che è stato zitto per tutto il tempo senza reagire, non ha nemmeno il diritto di adire alle vie legali per sostenere che questa non è libertà di stampa ma si chiama diffamazione?» A palavra é então imbeccati, particípio do verbo imbeccare, usado aqui em sentido figurado: «Istruire qlcu., suggerendogli cosa dire o cosa fare.» Industriados, instruídos, doutrinados seriam boas traduções.

Léxico: «reconfortável»

Desde 1899

      «O mítico ‘Camarada João’, como era venerado pelos militantes, passa despercebido na imagem — mas é ele mesmo, em carne e osso, e o seu inconfundível bigode. É reconfortável saber que Arnaldo Matos ainda é do MRPP. Já lhe passou a mania de querer ser o grande educador da classe operária» («Arnaldo Matos ainda é do MRPP», Manuel Catarino, Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 29). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, sim, mas os corpora da língua não o conhecem de lado nenhum, registando antes reconfortante.



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