Prosónimos e «defeso»

At one stroke

      Bem sei que o revisor antibrasileiro estava escaldado por, na véspera, um jornalista ter escrito Capital da Mobília, mas, ainda assim, devia ter reflectido mais quando lhe apareceu Cidade do Lis e ele emendou para cidade do Lis: «O médio, autor do segundo golo, chegou a ser anunciado no defeso, como reforço vitoriano, mas acabou por rumar à cidade do Lis.» (Ah, sim, cada vez que leio, e é todos os dias, «defeso» no âmbito do futebol não deixo de dar uma gargalhada. Para os dicionários e para milhões de falantes, «defeso» ainda é só a época do ano em que é proibido caçar ou pescar.) Os pobres jornalistas vão ficar perplexos: eu a doutriná-los pacientemente na grafia correcta dos prosónimos, este tratante a destratar assim a língua de uma penada inepta.

Jornalismo desportivo

Imaginação, precisa-se


      Ultimamente e com uma insistência quase doentia, um dos modos de dizer mais usados por alguns jornalistas é «ele que». Valha este exemplo (modificado): «O extremo-esquerdo ainda só foi utilizado duas vezes, mas ganhou ritmo ao serviço da selecção uruguaia no duplo confronto de apuramento para o Mundial, ele que na época transacta até brilhou em Inglaterra, frente ao Manchester United, apontando um dos dois golos dos dragões.» E é impressão minha ou antigamente escrevia-se Dragões, Leões e Águias? Agora todos os jornais escrevem estas palavras com minúscula inicial.

Dupla negativa e revisão

Palavra-chave


      Pode ter falhas inconcebíveis (anteontem perguntava-me se grafo elemento-chave com hífen. Que sim, respondi-lhe, acrescentando que podia consultar o dicionário e procurar palavra-chave, talvez a única que os dicionários registam que pode servir de analogia), mas o revisor antibrasileiro é escrupuloso como nunca vi ninguém no que respeita a repetições de palavras e a faltas de concordância. Rever bem exige sempre olhar lá para a frente da frase e, ao mesmo tempo, não nos esquecermos do que ficou para trás. E chamou-me a atenção para a seguinte frase, revista por outro revisor: «Nem mesmo outros elementos que fazem parte do conselho directivo, conselho fiscal e assembleia geral não estão entre os alvos de Bettencourt que pretendia mesmo “acertar nalguns agitadores”.» «Nem de pão não nos fartamos», escreveu Gil Vicente no dealbar do século XVI. Para leitores de um desportivo, alguns semiletrados, pode ser demasiado.

«Juíza de linha», «juiz-árbitro»

Serena, Williams

      O revisor antibrasileiro tem razão: a categoria de juiz-árbitro, no ténis, é um conceito redundante. Peguem num dicionário e consultem os verbetes «juiz» e «árbitro». Nas acepções relativas ao desporto vemos, respectivamente: «o que, em jogos ou provas desportivas, fiscaliza a observância das regras; árbitro» e «indivíduo que, em jogos desportivos, fiscaliza a observância das regras». É como juntar dois cavalos: não dá nada, não há prole. Eu sei: especificidades do desporto. Também andou bem o revisor ao emendar para juíza de linha, pois sabia que tinha sido uma mulher a desempenhar a função. Contudo, se afirma seguir sempre o que regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, edição de 2003, teria de ter grafado juíza-de-linha (que também regista juiz-de-campo). O Dicionário Houaiss regista juiz de linha, e a meu ver bem, pois escreve-se juiz de direito, por exemplo.

Sobre «míster»


Faz-se mister


      Admito, admito: míster, do inglês mister, a significar treinador de futebol (!) está aportuguesado, e, sendo assim, devemos usá-lo: «“Temos de cumprir os objectivos tácticos do míster.” Foi, decerto, por influência da presença de treinadores ingleses em clubes portugueses que se passou a usar o termo com uma sonoridade bem portuguesa. Na última versão electrónica do Dicionário Houaiss, que estou a usar, com mais de 442 mil entradas, locuções e acepções, não se regista esta acepção nem o aportuguesamento. É mesmo coisa nossa...

Sobre «suprir»

Ora bem


      «A central do Pego supre 11 por cento da electricidade em Portugal e é o segundo maior emissor de CO2 no país» («Central do Pego estuda enterramento de CO2», Público, 10.09.2009, p. 22). O verbo suprir não é muito usado, e muito menos esta acepção de abastecer, prover. Etimologicamente, o verbo latino suppleō (subpl-), ēvī, ētus, ēre significava tão-somente «encher de novo». Na frase, não foi usado como transitivo indirecto, pois não tem o complemento regido pela preposição a (com certos verbos, com a preposição para). Como bitransitivo ou biojectivo (e Maria Tereza de Queiroz Piacentini lembra «que já não se fala em “bitransitivo”, mas em “transitivo direto e indireto”), também não. Que acham os meus leitores?

Actualização às 16.42

      Só a Academia Brasileira de Letras me respondeu: «O verbo suprir pode ser regido pelas preposições de, com e a. (TDI: supri-lo de, com...) A construção: ...supre 11% da electricidade em Portugal ...está correta. Suprir a uma família (TI).»

Léxico: «implantes cocleares»

Imagem: http://www.ivsordera.com/

Não compreendem, não



      «Três médicos e dois funcionários do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e dois gestores de empresas fornecedoras de implantes cocleares, um deles suíço, vão responder em tribunal por corrupção e falsificação de documentos» («Três médicos julgados por corrupção», I. J., Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 19). A preocupação é sempre a mesma: o leitor médio compreenderá o que são implantes cocleares? Tanto como se o jornalista tivesse escrito ouvidos biónicos.

Ortografia: «lobista»

Parem!

      «As confissões dizem respeito a uma relação com Heidi Dejong Barsuglia, 19 anos mais nova, e representante, ou ‘lobbista’, da Sempra Energy. Ela veio a público negar tudo e a empresa que representa afirmou desconhecer o caso da empregada com o deputado» («Conversa sexual demite deputado», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 33). Lobbista, a sério? Ainda em Junho escreviam lobista: «Segundo o ‘Corriere della Sera’, Tarantini cobrava ainda dinheiro para exercer influência sobre Berlusconi. Chegou a cobrar 150 mil euros por ano ao Grupo Intini enquanto lobista» («Cocaína nas festas», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 25.06.2009). Talvez não seja propriamente um recuo, mas mais uma tergiversação lamentável.

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