Sobre «suprir»

Ora bem


      «A central do Pego supre 11 por cento da electricidade em Portugal e é o segundo maior emissor de CO2 no país» («Central do Pego estuda enterramento de CO2», Público, 10.09.2009, p. 22). O verbo suprir não é muito usado, e muito menos esta acepção de abastecer, prover. Etimologicamente, o verbo latino suppleō (subpl-), ēvī, ētus, ēre significava tão-somente «encher de novo». Na frase, não foi usado como transitivo indirecto, pois não tem o complemento regido pela preposição a (com certos verbos, com a preposição para). Como bitransitivo ou biojectivo (e Maria Tereza de Queiroz Piacentini lembra «que já não se fala em “bitransitivo”, mas em “transitivo direto e indireto”), também não. Que acham os meus leitores?

Actualização às 16.42

      Só a Academia Brasileira de Letras me respondeu: «O verbo suprir pode ser regido pelas preposições de, com e a. (TDI: supri-lo de, com...) A construção: ...supre 11% da electricidade em Portugal ...está correta. Suprir a uma família (TI).»

Léxico: «implantes cocleares»

Imagem: http://www.ivsordera.com/

Não compreendem, não



      «Três médicos e dois funcionários do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e dois gestores de empresas fornecedoras de implantes cocleares, um deles suíço, vão responder em tribunal por corrupção e falsificação de documentos» («Três médicos julgados por corrupção», I. J., Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 19). A preocupação é sempre a mesma: o leitor médio compreenderá o que são implantes cocleares? Tanto como se o jornalista tivesse escrito ouvidos biónicos.

Ortografia: «lobista»

Parem!

      «As confissões dizem respeito a uma relação com Heidi Dejong Barsuglia, 19 anos mais nova, e representante, ou ‘lobbista’, da Sempra Energy. Ela veio a público negar tudo e a empresa que representa afirmou desconhecer o caso da empregada com o deputado» («Conversa sexual demite deputado», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 33). Lobbista, a sério? Ainda em Junho escreviam lobista: «Segundo o ‘Corriere della Sera’, Tarantini cobrava ainda dinheiro para exercer influência sobre Berlusconi. Chegou a cobrar 150 mil euros por ano ao Grupo Intini enquanto lobista» («Cocaína nas festas», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 25.06.2009). Talvez não seja propriamente um recuo, mas mais uma tergiversação lamentável.

Como falam os políticos

(Fiquei muito contente por comprovar que não fui o único a ver naquele sinal de V o
coelhinho da Playboy. Luís Aguiar-Conraria viu o mesmo)

Tema para tese


      Enquanto não chega um estudo completo e sério que analise a linguagem dos políticos portugueses, ficamos com estes apontamentos jornalísticos: «Manuela Ferreira Leite — que já não diz “piquenas”, mas não consegue disfarçar o vocabulário curto e a sintaxe sem ordem que lhe atrapalham as frases e as ideias — garante que isto só lá vai com as pequenas e médias empresas — e, para isso, quer aliviá-las do pagamento especial por conta, tributação que ela própria agravou quando era ministra das Finanças no Governo chefiado por Durão Barroso» («Já não diz “piquenas”», Manuel Catarino, Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 29). Claro que «sintaxe sem ordem» é algo oximorónico (e «sintaxe desordenada» ainda o seria mais, mas o jornalista não nos quis dar tal alegria).

Ortografia: «magnetoeléctrico»

É só copiar


      «O Mercedes-Benz S 400 Hybrid, o primeiro automóvel híbrido do Mundo a utilizar baterias de iões de lítio, tem por base a versão a gasolina S 350 e vem equipado com um motor magnético-eléctrico de 20 cv e caixa automática de sete velocidades, a 7G-Tronic, configurada para módulo híbrido» («Mercedes-Benz aposta na tecnologia híbrida», Correio da Manhã/«Sport», 12.09.2009, p. 22). E daí talvez não. Ontem vimos que o jornalista deveria ter grafado piezoeléctrico (ou piezeléctrico); hoje, é magnetoeléctrico (ou magneteléctrico). O jornalista leu na apresentação do modelo: «Hybrid drive system with an optimised V6 petrol engine, magneto-electric motor and modified 7G-TRONIC guarantees high responsiveness in addition to the reduced fuel consumption.» E não pensou duas vezes: magnético-elécrico. O revisor achou que o jornalista não podia deixar de ter razão.

Ortografia: «top model»


Porquê?


      «A top-model Claudia Schiffer fez um ensaio ousado para a edição de Outubro da revista ‘Vogue’ alemã, uma edição especial de aniversário» («Ousada e sensual», Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 49). Os anglo-saxónicos escrevem top model; alguns de nós escrevem top-model.


Ortografia: «piezoeléctrico»

Assim não anda


      «No caso dos motores CDI de quatro cilindros as “performances” conseguidas ficam a dever-se aos novos injectores piezo-eléctricos e ao turbo de dois níveis» («Mercedes-Benz, familiar “premium”», Adriano Oliveira, Jornal de Negócios, 11.09.2009, p. 18). Nem é preciso perceber de mecânica para saber que está errado — basta conhecer a língua. Não conheço nenhum vocábulo português com o antepositivo de origem grega piez(o)- que tenha hífen.

Ortografia: «juiz-desembargador»

Semana sim, semana não

      «A sua juventude, aliada ao arrependimento que “pareceu sincero” aos juízes desembargadores, contribuiu para a decisão final» («Homicídio de rapariga com perdão de 4 anos», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 14). «“A comissão, através de mim, vai contactar os doentes para saber se estes aceitam participar no processo de mediação. Depois será emitida uma declaração e começaremos a trabalhar”, disse o juiz-desembargador, que conta ainda durante esta semana falar com os doentes. “Vamos averiguar os danos causados e depois propor um valor de indemnização”» («Cegos ouvidos esta semana», André Pereira, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 17).
      A Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945 — o único que interessa — autoriza a grafia com hífen. No Correio da Manhã, se não sabiam no dia 2, no dia 8 já o sabiam. Vamos agora ver se na próxima semana ainda se lembram.

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