«Noite», coloquialismo

Colóquios

      «Polícias sob escuta por ligações à noite» (Tânia Laranjo/Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 9.09.2009, p. 4). Quase somos levados a crer que um dicionário que registe o coloquialismo noite na acepção de «actividades de divertimento e lazer realizadas durante esse período de tempo; vida nocturna» é perfeito, mas depois, sempre insatisfeitos, não apenas verificamos que quase todos os dicionários o registam, como ficamos frustrados por estes apresentarem tantas lacunas. E onde é que esta marca da expressão oral registada na expressão escrita é usada? De textos jornalísticos a acórdãos. Há coloquialismos com sorte.

«Fixed-gear»: «carrete preso»


Sem travões    


      «Dentro de uma semana, João David Moreira, de 25 anos, tenciona sair da garagem da avó com uma montada nova. Um detalhe: tem duas rodas traseiras, para usar de forma alternada. Uma delas é “carrete preso”. No original, “fixed-gear” — a última tendência urbana em Portugal» («Olha agora: sem mãos, sem pés…», Joana Stichini Vilela, i, 8.09.2009, p. 41). Não sabia disto, e se eu gosto de bicicletas… A observação de que «no original» se designa “fixed-gear” só pode ser para rir. Se a jornalista tivesse começado por afirmar que é uma moda que vem dos EUA e que em inglês carrete preso se diz fixed-gear, já se justificava. Mas sim, é a última tendência e tem uma legião de fãs. Em alguns sítios, leio «carreto» em vez de «carrete», mas é incorrecto: nem nesta acepção de pequena roda dentada ou peça cilíndrica utilizada em vários maquinismos nem em qualquer outra são vocábulos sinónimos. A propósito, têm aqui um glossário relativo à bicicleta em várias línguas. De nada.

«Substâncias de corte»

Nome de baptismo

      «Depois de feitas as devidas misturas com substâncias de corte, cerca de meio quilo de droga chegava às vivendas dos condomínios privados por cerca de vinte mil euros a dividir por todos — o grama de cocaína não custa menos de quarenta euros» («‘Telecoca’ chega à alta-sociedade», Henrique Machado, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 8). Sabemos que aquelas substâncias de corte são substâncias — açúcar, talco, estricnina, etc. — que se adicionam às drogas para lhes aumentar o volume. Por vezes, são também designadas como substâncias de traço. Tenho sérias dúvidas que o leitor comum do Correio da Manhã conheça o conceito. E donde vem aquele «corte»? Do inglês cut, pois claro!, que traduzido dá «corte». Contudo, aquela acepção do verbo inglês significa adulterar, como em «to cut the whiskey with water», que poderíamos traduzir por baptizar.


«Alta-sociedade»?

Como alta-roda


      Numa só página do Correio da Manhã, com uma peça principal e dois pequenos textos, aparece três vezes alta-sociedade e duas alta sociedade. Desleixo óbvio da revisão, mas não é disso que vou falar. O título do artigo principal era, do ponto de vista linguístico, sugestivo: «‘Telecoca’ chega à alta-sociedade». Por analogia com alta-costura e alta-fidelidade, alto-forno e alto-mar, decerto que também se deve grafar com hífen. Esta é uma das questões que se esperava que um acordo ortográfico resolvesse. A Academia Brasileira de Letras, porém, é de opinião que alta sociedade não forma um todo semântico e significativo; é um adjectivo e um substantivo sem formarem um nome composto.

Sobre «stress»

Imagem: http://www.hamiltonhall.info/

Ora aí está



      «“Estamos perante um fenómeno que pode ter pouca expressão em termos de taxas percentuais, mas que, em números absolutos, impõe um ‘stress’ grande às unidades de saúde”, realçou Francisco George, que já em Agosto antecipava “duas a três semanas” de maior actividade epidémica da Gripe A» («“Papão” da gripe A cura-se com menos de quatro euros», Lúcia Crespo, Jornal de Negócios, 7.09.2009, p. 5). Ler estresse deixa-me doente, mas talvez menos do que ver stresse. Convenho que, à primeira vista, se reconhece menos o termo inglês no primeiro que no segundo. Contudo, não é isso que aqui está em causa, mas a necessidade de utilizar o próprio estrangeirismo. Há dias, num vislumbre aos canais de televisão, passei por um filme em que o tradutor optara por verter stress por tensão.


Influir e influenciar

Não desta vez

      Um leitor diz-me que na edição de hoje do jornal Público se lê o seguinte título: «Vera Jardim diz que caso pode influir nos resultados». E pergunta, como outros leitores perguntaram antes a propósito de outras frases: «Terá sido só para caber no título da caixa?» Mas não: nesta acepção de exercer influência, influir é sinónimo de influenciar. Ainda que o espaço da caixa do título tenha pesado na escolha deste verbo, não há nenhum atropelo.

Sobre «botellón»


Noitadas e copos

      Depois da movida, era quase inevitável: também o botellón chegou a Portugal. Na imagem, vemos a reprodução de um folheto de divulgação de um megabotellón (incorrectamente escrito porque escrito por estudantes universitários?) em Coimbra. E no dia 11 de Setembro de 2008, lia-se o seguinte título no Jornal de Notícias: «Bares prometem travar “botellón” nos Clérigos». Mas desta vez a notícia vem mesmo de Espanha: «Chamada ao local, uma viatura da polícia foi imediatamente apedrejada por um grupo de jovens que se encontrava no local a participar num ‘botellón’, as populares festas ao ar livre habitualmente regadas com muito álcool» («Noite de violência às portas de Madrid», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 32). «Festas populares»? Botellón é o nome que se dá em Espanha ao costume de jovens, reunidos em grandes grupos, consumirem bebidas alcoólicas na rua.

Disparates na televisão


Burradas

      Na redacção. Várias televisões ligadas. Todas sem som, felizmente. Numa delas, passavam os Jogos Surdolímpicos (ah, nunca tinham lido a palavra… Fiquem também com a correspondente inglesa: Deaflympics), em Taipé. Noutra, o concurso Jogo Duplo, apresentado por esse ícone — ts, ts, ts — cultural que é José Carlos Malato. Em rodapé, uma pergunta: «Um rebanho asinino é composto por: búfalos, carneiros, burros.» Então o colectivo rebanho não designa o grupo numeroso de animais domésticos herbívoros (em especial, gado lanígero) que, em regra, é guardado por um pastor? Bem faz D. Duarte Pio, que não tem televisão em casa, e não há-de ser por isso que não ascenderá ao trono.

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