«Alta-sociedade»?

Como alta-roda


      Numa só página do Correio da Manhã, com uma peça principal e dois pequenos textos, aparece três vezes alta-sociedade e duas alta sociedade. Desleixo óbvio da revisão, mas não é disso que vou falar. O título do artigo principal era, do ponto de vista linguístico, sugestivo: «‘Telecoca’ chega à alta-sociedade». Por analogia com alta-costura e alta-fidelidade, alto-forno e alto-mar, decerto que também se deve grafar com hífen. Esta é uma das questões que se esperava que um acordo ortográfico resolvesse. A Academia Brasileira de Letras, porém, é de opinião que alta sociedade não forma um todo semântico e significativo; é um adjectivo e um substantivo sem formarem um nome composto.

Sobre «stress»

Imagem: http://www.hamiltonhall.info/

Ora aí está



      «“Estamos perante um fenómeno que pode ter pouca expressão em termos de taxas percentuais, mas que, em números absolutos, impõe um ‘stress’ grande às unidades de saúde”, realçou Francisco George, que já em Agosto antecipava “duas a três semanas” de maior actividade epidémica da Gripe A» («“Papão” da gripe A cura-se com menos de quatro euros», Lúcia Crespo, Jornal de Negócios, 7.09.2009, p. 5). Ler estresse deixa-me doente, mas talvez menos do que ver stresse. Convenho que, à primeira vista, se reconhece menos o termo inglês no primeiro que no segundo. Contudo, não é isso que aqui está em causa, mas a necessidade de utilizar o próprio estrangeirismo. Há dias, num vislumbre aos canais de televisão, passei por um filme em que o tradutor optara por verter stress por tensão.


Influir e influenciar

Não desta vez

      Um leitor diz-me que na edição de hoje do jornal Público se lê o seguinte título: «Vera Jardim diz que caso pode influir nos resultados». E pergunta, como outros leitores perguntaram antes a propósito de outras frases: «Terá sido só para caber no título da caixa?» Mas não: nesta acepção de exercer influência, influir é sinónimo de influenciar. Ainda que o espaço da caixa do título tenha pesado na escolha deste verbo, não há nenhum atropelo.

Sobre «botellón»


Noitadas e copos

      Depois da movida, era quase inevitável: também o botellón chegou a Portugal. Na imagem, vemos a reprodução de um folheto de divulgação de um megabotellón (incorrectamente escrito porque escrito por estudantes universitários?) em Coimbra. E no dia 11 de Setembro de 2008, lia-se o seguinte título no Jornal de Notícias: «Bares prometem travar “botellón” nos Clérigos». Mas desta vez a notícia vem mesmo de Espanha: «Chamada ao local, uma viatura da polícia foi imediatamente apedrejada por um grupo de jovens que se encontrava no local a participar num ‘botellón’, as populares festas ao ar livre habitualmente regadas com muito álcool» («Noite de violência às portas de Madrid», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 32). «Festas populares»? Botellón é o nome que se dá em Espanha ao costume de jovens, reunidos em grandes grupos, consumirem bebidas alcoólicas na rua.

Disparates na televisão


Burradas

      Na redacção. Várias televisões ligadas. Todas sem som, felizmente. Numa delas, passavam os Jogos Surdolímpicos (ah, nunca tinham lido a palavra… Fiquem também com a correspondente inglesa: Deaflympics), em Taipé. Noutra, o concurso Jogo Duplo, apresentado por esse ícone — ts, ts, ts — cultural que é José Carlos Malato. Em rodapé, uma pergunta: «Um rebanho asinino é composto por: búfalos, carneiros, burros.» Então o colectivo rebanho não designa o grupo numeroso de animais domésticos herbívoros (em especial, gado lanígero) que, em regra, é guardado por um pastor? Bem faz D. Duarte Pio, que não tem televisão em casa, e não há-de ser por isso que não ascenderá ao trono.

Léxico: «leixão»

Explicado

      «Após a queda do leixão da praia Maria Luísa, Albufeira, a 21 de Agosto, que provocou a morte de cinco pessoas, o Ministério do Ambiente ordenou novas inspecções de Norte a Sul [sic] do País» («Litoral em risco», João Tavares, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 20). Leixão, termo que raramente se vê, designa o penedo destacado na costa marítima. Ah, sim, agora já sabem de onde vem o topónimo Leixões.


Léxico: «microempresário»

Não percebo

      «A curto prazo 5190 pequenos e microempresários vão abandonar a actividade e sair do mercado, engrossando as fileiras do desemprego» («5190 empresários saem do mercado», Diana Ramos, Correio da Manhã, 7.09.2009, p. 20). Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se há microempresas, não há microempresários. Mas há microengenharia e microengenheiros. Incoerências. O Dicionário Houaiss, em contrapartida, não apenas regista microempresário, como também o colectivo microempresariado e o adjectivo microempresarial.

Léxico: «financista»

Por aí


      «Uma Thurman não dispensou a pompa para se casar com o financista milionário Arpad Busson», lia-se na página 49 da edição de ontem do Correio da Manhã. Já em Abril o Diário de Notícias assegurara que «a actriz terá dado o nó com o multimilionário». Milionário ou multimilionário, o empresário suíço aparece na imprensa de língua inglesa como financier, que se pode traduzir por «financeiro» ou por «especialista em finanças». E financeiro, já aqui vimos, tanto significa o indivíduo versado em finanças como banqueiro. Financista, finalmente, é a pessoa especialista em finanças. É vocábulo muito pouco usado.

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