Máster, masterizar, remasterizar

Máster como póster

      Num texto datado de 2001, «Estrutura de Graus do Ensino Superior em Portugal», da autoria de José Novais Barbosa, ex-reitor e professor jubilado da Universidade do Porto, lê-se: «Aceitação da designação de “licenciatura” (embora se preferisse a de “bacharelato”) para o grau obtido no primeiro ciclo de estudos e introdução de um neologismo — que se propõe seja “máster” para não ser confundido com o mestrado — designando o grau obtido no final do segundo ciclo de estudos.» Esta questão está relacionada com a da distinção major/minor,aqui tratada, que se revelou matéria pouco consensual. Entre as acepções do termo aportuguesado (registado, por exemplo, no Dicionário Houaiss) máster não se encontra a do texto citado. E a propósito, lia-se na edição de ontem do Jornal de Negócios: «Beatles re-masterizados e em vídeojogo» (JN/«Investidor Privado», 7.09.2009, p. 2). Claro que é remasterizados que deveriam ter escrito, como se lia no Correio da Manhã: «O catálogo completo de gravações dos Beatles será reeditado em CD a 9 de Setembro, estando as canções remasterizadas digitalmente pela primeira vez.» O Dicionário Houaiss regista masterizar, masterização e remasterização.

Natural de Trindade e Tobago


Imagem: http://coastalcruzn.files.wordpress.com/


Feio como um trombone


      Na redacção: «Trindade e Tobago. Já há muito tempo que não aparecia. Como se chamam os naturais?» Silêncio de largos segundos. «Trinitários.» Pois é… e Tobago? O Dicionário Houaiss regista Trinitário-Tobagense. Já sabemos que Tobago é corruptela, mas veja-se o que acontece com Pompeia. É bem escusado tentarmos impor a forma Pompeios. Ninguém leva a sério (mas sim: a ignorância é risonha). No romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, o narrador, João, viúvo e reformado, anota: «Olho o fresco de Pompeia. Ou não bem de Pompeia mas de Estábias que fica logo a seguir e ao sul. Ou talvez não de Pompeia mas de Pompeios que é um nome feio como um trombone (trombone?)»

Cara a cara/cara-a-cara

Acho eu

      «Já dentro da papelaria, e cara-a-cara com o funcionário da Esegur, a dupla efectuou mais um disparo» («Invadem papelaria a tiro», Miguel Curado, Correio da Manhã, 4.09.2009, p. 1). Sendo locução adverbial de modo, escreve-se cara a cara, tal como frente a frente, ao passo que os respectivos substantivos se grafam cara-a-cara e frente-a-frente.aqui vimos a diferença. Se no primeiro semestre deste ano o Correio da Manhã é o diário generalista com mais vendas, com 115 094 exemplares vendidos diariamente, todos — jornalistas, editores e revisores — deviam ter ainda mais cuidado com a forma como escrevem.

Léxico: «tram-train»

Decerto que sim

      «Os novos veículos tram-train do Metro do Porto vão estar em exposição nas estações da Trindade, da Senhora da Hora e da Póvoa de Varzim, com visitas guiadas a partir de hoje» («Tram-train expostos», Correio da Manhã, 6.09.2009, p. 27). São várias as publicações que usam o vocábulo. Na página da Internet da RTP, lê-se que o «Sistema de Mobilidade do Mondego prevê a circulação de um metro ligeiro de superfície do tipo “tram-train” — com capacidade para circular nos eixos ferroviários, urbanos, suburbanos e regionais — no Ramal da Lousã (Coimbra-Serpins), e na cidade de Coimbra». Pergunto-me é se não haverá um termo português para designar este tipo de transporte híbrido.

Estrangeirismos

Dois light rails, s. f. f.


      «O plano prevê ainda ligações através de metro ligeiro (light rail) às zonas de mais difícil acesso pelo metropolitano, nomeadamente ao Alto da Ajuda» («Metro vai ter 33 novas estações», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 19). Não vá o leitor querer comprar um metro ligeiro no estrangeiro para pôr a circular no quintal, o jornalista acha indispensável indicar o nome em inglês. Nunca se sabe, não é?

Léxico: «banana»

Imagem: http://www.adventurebyyou.pt/

Um dia



      «Uma jovem de 19 anos foi ontem transportada para o Hospital de Faro, depois de se aleijar ao cair de uma ‘banana’ puxada por uma mota de água, na praia de Altura, no Algarve, por volta das 19h30» («Ferida numa ‘banana’», Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 56). Por enquanto, ainda não está dicionarizado e os jornalistas julgam que precisa de aspas, mas dentro de alguns anos, como sucedeu com a ficha eléctrica individual de forma alongada, será mais uma acepção do vocábulo: bóia insuflável de forma oblonga que é rebocada por um barco.

«Protegente»?

Podia ser


      A propósito da acusação de Luís Filipe Menezes de que o PS utilizou a base de dados da TV Cabo para convocar os munícipes de Gaia para uma acção partidária em Oliveira de Douro, Mário Crespo, na SIC Notícias, entrevistou o advogado, especialista em tecnologias da informação, Pedro Simões Dias, que afirmou que a Lei da Protecção de Dados Pessoais é «demasiado protegente». Ora aqui está um particípio presente latino — inexistente, e é pena, na língua portuguesa — a ser usado como adjectivo.

O símbolo de grama


Nunca mais

      «O condutor de um ligeiro envolvido numa colisão, sem feridos, na madrugada de ontem, na rua António Sérgio, na Guarda, acusou uma taxa de álcool de 2,73 gr/l» («Álcool ao volante», Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 12). Será possível que ainda ninguém tenha dito nada aos revisores do Correio do Manhã, que há anos a fio andam a errar nisto? O símbolo (não abreviatura, como ouço até revisores afirmarem) de grama, unidade de medida de massa, é g. Como símbolo, é um sinal convencional e invariável (não tem plural) utilizado para facilitar e universalizar a escrita e a leitura das unidades SI. Por ser símbolo e não abreviatura, não é seguido de ponto. E é do género masculino.

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