Léxico: «banana»

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Um dia



      «Uma jovem de 19 anos foi ontem transportada para o Hospital de Faro, depois de se aleijar ao cair de uma ‘banana’ puxada por uma mota de água, na praia de Altura, no Algarve, por volta das 19h30» («Ferida numa ‘banana’», Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 56). Por enquanto, ainda não está dicionarizado e os jornalistas julgam que precisa de aspas, mas dentro de alguns anos, como sucedeu com a ficha eléctrica individual de forma alongada, será mais uma acepção do vocábulo: bóia insuflável de forma oblonga que é rebocada por um barco.

«Protegente»?

Podia ser


      A propósito da acusação de Luís Filipe Menezes de que o PS utilizou a base de dados da TV Cabo para convocar os munícipes de Gaia para uma acção partidária em Oliveira de Douro, Mário Crespo, na SIC Notícias, entrevistou o advogado, especialista em tecnologias da informação, Pedro Simões Dias, que afirmou que a Lei da Protecção de Dados Pessoais é «demasiado protegente». Ora aqui está um particípio presente latino — inexistente, e é pena, na língua portuguesa — a ser usado como adjectivo.

O símbolo de grama


Nunca mais

      «O condutor de um ligeiro envolvido numa colisão, sem feridos, na madrugada de ontem, na rua António Sérgio, na Guarda, acusou uma taxa de álcool de 2,73 gr/l» («Álcool ao volante», Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 12). Será possível que ainda ninguém tenha dito nada aos revisores do Correio do Manhã, que há anos a fio andam a errar nisto? O símbolo (não abreviatura, como ouço até revisores afirmarem) de grama, unidade de medida de massa, é g. Como símbolo, é um sinal convencional e invariável (não tem plural) utilizado para facilitar e universalizar a escrita e a leitura das unidades SI. Por ser símbolo e não abreviatura, não é seguido de ponto. E é do género masculino.

Léxico: «chambrista»

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Essa praga



      «As ‘chambristas’ de Peniche, que alugam quartos a turistas nas suas habitações privadas entre Junho e Agosto, afirma que “a crise se faz sentir com muita força” no negócio deste Verão» («‘Chambristas’ sentem crise no negócio», Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 20). Podia ser pior: podiam ter optado por rumistas… Ou, ainda pior, roomistas. Escusado será dizer que nenhum dicionário regista o vocábulo.

Léxico: «espeleossocorro»


Grutas e poços

      Em Sanfins, Paços de Ferreira, dois homens, pai e filho, morreram num poço. Chamados ao local, os Bombeiros de Freamunde tentaram salvar as vítimas. Um bombeiro, contudo, apesar de estar munido de equipamento de respiração artificial, desmaiou. O Correio da Manhã entrevistou um técnico de espeleo-socorro, António Eusébio, que garantiu que por falta de oxigénio não foi, pois mesmo a profundidades superiores não falta oxigénio. Parece ser a adaptação para português da expressão francesa spéléo secours. A língua francesa usa a redução spéléo de spéléologie, que é simultaneamente elemento de formação, como em spéléonaute. Tal como o leitor Franco e Silva, também sou de opinião, face às regras explícitas do Acordo Ortográfico de 1945, que a melhor grafia é espeleossocorro, e não a que foi usada no texto citado.

Selecção vocabular

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Pior? «Claviculário»


      «Os três foram assassinados provavelmente na sexta-feira, mas os corpos, já em decomposição, só foram encontrados no final da noite de segunda. Familiares que estranharam o silêncio do casal foram à residência e, não obtendo resposta, chamaram um chaveiro e entraram» («‘Maldição’ de Collor faz mais vítimas», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 33). Para o falante médio, chaveiro é somente o lugar onde se guardam as chaves. O que defendo é que, nestas circunstâncias, o editor ou o revisor alterem o texto, já que o correspondente não teve o discernimento suficiente para o adequar ao público-alvo. A acepção de profissional que faz cópias de chaves ou que as adapta à fechadura é desconhecida entre nós.

Tradução: «sciencey»

Aparência

      «We are obsessed with health — half of all science stories in the media are medical — and are repeatedly bombarded with sciencey-sounding claims and stories.» O termo sciencey não aparece em dicionários unilingues, quanto mais em bilingues. O tradutor verteu-o assim: «Vivemos obcecados com a saúde — metade de todas as histórias científicas nos meios de comunicação social são médicas — e somos constantemente bombardeados com afirmações e histórias que soam a científicas.»

«Grelha costal»

Estão doentes     

      O jornalista tinha escrito que o jogador Pedro Moreira sofrera uma contusão da quadra costal, mas tal expressão não existe. Existe sim, e é usada em medicina, grelha costal (em francês, gril costal; em inglês, rib cage). É o nome que se dá ao conjunto das costelas, tal como se encontra disposto formando as paredes laterais da caixa torácica. Com o nome de grelha, o jornalista há-de conhecer melhor as grades de ferro para assar ou torrar sobre brasas e os quadros em que se apresentam, hora a hora, os pormenores de um programa de televisão. Quadra, por seu lado, sendo vocábulo polissémico, não pode ser usado neste sentido. Os jornalistas desportivos abusam desta linguagem médica mal assimilada. Ultimamente, tenho visto muito o traumatismo costal. Não é só ao futebolista que dói.

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