Léxico: «chambrista»

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Essa praga



      «As ‘chambristas’ de Peniche, que alugam quartos a turistas nas suas habitações privadas entre Junho e Agosto, afirma que “a crise se faz sentir com muita força” no negócio deste Verão» («‘Chambristas’ sentem crise no negócio», Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 20). Podia ser pior: podiam ter optado por rumistas… Ou, ainda pior, roomistas. Escusado será dizer que nenhum dicionário regista o vocábulo.

Léxico: «espeleossocorro»


Grutas e poços

      Em Sanfins, Paços de Ferreira, dois homens, pai e filho, morreram num poço. Chamados ao local, os Bombeiros de Freamunde tentaram salvar as vítimas. Um bombeiro, contudo, apesar de estar munido de equipamento de respiração artificial, desmaiou. O Correio da Manhã entrevistou um técnico de espeleo-socorro, António Eusébio, que garantiu que por falta de oxigénio não foi, pois mesmo a profundidades superiores não falta oxigénio. Parece ser a adaptação para português da expressão francesa spéléo secours. A língua francesa usa a redução spéléo de spéléologie, que é simultaneamente elemento de formação, como em spéléonaute. Tal como o leitor Franco e Silva, também sou de opinião, face às regras explícitas do Acordo Ortográfico de 1945, que a melhor grafia é espeleossocorro, e não a que foi usada no texto citado.

Selecção vocabular

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Pior? «Claviculário»


      «Os três foram assassinados provavelmente na sexta-feira, mas os corpos, já em decomposição, só foram encontrados no final da noite de segunda. Familiares que estranharam o silêncio do casal foram à residência e, não obtendo resposta, chamaram um chaveiro e entraram» («‘Maldição’ de Collor faz mais vítimas», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 33). Para o falante médio, chaveiro é somente o lugar onde se guardam as chaves. O que defendo é que, nestas circunstâncias, o editor ou o revisor alterem o texto, já que o correspondente não teve o discernimento suficiente para o adequar ao público-alvo. A acepção de profissional que faz cópias de chaves ou que as adapta à fechadura é desconhecida entre nós.

Tradução: «sciencey»

Aparência

      «We are obsessed with health — half of all science stories in the media are medical — and are repeatedly bombarded with sciencey-sounding claims and stories.» O termo sciencey não aparece em dicionários unilingues, quanto mais em bilingues. O tradutor verteu-o assim: «Vivemos obcecados com a saúde — metade de todas as histórias científicas nos meios de comunicação social são médicas — e somos constantemente bombardeados com afirmações e histórias que soam a científicas.»

«Grelha costal»

Estão doentes     

      O jornalista tinha escrito que o jogador Pedro Moreira sofrera uma contusão da quadra costal, mas tal expressão não existe. Existe sim, e é usada em medicina, grelha costal (em francês, gril costal; em inglês, rib cage). É o nome que se dá ao conjunto das costelas, tal como se encontra disposto formando as paredes laterais da caixa torácica. Com o nome de grelha, o jornalista há-de conhecer melhor as grades de ferro para assar ou torrar sobre brasas e os quadros em que se apresentam, hora a hora, os pormenores de um programa de televisão. Quadra, por seu lado, sendo vocábulo polissémico, não pode ser usado neste sentido. Os jornalistas desportivos abusam desta linguagem médica mal assimilada. Ultimamente, tenho visto muito o traumatismo costal. Não é só ao futebolista que dói.

Léxico: «retrospectoscópio»


Prever o passado

      Embora o contexto fosse claro («[…] quando recuarmos na História, com o retroscópio, tudo o que surgir dará a impressão de levar, inexoravelmente, ao nosso episódio negativo único.»), o tradutor verteu o termo inglês retrospectoscope como «retroscópio». Por falta de atenção, decerto, mas também porque não está registado em nenhum dicionário bilingue. A definição mais satisfatória que encontrei foi no texto «Urines Are Cooking: Perspectives on Medical Slang and Jargon», de John H. Dirckx: «A mythical instrument with which the physician is supposed to achieve “20/20 hindsight”.» Em português dir-se-á então retrospectoscópio. Visão (no caso, retrospecção) 20/20 é a visão normal. Foram os oftalmologistas que determinaram que uma pessoa com visão considerada «normal» deveria ser capaz de ver a uma distância de 6 metros (20 pés no sistema anglo-saxónico) da tabela de Snellen.

«Mano a mano» II

Locução ou substantivo?

      A propósito da grafia de mano a mano, o leitor (e colega revisor) Filipe levantou a hipótese de ser como em corpo a corpo/corpo-a-corpo. E é claro que é, mas no caso tratava-se da locução adverbial. E é sempre assim, quer se trate de corpo a corpo, dia a dia, mano a mano, taco a taco: se for locução adverbial (de modo, de tempo, etc.), não terá hífenes; se for substantivo, que é sempre formado com base na locução, tê-los-á. De todas as acima referidas, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista as três primeiras e os respectivos substantivos. Chegaremos à mesma conclusão para a quarta, taco a taco, e para quaisquer outras por analogia.

Actualização em 17.11.2009

      Eis um exemplo de utilização correcta da locução: «As baixas dos Estados Unidos já ultrapassavam a centena de milhar, em muitos casos vítimas do frígido Inverno coreano e da mestria do exército chinês no combate corpo a corpo» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 36).

Actualização em 21.1.2010

      Outro exemplo de uso correcto: «Os ladrões envolveram-se numa luta corpo a corpo e o funcionário das bombas de gasolina conseguiu dominar o assaltante, alertando depois a esquadra da PSP de Tomar.» («Gasolineiro domina assaltante», Francisco Pedro, Correio da Manhã, 17.1.2010, p. 56).

Ficar e ficar-se

Diário de um revisor

     

      Enquanto palitava, com minúcia de odontologista, a redúvia, o revisor antibrasileiro ia lendo e resmungando: «Ah! Ouça esta: “E por aí se ficou”! O brasileiro estragou isto tudo. Não basta escrever “E por aí ficou”?» O verbo ficar também é, sem qualquer dúvida, pronominal: ficar-se. Houve, no entanto, confusão do jornalista, pois, no contexto, o verbo é intransitivo, na acepção de permanecer em determinado ponto ou valor; não passar de. Para ser pronominal, a frase teria de ter outra redacção. Em relação à forma pronominal, o exemplo do Dicionário Houaiss refere-se a um cavalo — «O cavalo ficou(-se), e o vaqueiro estatelou-se no chão.» —, mas claro que se podia referir a um futebolista: «Em relação aos boatos que o dão como preguiçoso e pandegueiro, o avançado ficou-se.» Fico por aqui.

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