Léxico: «retrospectoscópio»


Prever o passado

      Embora o contexto fosse claro («[…] quando recuarmos na História, com o retroscópio, tudo o que surgir dará a impressão de levar, inexoravelmente, ao nosso episódio negativo único.»), o tradutor verteu o termo inglês retrospectoscope como «retroscópio». Por falta de atenção, decerto, mas também porque não está registado em nenhum dicionário bilingue. A definição mais satisfatória que encontrei foi no texto «Urines Are Cooking: Perspectives on Medical Slang and Jargon», de John H. Dirckx: «A mythical instrument with which the physician is supposed to achieve “20/20 hindsight”.» Em português dir-se-á então retrospectoscópio. Visão (no caso, retrospecção) 20/20 é a visão normal. Foram os oftalmologistas que determinaram que uma pessoa com visão considerada «normal» deveria ser capaz de ver a uma distância de 6 metros (20 pés no sistema anglo-saxónico) da tabela de Snellen.

«Mano a mano» II

Locução ou substantivo?

      A propósito da grafia de mano a mano, o leitor (e colega revisor) Filipe levantou a hipótese de ser como em corpo a corpo/corpo-a-corpo. E é claro que é, mas no caso tratava-se da locução adverbial. E é sempre assim, quer se trate de corpo a corpo, dia a dia, mano a mano, taco a taco: se for locução adverbial (de modo, de tempo, etc.), não terá hífenes; se for substantivo, que é sempre formado com base na locução, tê-los-á. De todas as acima referidas, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista as três primeiras e os respectivos substantivos. Chegaremos à mesma conclusão para a quarta, taco a taco, e para quaisquer outras por analogia.

Actualização em 17.11.2009

      Eis um exemplo de utilização correcta da locução: «As baixas dos Estados Unidos já ultrapassavam a centena de milhar, em muitos casos vítimas do frígido Inverno coreano e da mestria do exército chinês no combate corpo a corpo» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 36).

Actualização em 21.1.2010

      Outro exemplo de uso correcto: «Os ladrões envolveram-se numa luta corpo a corpo e o funcionário das bombas de gasolina conseguiu dominar o assaltante, alertando depois a esquadra da PSP de Tomar.» («Gasolineiro domina assaltante», Francisco Pedro, Correio da Manhã, 17.1.2010, p. 56).

Ficar e ficar-se

Diário de um revisor

     

      Enquanto palitava, com minúcia de odontologista, a redúvia, o revisor antibrasileiro ia lendo e resmungando: «Ah! Ouça esta: “E por aí se ficou”! O brasileiro estragou isto tudo. Não basta escrever “E por aí ficou”?» O verbo ficar também é, sem qualquer dúvida, pronominal: ficar-se. Houve, no entanto, confusão do jornalista, pois, no contexto, o verbo é intransitivo, na acepção de permanecer em determinado ponto ou valor; não passar de. Para ser pronominal, a frase teria de ter outra redacção. Em relação à forma pronominal, o exemplo do Dicionário Houaiss refere-se a um cavalo — «O cavalo ficou(-se), e o vaqueiro estatelou-se no chão.» —, mas claro que se podia referir a um futebolista: «Em relação aos boatos que o dão como preguiçoso e pandegueiro, o avançado ficou-se.» Fico por aqui.

Ortografia: «colorrectal»

Pouco recomendável


    «Recently, for example, we were told that red meat causes bowel cancer, and ibuprofen increases the risk of heart attacks: but you followed the news reports, you would be no wiser.» «Recentemente, por exemplo, disseram-nos que a carne vermelha causa cancro colo-rectal, e que o ibuprofeno aumenta o risco de ataques cardíacos: todavia, se nos guiássemos por estas notícias, ficaríamos exactamente na mesma.» Deve escrever-se, por muito que se leia o contrário, colorrectal. Num documento, «Termos mais utilizados em gastrenterologia», da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), recomenda-se «colorectal»(!). To each his own, diria um inglês. Cada macaco no seu galho, dizemos nós.

«Extra»: adjectivo variável

É isso mesmo


      «O carro particular do tenente-coronel Mário Bagina, comandante da GNR de Portalegre — responsável pela atribuição de férias extras a quatro militares da sua unidade, empenhados na caça à multa — foi também controlado em excesso de velocidade, a 141 km/h, perto de Elvas. O comando-geral da GNR confirma a ocorrência. Os guardas que detectaram a infracção são colegas dos quatro cabos a quem o tenente-coronel Bagina atribuiu sete dias de férias extras. […] Mário Bagina não quis, igualmente, relacionar esta infracção com a ordem de serviço em que concedeu férias extras a quatro cabos do trânsito» («Apanhado oficial da caça à multa», Miguel Curado, Correio da Manhã, 29.08.2009, p. 13). Pelo menos neste artigo, verifica-se o uso consistente da pluralização do adjectivo «extra». Também para mim, lembro, este adjectivo é variável.

Selecção vocabular

Pior? «Obsolescente»


      «Outra consequência desta controversa proposta, se chegasse a ser aprovada, seria o enorme aumento do tempo de duração do processo de averiguação, dada a complexidade e consequente morosidade da tramitação das acções no Supremo Tribunal Federal, o que poderia fazer, por exemplo, com que uma eventual condenação à perda de mandato ocorresse já depois do mandato em causa ter terminado, tornando obsoleta a decisão» («Congresso sem poder para julgar», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 30). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. O adjectivo obsoleto designa aquilo que caiu em desuso; ultrapassado; antiquado. Ora, acham que se aplica com propriedade no contexto? Pois não. Em vez de «obsoleto», deveria estar «inútil», por exemplo. O correspondente do Correio da Manhã em São Paulo até pode gostar do vocábulo «obsoleto», mas tem de o guardar para as ocasiões em que o poderá usar com propriedade.

Erros e revisores

De corpo e alma


      Dizia ontem, com alguma sanha, o revisor antibrasileiro, enquanto revia uma página, que «agora só se lê nos jornais “dar-se conta de” e não “dar conta de”, que é o correcto». É? Não é. Com o significado de «aperceber-se de», tanto se pode usar dar-se conta de como dar conta de. Uns momentos depois, falou, e não parecia estar a brincar, em almas depenadas. É um erro que se ouve e lê por aí, é verdade, mas um revisor não pode — sem estar a brincar — reproduzi-lo. Faz-nos temer pelos erros que acrescenta, há revisores assim, aos textos que revê. Alma penada, como se sabe, é a alma de um morto que, segundo a crença popular, vagueia pelo mundo em penitência.

Omissão de preposição


Ferocíssimo

      A notícia era sobre o jogo entre o Sporting e a Fiorentina, em Florença, e a comprovação de que faltara à equipa portuguesa o que «só os transalpinos têm». Título: «Um bravíssimo leão sem sorte e matreirice». Depois de revisto, um editor-chefe aproximou-se com cara de caso, quase feroz, em consonância com o título. «Isto não é português.» Já tinha, entretanto, alterado o título para «Bravíssimo leão sem sorte nem matreirice». Ora, o que acontece é que, como a preposição é a mesma para os dois substantivos (sorte e matreirice), pode ser omitida antes do segundo: Bravíssimo leão sem sorte e (sem) matreirice.

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