Ortografia: «colorrectal»

Pouco recomendável


    «Recently, for example, we were told that red meat causes bowel cancer, and ibuprofen increases the risk of heart attacks: but you followed the news reports, you would be no wiser.» «Recentemente, por exemplo, disseram-nos que a carne vermelha causa cancro colo-rectal, e que o ibuprofeno aumenta o risco de ataques cardíacos: todavia, se nos guiássemos por estas notícias, ficaríamos exactamente na mesma.» Deve escrever-se, por muito que se leia o contrário, colorrectal. Num documento, «Termos mais utilizados em gastrenterologia», da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), recomenda-se «colorectal»(!). To each his own, diria um inglês. Cada macaco no seu galho, dizemos nós.

«Extra»: adjectivo variável

É isso mesmo


      «O carro particular do tenente-coronel Mário Bagina, comandante da GNR de Portalegre — responsável pela atribuição de férias extras a quatro militares da sua unidade, empenhados na caça à multa — foi também controlado em excesso de velocidade, a 141 km/h, perto de Elvas. O comando-geral da GNR confirma a ocorrência. Os guardas que detectaram a infracção são colegas dos quatro cabos a quem o tenente-coronel Bagina atribuiu sete dias de férias extras. […] Mário Bagina não quis, igualmente, relacionar esta infracção com a ordem de serviço em que concedeu férias extras a quatro cabos do trânsito» («Apanhado oficial da caça à multa», Miguel Curado, Correio da Manhã, 29.08.2009, p. 13). Pelo menos neste artigo, verifica-se o uso consistente da pluralização do adjectivo «extra». Também para mim, lembro, este adjectivo é variável.

Selecção vocabular

Pior? «Obsolescente»


      «Outra consequência desta controversa proposta, se chegasse a ser aprovada, seria o enorme aumento do tempo de duração do processo de averiguação, dada a complexidade e consequente morosidade da tramitação das acções no Supremo Tribunal Federal, o que poderia fazer, por exemplo, com que uma eventual condenação à perda de mandato ocorresse já depois do mandato em causa ter terminado, tornando obsoleta a decisão» («Congresso sem poder para julgar», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 30). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. O adjectivo obsoleto designa aquilo que caiu em desuso; ultrapassado; antiquado. Ora, acham que se aplica com propriedade no contexto? Pois não. Em vez de «obsoleto», deveria estar «inútil», por exemplo. O correspondente do Correio da Manhã em São Paulo até pode gostar do vocábulo «obsoleto», mas tem de o guardar para as ocasiões em que o poderá usar com propriedade.

Erros e revisores

De corpo e alma


      Dizia ontem, com alguma sanha, o revisor antibrasileiro, enquanto revia uma página, que «agora só se lê nos jornais “dar-se conta de” e não “dar conta de”, que é o correcto». É? Não é. Com o significado de «aperceber-se de», tanto se pode usar dar-se conta de como dar conta de. Uns momentos depois, falou, e não parecia estar a brincar, em almas depenadas. É um erro que se ouve e lê por aí, é verdade, mas um revisor não pode — sem estar a brincar — reproduzi-lo. Faz-nos temer pelos erros que acrescenta, há revisores assim, aos textos que revê. Alma penada, como se sabe, é a alma de um morto que, segundo a crença popular, vagueia pelo mundo em penitência.

Omissão de preposição


Ferocíssimo

      A notícia era sobre o jogo entre o Sporting e a Fiorentina, em Florença, e a comprovação de que faltara à equipa portuguesa o que «só os transalpinos têm». Título: «Um bravíssimo leão sem sorte e matreirice». Depois de revisto, um editor-chefe aproximou-se com cara de caso, quase feroz, em consonância com o título. «Isto não é português.» Já tinha, entretanto, alterado o título para «Bravíssimo leão sem sorte nem matreirice». Ora, o que acontece é que, como a preposição é a mesma para os dois substantivos (sorte e matreirice), pode ser omitida antes do segundo: Bravíssimo leão sem sorte e (sem) matreirice.

Tétrada de Fallot

Erro médico


      «Emanuel Silva, o ‘menino azul’, que sofre de duas doenças raras (síndroma de Alagille e tetralogia de Fallot) esteve ontem no Governo Civil de Faro a oferecer quadros pintados pela sua mãe, Helena Silva, que o acompanhou na visita» («‘Menino azul’ oferece quadro aos Bombeiros», T. M., Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 16). Desta vez, o jornalista só é culpado de ser acrítico. Até o sítio dos Médicos de Portugal, que não é propriamente o Assim Mesmo, alerta: «Etimologicamente, o termo tétrada (conjunto de quatro coisas) é mais correcto do que tetralogia (sequência de quatro peças teatrais ou de quatro óperas).» Tetralogia também designa a obra em quatro partes ou conjunto de quatro obras artísticas relacionadas, geralmente do mesmo autor. Talvez seja esperar muito, mas a verdade é que espero sempre que os jornalistas contribuam para a correcção dos erros desta natureza.

Sobre «portador»

Problemas no cérebro


      «Na esquadra, o sacerdote justificou o seu acto alegando ser portador de hidrocefalia, um problema no cérebro, além de ter bebido muito naquele dia, o que não evitou que fosse incriminado por atentado violento ao pudor, ficando a aguardar julgamento» («Padre apanhado a abusar de menor», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 11.08.2009, p. 33). Já sei: julgam que vou meter-me com aquela explicação sobre o que é a hidrocefalia. Enganam-se. A explicação é, para um jornal generalista, adequada. Mais bem explicado, só com mais espaço. Quero antes tecer algumas considerações sobre portador. Como substantivo, vindo da medicina, designa a pessoa que aloja um microrganismo patogénico sem apresentar manifestações de doença, ou que contém um gene responsável por uma determinada anomalia genética sem mostrar sinais desse defeito. Ora, não parece poder aplicar-se com propriedade a quem sofre de acumulação anormal de líquido cefalorraquidiano no crânio, o hidrocéfalo. Só por extensão de sentido, ainda não registada nos dicionários. No latim tardio, portător era apenas aquele que levava, transportava, consigo uma carta.

Selecção vocabular

Mais solidez


      O vocábulo «líquido» tem várias acepções. Uma delas designa aquilo que está perfeitamente determinado, claro, que não deixa margem para dúvidas. Por acaso, não simpatizo com esta acepção, mas nunca a desaconselharia, obviamente. Seria estultícia. Contudo, num artigo jornalístico como o que cito a seguir, não creio que seja a melhor escolha: «A casa parecia estar remexida, mas não é líquida a entrada de estranhos» («Morte suspeita de professora», Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 10).

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