Tétrada de Fallot

Erro médico


      «Emanuel Silva, o ‘menino azul’, que sofre de duas doenças raras (síndroma de Alagille e tetralogia de Fallot) esteve ontem no Governo Civil de Faro a oferecer quadros pintados pela sua mãe, Helena Silva, que o acompanhou na visita» («‘Menino azul’ oferece quadro aos Bombeiros», T. M., Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 16). Desta vez, o jornalista só é culpado de ser acrítico. Até o sítio dos Médicos de Portugal, que não é propriamente o Assim Mesmo, alerta: «Etimologicamente, o termo tétrada (conjunto de quatro coisas) é mais correcto do que tetralogia (sequência de quatro peças teatrais ou de quatro óperas).» Tetralogia também designa a obra em quatro partes ou conjunto de quatro obras artísticas relacionadas, geralmente do mesmo autor. Talvez seja esperar muito, mas a verdade é que espero sempre que os jornalistas contribuam para a correcção dos erros desta natureza.

Sobre «portador»

Problemas no cérebro


      «Na esquadra, o sacerdote justificou o seu acto alegando ser portador de hidrocefalia, um problema no cérebro, além de ter bebido muito naquele dia, o que não evitou que fosse incriminado por atentado violento ao pudor, ficando a aguardar julgamento» («Padre apanhado a abusar de menor», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 11.08.2009, p. 33). Já sei: julgam que vou meter-me com aquela explicação sobre o que é a hidrocefalia. Enganam-se. A explicação é, para um jornal generalista, adequada. Mais bem explicado, só com mais espaço. Quero antes tecer algumas considerações sobre portador. Como substantivo, vindo da medicina, designa a pessoa que aloja um microrganismo patogénico sem apresentar manifestações de doença, ou que contém um gene responsável por uma determinada anomalia genética sem mostrar sinais desse defeito. Ora, não parece poder aplicar-se com propriedade a quem sofre de acumulação anormal de líquido cefalorraquidiano no crânio, o hidrocéfalo. Só por extensão de sentido, ainda não registada nos dicionários. No latim tardio, portător era apenas aquele que levava, transportava, consigo uma carta.

Selecção vocabular

Mais solidez


      O vocábulo «líquido» tem várias acepções. Uma delas designa aquilo que está perfeitamente determinado, claro, que não deixa margem para dúvidas. Por acaso, não simpatizo com esta acepção, mas nunca a desaconselharia, obviamente. Seria estultícia. Contudo, num artigo jornalístico como o que cito a seguir, não creio que seja a melhor escolha: «A casa parecia estar remexida, mas não é líquida a entrada de estranhos» («Morte suspeita de professora», Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 10).

De «rail» a «raile»

Coragem e sensibilidade

      Como é que se chamam aquelas barras horizontais, geralmente de metal, destinadas a separar fluxos de tráfego ou a proteger uma via? «Rails»? Isso era no ano passado. «O pesado acabou por chocar contra os railes de protecção, capotou e imobilizou-se já fora da auto-estrada» («Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22», G. P./A. R. J., Jornal de Notícias, 26.08.2009, p. 17). E sim, já se encontra registado em alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora neste o verbete remeta (!) para rail. Como em inglês médio era raile, do étimo francês raille, estamos mais próximos da origem do termo.

«Ponte Bay Bridge»?

Harbour Bridge: http://www.atnf.csiro.au/

Seria melhor


      Sandra Alves, jornalista do Jornal de Notícias, está em São Francisco, de onde mandou um texto, «A pé por São Francisco» (26.08.2009, p. 53), para o jornal. «Pela avenida de altos edifícios», escreve, «há fachadas antigas que servem de sede a bancos e paredes espelhadas que acolhem grandes empresas. Entre eles, vários recantos ajardinados que convidam a uma pausa, à margem do reboliço citadino.» É uma homófona traiçoeira, seja, mas temos de saber várias coisas de cor, e esta é uma delas, ou escreveremos disparates.
      Também se lê neste texto: «Fiquei hospedada na zona central de São Francisco, junto à ponte Bay Bridge e ao Museu de Arte Moderna.» E ainda: «Nos cais da baía, à esquerda, a antiga prisão de Alcatraz e, em pano de fundo, a imponente ponte Goden [sic] Gate.» Não deveria ter uniformizado e escrito Bay Bridge e Golden Gate Bridge ou ponte Bay e ponte Golden Gate? No texto ao lado, outra jornalista, Ana Vitória, escreve de Sydney (e é assim que aparece grafado, embora no título da peça já apareça Sidney: «Opera House, o bilhete postal [sic] de Sidney») e também fala de pontes: «No enquadramento também se encaixa bem a Harbour Bridge, já calcorreada por inúmeras celebridades mas apenas por aquelas a quem as alturas não provocam vertigens.»

Uso do apóstrofo


Última mania

      «O esforçado atleta, quatro vezes campeão mundial dos 1500 metros, consegue, finalmente, em Atenas’2004 completar o seu laureado palmarés com o título olímpico que lhe faltava.» Nos jornais desportivos é agora vulgar ler isto. Mas esta frase não vai figurar num jornal desportivo. Se é correcto usar o apóstrofo Atenas’04, porque se está a elidir uma parte da data, já não tem razão de ser usá-lo quando a data é completa. O melhor é escrever Atenas 2004.

O género de «síndrome»

Ainda não

«Associada a esta doença o Síndrome de Coats nos olhos do Dinis, uma patologia progressiva, que pode levar à cegueira e, em estágio final, à extracção do olho» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). Ao fim de vários anos a divulgar-se, a propósito da sida, o género e a ortografia correctos do vocábulo, ainda há jornalistas e revisores a darem-no como masculino. Não é.

Nome de doenças

E desta vez é pior


      «O Dinis tem dezoito meses e, apesar da curta experiência de vida, a sua história é rara. O diagnóstico de Leucoencefalopatia, Calcificações e Quistos Cerebrais chegou há poucos meses e com ele muitas inquietações quanto ao futuro» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). A jornalista não sabe, mas o revisor tem obrigação de saber que os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc. Já o tinha lembrado aqui.

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