De «rail» a «raile»

Coragem e sensibilidade

      Como é que se chamam aquelas barras horizontais, geralmente de metal, destinadas a separar fluxos de tráfego ou a proteger uma via? «Rails»? Isso era no ano passado. «O pesado acabou por chocar contra os railes de protecção, capotou e imobilizou-se já fora da auto-estrada» («Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22», G. P./A. R. J., Jornal de Notícias, 26.08.2009, p. 17). E sim, já se encontra registado em alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora neste o verbete remeta (!) para rail. Como em inglês médio era raile, do étimo francês raille, estamos mais próximos da origem do termo.

«Ponte Bay Bridge»?

Harbour Bridge: http://www.atnf.csiro.au/

Seria melhor


      Sandra Alves, jornalista do Jornal de Notícias, está em São Francisco, de onde mandou um texto, «A pé por São Francisco» (26.08.2009, p. 53), para o jornal. «Pela avenida de altos edifícios», escreve, «há fachadas antigas que servem de sede a bancos e paredes espelhadas que acolhem grandes empresas. Entre eles, vários recantos ajardinados que convidam a uma pausa, à margem do reboliço citadino.» É uma homófona traiçoeira, seja, mas temos de saber várias coisas de cor, e esta é uma delas, ou escreveremos disparates.
      Também se lê neste texto: «Fiquei hospedada na zona central de São Francisco, junto à ponte Bay Bridge e ao Museu de Arte Moderna.» E ainda: «Nos cais da baía, à esquerda, a antiga prisão de Alcatraz e, em pano de fundo, a imponente ponte Goden [sic] Gate.» Não deveria ter uniformizado e escrito Bay Bridge e Golden Gate Bridge ou ponte Bay e ponte Golden Gate? No texto ao lado, outra jornalista, Ana Vitória, escreve de Sydney (e é assim que aparece grafado, embora no título da peça já apareça Sidney: «Opera House, o bilhete postal [sic] de Sidney») e também fala de pontes: «No enquadramento também se encaixa bem a Harbour Bridge, já calcorreada por inúmeras celebridades mas apenas por aquelas a quem as alturas não provocam vertigens.»

Uso do apóstrofo


Última mania

      «O esforçado atleta, quatro vezes campeão mundial dos 1500 metros, consegue, finalmente, em Atenas’2004 completar o seu laureado palmarés com o título olímpico que lhe faltava.» Nos jornais desportivos é agora vulgar ler isto. Mas esta frase não vai figurar num jornal desportivo. Se é correcto usar o apóstrofo Atenas’04, porque se está a elidir uma parte da data, já não tem razão de ser usá-lo quando a data é completa. O melhor é escrever Atenas 2004.

O género de «síndrome»

Ainda não

«Associada a esta doença o Síndrome de Coats nos olhos do Dinis, uma patologia progressiva, que pode levar à cegueira e, em estágio final, à extracção do olho» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). Ao fim de vários anos a divulgar-se, a propósito da sida, o género e a ortografia correctos do vocábulo, ainda há jornalistas e revisores a darem-no como masculino. Não é.

Nome de doenças

E desta vez é pior


      «O Dinis tem dezoito meses e, apesar da curta experiência de vida, a sua história é rara. O diagnóstico de Leucoencefalopatia, Calcificações e Quistos Cerebrais chegou há poucos meses e com ele muitas inquietações quanto ao futuro» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). A jornalista não sabe, mas o revisor tem obrigação de saber que os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc. Já o tinha lembrado aqui.

Sobre «abalroar»

Mas é correcto


      A notícia começa por referir que «o condutor do camião que embateu violentamente contra um carro-patrulha da GNR colhendo dois militares, ontem, às 15h30, na Via do Infante (A22)» se justificou com o rebentamento de um pneu, mas o título é: «Militares abalroados por camionista bêbedo» (João Mira Godinho, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 8). «Os GNR», repare-se, «estavam entre os dois carros quando o camião abalroou o carro-patrulha, que depois os atingiu.» Afinal, o carro-patrulha é que foi abalroado, e não os militares — ou foi as duas coisas? O termo, como se sabe, provém da marinha, mas por extensão significa ir de encontro a, bater, chocar(-se); ir na direcção de (algo), com ímpeto. Foi, então, usado com propriedade no título, mas não é habitual usar-se quando o obstáculo são pessoas. Sobre o mesmo facto, o título do Jornal de Notícias é «Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22» (G. P./A. R. J., 26.08.2009, p. 17).


Congénere e homólogo

Falsas convicções

      Dizia, ontem, aquele revisor que está farto de avisar as meninas do andar de cima que não devem confundir «congénere» com «homólogo». Em vão, lamentou-se. Se, exemplificava, o texto fala de ministros, o termo correcto era «homólogo» e não «congénere». Ora, o Dicionário Houaiss regista como exemplo de uso do termo «congénere»: «O ministro encontrou-se com seus congéneres em Paris.» Já o adjectivo «homólogo», para o mesmo dicionário, é o que mantém com outro elemento similar uma relação de correspondência que pode ser de localização, de forma, de função, etc. Pelo que vejo, «homólogo» é mais utilizado para pessoas, ao passo que «congénere» é mais usado com instituições. Não se pode é dizer mais do que isto. «O presidente sul-africano, Jacob Zuma, eleito em Maio, escolheu Angola como o primeiro destino para uma visita oficial e ouviu o seu homólogo angolano afirmar o desejo de “intensificar as relações” entre os dois países» («Angola e África do Sul estreitam relações», A Bola, 20.08.2009). «A Selecção portuguesa de andebol de sub-21 venceu, esta segunda-feira, a sua congénere espanhola por 28-24, conquistando o sétimo lugar entre 24 equipas no Mundial que termina quarta-feira, no Cairo» («Mundial de Juniores: Portugal termina em sétimo com vitória no duelo ibérico», A Bola, 17.08.2009).

Actualização em 15.09.09


      Cá está de novo o uso reprovado pelo revisor antibrasileiro: «O ministro da Agricultura, Jaime Silva, e a sua congénere holandesa, Gerder Verburg, posam para os repórteres fotográficos depois de plantarem uma árvore no decorrer de uma visita a uma exploração florestal nos arredores de Vaxjo, na Suécia» («Jaime Silva planta árvores no ‘bosque da UE», Diário de Notícias/«DN Bolsa», 15.09.2009, p. 37).

Actualização em 10.1.2010

      «O salário dos clínicos cubanos é um mistério. O Ministério da Saúde diz que ganham “sensivelmente” o mesmo que os seus congéneres portugueses. Mas dessa fatia a maior parte vai para o Governo de Havana. Inicialmente, os médicos ficavam com 300 euros. Agora ganharão 500. A embaixada de Cuba diz que nada pode dizer sobre o assunto» («Salários dos clínicos cubanos são um mistério», Público, 10.1.2010, p. 1).

Léxico: «oeste-europeu»

Ponte do Rei Alberto (© NguyenDai)

O caso da Bélgica


      Recentemente, referi aqui a tradução de Mittel-Europeans. Hoje não é de tradução que se trata, mas da abonação de um gentílico que nunca antes vi. «Choveram críticas na imprensa do reino oeste-europeu» («Companhia portuguesa vai dar asas ao rei belga», revista Domingo/Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 23).

Arquivo do blogue