Topónimos no novo acordo

O caso de Custóias

Os outros revisores ainda não sabiam (!), e até negaram, que os topónimos também vão sofrer alterações com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. Exactamente, não eram os mesmos (somos cinco) do caso de Tróia. Desta vez, era Custóias que estava em causa. Trata-se do mesmo: é eliminado, tanto em nomes comuns como em topónimos, o acento nos ditongos abertos oi, mas apenas quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas: alcaloide, heroico, joia, etc.

Sentidos figurados e sinonímia

Alto aí!

«Emprestado pelo Manchester United com o prisma de jogar com mais regularidade, Possebon já percebeu que as suas intenções saíram goradas», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase (que semelhante disparate), que revela um conhecimento deficiente da língua, passasse para o jornal. Sim, julgo saber o motivo. Em sentido figurado, prisma é o modo particular de ver ou considerar algo ou alguém, o ponto de vista, a perspectiva, digamos. E como um dos sentidos figurados de «perspectiva» é o de ponto de vista, o jornalista usou o vocábulo. Só que tal operação, porque estão em causa acepções secundárias dos vocábulos, redundaria quase sempre, como facilmente se imagina, em frases absurdas.

Ortografia: «bola-de-berlim»

Essa é boa!

O Correio da Manhã tem uma rubrica estival, «O Verão de...», assinada pela jornalista Dora Costa, e nela ora se lê «bola de Berlim» ora «bola-de-berlim». Como eu não acredito que a jornalista nas terças-feiras, quintas e sábados escreva de uma forma, e nos restantes dias de outra, só posso atribuir a incoerência aos revisores. E, como acontece noutros jornais, não comunicam entre eles — nem lêem o jornal. A quem escreve bola de Berlim, matéria já aqui abordada, só pergunto se também escreve couve de Bruxelas.

Ortografia: «guarda-costeira»

Aplaudo a opção

Sim, tem de se ser coerente até ao fim: «Todos os meios operacionais disponíveis foram mobilizados e, no hospital militar de Penteli, na área metropolitana de Atenas, os doentes foram transferidos por precaução, tendo as autoridades anunciado que vários navios da guarda-costeira estavam prontos a participar em operações de evacuação» («Mar de chamas ameaça Atenas», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 28). Se se escreve guarda-costas, porque se continua a escrever e a registar nos dicionários guarda costeira?

«Raios UV»

In Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 16

São dos poucos


      No Diário de Notícias, continuam a escrever raios ultravioletas. E poucas vozes estão de acordo, mas entre elas conta-se a da professora Maria T. Camargo Biderman, docente na UNESP (Universidade Estadual Paulista), do Campus de Araraquara, que escreve no estudo «Unidades Complexas do Léxico»: «raios ultravioletas — ultravioletas — Os ultravioletas podem causar danos à pele.» Se foi por lapso, ela virá certamente aqui um dia dizer-no-lo.

Uso indevido das aspas

Só o inútil
      «Marco António Brás Madeira vivia com os pais no Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, e acordou ao nascer do sol para acompanhar o pai, António, numa jornada de caça às rolas. Um tio também os acompanhava e seguiram para Montalvo, a vinte quilómetros de casa. Pai e filho ocuparam a mesma ‘porta’, junto a um campo com girassóis, onde esperaram as primeiras rolas» («Dispara às rolas mas mata o filho», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 10). Já aqui o escrevi uma vez: quão penoso seria escrever e sobretudo ler se tivéssemos de grafar entre aspas acepções secundárias. Por outro lado, o que seria útil não foi feito pela jornalista: acrescentar a definição desta «porta».

Estetoscópio e estereoscópio


Também imperdoável

      Os Correios de San Marino, mundialmente conhecidos pela qualidade dos selos que emitem, lançam amanhã uma série de selos em três dimensões para assinalar o Ano Europeu da Criatividade e Inovação. Vejamos como no Correio da Manhã vêem o acontecimento: «A série é composta de três blocos de dois selos cada com valor facial de 1 euro cada, com motivo igual em cada bloco. Os blocos são vendidos em conjunto e são acompanhados por um estetoscópio para ver os selos em três dimensões» («San Marino lança selos a três dimensões», J. P. S., Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 43). Estetoscópio se o comprador for médico; se for polícia, serão algemas; se for taberneiro, um ramo de louro, e por aí fora. Ninguém, mais uma infausta vez, estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. Só o elemento pospositivo de composição é que é o mesmo: -scópio. Mas são instrumentos diferentes: o estetoscópio serve para auscultar a respiração, as batidas do coração e outros sons produzidos pelo corpo; o estereoscópio serve para observar simultaneamente, através de uma objectiva binocular, duas imagens de um objecto, obtidas com ângulos ligeiramente diferentes, produzindo a sensação de relevo, de terceira dimensão.

Hertziano por artesiano


Imperdoável

«“Foi uma tarde infernal, pois o fogo esteve próximo do bairro junto ao campo de futebol”, adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Abrunhosa a Velha, Júlio Mendes, que receava a interrupção do abastecimento de água, por ter sido afectada a rede eléctrica que serve os furos hertzianos» («Zona Centro sob inferno de chamas», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 20.08.2009, p. 4). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. Parece-me que é mais do que falta de atenção o que aqui vemos. E é Abrunhosa-a-Velha.

Arquivo do blogue