Ortografia: «rendibilidade»

Mudar de referência

      «Sete PPR [Planos Poupança Reforma] sem rendabilidade» (Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 28.07.2009, p. 21). Ora cá está, esta é a forma vernácula: rendibilidade. Também já aqui tinha abordado o francesismo «rentável», que, aliás, vejo mais usado nos jornais de «referência»: «A questão central da investigação sobre as microalgas e a sua utilização como combustível está precisamente em saber até que ponto podem estas culturas ser economicamente rentáveis, se exploradas à escala industrial» («Alga nacional pode ser combustível», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 6.01.2009, p. 30). «Dos 15 cavalos em apreço, a maior licitação foi para o Xuahdo, que rendeu aos cofres da FAR 15.600 euros. Já no lote das 18 éguas, foi a Suíça que mereceu o despique mais rentável ao ser rematada por 15.100 euros. Ambos os exemplares foram adquiridos por compradores portugueses» («Leilão de cavalos lusitanos rende 190 mil euros a fundação», Público, 27.4.2008, p. 9).

«(Ser) um de cada nação»

Para psis

      «Diz-se que a ministra tem uma fixação por sapatos. É verdade? Risos da governante... Hesitação. No fim, diz que não tem uma inclinação especial por sapatos, mas revela: “Já me aconteceu sair de casa com um sapato de cada nação”» («Sapato trocado», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 5). Podem chamar um psicólogo ou qualquer outro psi, mas fiquei a simpatizar mais com a ministra da Educação depois de a ter visto utilizar esta forma de dizer, tão despretensiosa, tão terra-a-terra, que só ouvia à minha mãe.


Synoptic assessment

Sinapses e sinopses     

      Depois daquele acontecimento, ele, seja lá quem for, «stopped doing research in physics as a vocation and became primarily concerned with synoptic assessments». O tradutor entendeu que o professor em causa passou a dedicar-se «fundamentalmente a avaliações sinópticas». À letra ninguém traduziria melhor — mas o que são «avaliações sinópticas», se posso perguntar? É locução que só em textos brasileiros ocorre, e nunca com um significado remotamente encaixável neste contexto. Num texto do OFQUAL (Office of the Qualifications and Examinations Regulator), que é o organismo público britânico com poderes de regulação de testes, exames e qualificações académicas, lê-se esta definição: «Synoptic assessment A form of assessment which tests candidates’ understanding of the connections between the different elements of a subject.» Que nome tem nas universidades portuguesas este tipo de avaliação?

Inverter e reverter

Gostava de saber

      Não sei o que pensa o revisorado sobre o uso do verbo na expressão reverter (um)a situação. (Como? Revisorado não existe? Pois não, forjei-o agora por analogia com professorado [e lembram-se do genial «precariado»?]. Professorado existe em várias línguas. Professorate, em inglês. Profesorado, em espanhol. Professorat, em francês e em catalão. Professorenschaft, em alemão. A formação é igual: revisor + ado.) A avaliar, contudo, pela frequência com que a vejo em livros e jornais (ainda ontem a ouvi duas vezes na redacção do Record), não pensa nada de especial. Se entendermos reverter a situação, como parece consensual, sinónima de alterar a situação, temos um problema, pois reverter nunca significou outra coisa que não «voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar». A acepção mais usada e conhecida de reverter é a de um lucro ou ganho se destinar a alguém ou a uma instituição. Assim, e é só um entre inúmeros exemplos, durante uma campanha da empresa de tratamento de resíduos Valorsul, foi divulgado que, por cada tonelada de resíduos plásticos recolhidos nos ecopontos em Agosto de 2008, 20 euros revertiam a favor da AMI. A ser alguma coisa, seria inverter a situação, pois inverter é que significa «mudar a ordem de; alterar». Quando vamos numa estrada e invertemos a marcha, estamos a voltar-nos em sentido contrário. É disso que precisamos.

Tradução: «morale» (II)

Desmoralização

      Alguém o convenceu, seja lá quem for, «of its [weekly colloquium] potential value for boosting the morale of the staff». Não sei se teve dúvidas, mas o tradutor entendeu que era «do seu potencial valor para manter elevada a moral do pessoal». Já aqui o escrevi várias vezes: o facto de em inglês haver duas palavras diferentes, moral e morale, devia levar os tradutores a reflectir na língua de chegada. Em português, a primeira será traduzível por «a moral» e a segunda por «o moral». E mais (há sempre mais): «manter elevado» não é exactamente o mesmo que «elevar», não é assim?

Verbo «colmatar» no futebolês

Contraíram o (péssimo) hábito

      Também tenho notado que na imprensa desportiva os jornalistas têm ultimamente recorrido ao verbo colmatar (de cujo moderno uso já aqui tinha falado) de uma forma ainda mais elástica. Agora, colmatam-se não apenas falhas, mas também lesões, erros, ausências, etc. Isto quando muitos dicionários ainda não registam mais do que as acepções de «atulhar; atupir» e «tapar (brecha)». É só esperar até ver algumas ou todas as acepções registadas nos dicionários, como aconteceu com o verbo lesionar.



Verbo «contrair» no futebolês

Contraíram o (mau) hábito

Só recentemente, dado o seu uso constante na imprensa desportiva, os dicionários da língua portuguesa editados em Portugal passaram a acolher o verbo (considerado pelos mais puristas completamente desnecessário) lesionar. Esta parece ser hoje uma questão pacífica. Ultimamente, contudo, tenho vindo a reparar que os jornalistas desportivos abraçaram outra tábua de salvação: o verbo contrair. Agora, os desportistas, e sobretudo os futebolistas, contraem tudo e mais alguma coisa. Ontem, um «extremo de 20 anos contraiu um problema muscular no derradeiro treino antes da partida para Telavive, deixando assim uma vaga no ataque». Mas eu não deixei. «Contrair uma lesão» vá que não vá; «contrair um problema» já me parece preguiça mental dos jornalistas.

Tradução: «off-label»


Quase muito bom


      A propósito do problema ocorrido no Hospital de Santa Maria com o uso do medicamento Avastin, ouvi duas vezes na Antena 1 na semana passada que o fármaco estava a ser administrado «off-label». Assim, sem qualquer explicação. Só para entendidos. Nos jornais, a prática foi diferente. «Como é que um medicamento indicado para uma doença pode ser usado para tratar outra? Esse outro uso chama-se off-label. Antes da sua introdução no mercado, cada fármaco é submetido a ensaios clínicos, em condições muito controladas, nos quais se provam no ser humano a sua segurança e eficácia. Quando as entidades responsáveis pelos medicamentos aprovam a sua prescrição para uma certa doença, os médicos podem decidir usá-lo para outras, com base na sua experiência e na da comunidade médica internacional» («O que é o off-label?», T. F., Público, 24.07.2009, p. 8). «É um alerta sobre uma situação que conhecemos desde o princípio: que o fármaco, à semelhança de muitos outros em quase todas as áreas médicas, tem sido utilizado off label [para indicações clínicas diferentes das autorizadas]», afirmou ao Expresso o presidente da Comissão de Farmácia e Terapêutica do Hospital de Santa Maria, Germano do Carmo («Hospitais são lugares perigosos», Cristina Bernardo Silva e Joana Pereira Bastos, Expresso, 25.07.2009, p. 4). «Segundo Florindo Esperancinha, que continua a defender o medicamento pela sua “elevada eficácia a salvar milhões de doentes da cegueira em todo o mundo”, tanto o Avastin como o Lucentis não têm indicação terapêutica para tratar a retinopatia diabética, sendo que este último está apenas indicado para terapia da degeneração macular da idade. Ou seja, os dois estavam a ter uma prescrição off-label, fora da sua indicação específica, o que, relembra, é uma prática comum em todas as especialidades, em todo o mundo» («Suspensão do ‘Avastin’ afecta 20 mil doentes», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 16). Na página na Internet da RTP, ensaiou-se uma verdadeira tradução e não apenas uma explicação: «O uso de medicamentos “off-label” (extra-bula), como os administrados no Hospital Santa Maria para tratamentos oftalmológicos, apesar de serem autorizados para o cancro, é “legal”, “muito frequente” e permite “salvar vidas”, disse à Lusa um especialista.» Por ser apenas uma palavra (que na realidade se deverá grafar extrabula, pois o prefixo extra- apenas se liga por hífen ao elemento seguinte quando este tem vida à parte e começa por vogal, h, r, ou s), agrada-me a solução da RTP. Muito melhor do que esta: «O uso “off-label” de medicamentos na medicina é uma prática que se consolida cada vez mais. Mas o que é “uso off-label”? Uma tradução objectiva seria o “Uso Não-Indicado Em Bula”.» Mesmo no ProZ, é sugerida mais uma explicação do que um termo português: «Off-Label use (Utilização em indicações não aprovadas).»

Actualização em 28.07.2009

      Estranhamente, no Correio da Manhã ainda estão a tentar encontrar a tradução, e a tentativa não é das melhores: «O bevacizumab não tem autorização para o tratamento oftalmológico, mas os médicos alegam “ser o mais eficaz” e é normal na melhor prática clínica usar medicamentos sem autorização (“off label”)» («Considerado eficaz», texto de apoio a «Cegos voltam ao bloco operatório», Cristina Serra, Correio da Manhã, 26.07.2009, p. 16).

Actualização em 3.08.2009

      A imprensa vai ensaiando outras formas de explicar o que significa off-label: «Neste caso, em ambos os fármacos [Lucentis e Avastin], é um uso que não está especificado na sua bula (uso off-label)» («Hospital de Santa Maria sem seguro para indemnizar doentes», Mariana Oliveira, Público, 30.07.2009, p. 10).

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