Tradução: «off-label»


Quase muito bom


      A propósito do problema ocorrido no Hospital de Santa Maria com o uso do medicamento Avastin, ouvi duas vezes na Antena 1 na semana passada que o fármaco estava a ser administrado «off-label». Assim, sem qualquer explicação. Só para entendidos. Nos jornais, a prática foi diferente. «Como é que um medicamento indicado para uma doença pode ser usado para tratar outra? Esse outro uso chama-se off-label. Antes da sua introdução no mercado, cada fármaco é submetido a ensaios clínicos, em condições muito controladas, nos quais se provam no ser humano a sua segurança e eficácia. Quando as entidades responsáveis pelos medicamentos aprovam a sua prescrição para uma certa doença, os médicos podem decidir usá-lo para outras, com base na sua experiência e na da comunidade médica internacional» («O que é o off-label?», T. F., Público, 24.07.2009, p. 8). «É um alerta sobre uma situação que conhecemos desde o princípio: que o fármaco, à semelhança de muitos outros em quase todas as áreas médicas, tem sido utilizado off label [para indicações clínicas diferentes das autorizadas]», afirmou ao Expresso o presidente da Comissão de Farmácia e Terapêutica do Hospital de Santa Maria, Germano do Carmo («Hospitais são lugares perigosos», Cristina Bernardo Silva e Joana Pereira Bastos, Expresso, 25.07.2009, p. 4). «Segundo Florindo Esperancinha, que continua a defender o medicamento pela sua “elevada eficácia a salvar milhões de doentes da cegueira em todo o mundo”, tanto o Avastin como o Lucentis não têm indicação terapêutica para tratar a retinopatia diabética, sendo que este último está apenas indicado para terapia da degeneração macular da idade. Ou seja, os dois estavam a ter uma prescrição off-label, fora da sua indicação específica, o que, relembra, é uma prática comum em todas as especialidades, em todo o mundo» («Suspensão do ‘Avastin’ afecta 20 mil doentes», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 16). Na página na Internet da RTP, ensaiou-se uma verdadeira tradução e não apenas uma explicação: «O uso de medicamentos “off-label” (extra-bula), como os administrados no Hospital Santa Maria para tratamentos oftalmológicos, apesar de serem autorizados para o cancro, é “legal”, “muito frequente” e permite “salvar vidas”, disse à Lusa um especialista.» Por ser apenas uma palavra (que na realidade se deverá grafar extrabula, pois o prefixo extra- apenas se liga por hífen ao elemento seguinte quando este tem vida à parte e começa por vogal, h, r, ou s), agrada-me a solução da RTP. Muito melhor do que esta: «O uso “off-label” de medicamentos na medicina é uma prática que se consolida cada vez mais. Mas o que é “uso off-label”? Uma tradução objectiva seria o “Uso Não-Indicado Em Bula”.» Mesmo no ProZ, é sugerida mais uma explicação do que um termo português: «Off-Label use (Utilização em indicações não aprovadas).»

Actualização em 28.07.2009

      Estranhamente, no Correio da Manhã ainda estão a tentar encontrar a tradução, e a tentativa não é das melhores: «O bevacizumab não tem autorização para o tratamento oftalmológico, mas os médicos alegam “ser o mais eficaz” e é normal na melhor prática clínica usar medicamentos sem autorização (“off label”)» («Considerado eficaz», texto de apoio a «Cegos voltam ao bloco operatório», Cristina Serra, Correio da Manhã, 26.07.2009, p. 16).

Actualização em 3.08.2009

      A imprensa vai ensaiando outras formas de explicar o que significa off-label: «Neste caso, em ambos os fármacos [Lucentis e Avastin], é um uso que não está especificado na sua bula (uso off-label)» («Hospital de Santa Maria sem seguro para indemnizar doentes», Mariana Oliveira, Público, 30.07.2009, p. 10).

História e estória

Uma palermice?


      «Ao burro associam-se muitas estórias e, não raras vezes, qualidades pouco abonatórias» («Com o burro por companhia», Patrícia Carvalho, Público/P2, 25.07.2009, p. 8). José Neves Henriques, que lembrou que no português medieval se escrevia historia, estoria, istoria, não teve pruridos em escrever: «É uma palermice, porque, até agora, nunca confundimos os vários significados de história.» Este estudioso da língua recorreu a uma comparação para se perceber melhor a sua argumentação: «Seria ridículo começarmos, por exemplo, a empregar homem para indicar o ser humano em geral, isto é, a espécie humana, a humanidade; e omem, para designar qualquer ser humano do sexo masculino, como por exemplo em “aquele omem que está ali”, “o omem (= marido) da Joana”, “sanitários para omens”, etc.» Isto porque no português medieval, quando a ortografia ainda não estava fixada, se escrevia indiferentemente homem, omé, omee (com til no primeiro e).

Ortografia: «osteomuscular»

É da doença

Foi preciso ter sido diagnosticada ao futebolista Carlos Saleiro, avançado do Sporting, para sabermos (falo por mim, claro) da existência da doença de Osgood-Schlatter. O problema é que a generalidade dos jornalistas afirma ser uma doença «osteo-muscular». Não é. É uma doença osteomuscular (também musculoesquelético anda por aí quase sempre incorrectamente grafada). Tenho a certeza que Robert Bayley Osgood (1873–1956), cirurgião ortopedista americano, e Carl B. Schlatter (1864–1934), cirurgião suíço, não se importariam que os jornalistas portugueses escrevessem assim sobre a tumefacção dolorosa da tuberosidade tibial, que ocorre durante o período de crescimento, mas eu importo-me. E de que maneira.

Sobre «monção»

Lá o admitem

«Pensa-se que a palavra monsoon — que se refere ao vento sazonal — vem da portuguesa monção. Por sua vez, o termo partiu do mausaim, da língua árabe, que significa “estação de peregrinação a Meca”» («A chuva bendita que inunda a Índia», Hugo Coelho, Diário de Notícias/DN Gente, 25.07.2009, p. 20). É mesmo o que os dicionários registam: que monsoon, que terá entrado na língua inglesa no século XVI, vem do português «monção», através do neerlandês monssoen. E «monção», registam igualmente os dicionários, vem do árabe mausaim, que significa, e é isto que interessa, não «estação de peregrinação a Meca», mas estação adequada para viajar, para peregrinar, etc.

Nas Canárias


Agentes infiltrados

«O maior telescópio do mundo foi ontem inaugurado, contava o PÚBLICO de ontem. Fica nas (embora haja quem diga em) Canárias num sítio que tem o nome de um programa de televisão a que nenhum ser humano gostaria de assistir: Roque de los Muchachos. […] Afinal, já quero ir às (ou a) Canárias, nem que seja só para ver o céu nocturno da Madeira» («Noites da Madeira», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2009, p. 39). Miguel Esteves Cardoso tem ouvido (e lido) bem o que mal se escreve. Só pode ser por influência do espanhol, influência agora mais sentida, pois vejo anunciadas nas montras das agências de viagens (algumas espanholas) estadas em hotéis «em Canárias». Qualquer dia vão começar a dizer «em Filipinas», «em Açores», e por aí fora. Um carnaval.

Uso de estrangeirismo. «Outing»

Sair dos eixos

O jornalista João Pedro Henriques entrevistou para o Diário de Notícias o antropólogo Miguel Vale de Almeida a propósito da sua inclusão na lista de Lisboa do PS às eleições legislativas. Sendo o entrevistado não apenas homossexual assumido como também activista da LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais), talvez tenha parecido ao jornalista que era inevitável que as perguntas visassem este aspecto. Pergunta o jornalista: «Noutros países há pessoas na política que assumem abertamente a sua condição homossexual. Cá, não. Pensa ter algum papel incentivador?» Responde Miguel Vale de Almeida: «Se isso acontecer, fantástico. Mas não é o meu objectivo. Não vou incentivar políticos a “sair do armário”. Isso só deve acontecer como assunção de uma posição política, contra a discriminação.» O jornalista insiste, e agora numa versão piorada: «Disse que não irá incentivar o outing de políticos?» «Exacto», responde o entrevistado, «não vou, nem pensar nisso! Isto não é um clube!» («“Não vou incentivar políticos a sair do armário”», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 25.07.2009, p. 64). Vejam bem: o entrevistado usa uma expressão, sair do armário, ainda que não entendida por toda a gente, largamente divulgada. O jornalista saiu-se com um vocábulo estrangeiro — outing («the public disclosure of the covert homosexuality of a prominent person especially by homosexual activists», in Merriam-Webster). Descuida-se, e ainda é agraciado com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural.

Major/minor

Alguém que explique

      «He», seja lá quem for, «majored in chemistry.» Será judicioso (porque fácil é) traduzirmos «concluiu um major em Química»? Na frase, major é em inglês um verbo intransitivo (mas decerto que ainda se recordam da aluna que se quer «mestrar») que significa «to pursue an academic major», sendo que este substantivo significa «an academic subject chosen as a field of specialization». O modelo major/minor, que é muito comum nas universidades norte-americanas, foi, ao que pude apurar, instituído em Portugal pela primeira vez pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É ainda, mesmo após a sua adopção pelo Processo de Bolonha, matéria estranha mesmo aos estudantes universitários. A minha interpretação é que o major constitui a formação de base conferida pela licenciatura, ao passo que o minor é uma especialização. Contudo, o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá a seguinte tradução de major: «Estados Unidos da América, Canadá, Austrália (curso universitário) especialidade, especialização». Alguém que explique.

Acento diferencial


Mais um passo

Talvez esteja na hora de o Record dar mais um passo na adopção do Acordo Ortográfico de 1990 e deixar de usar o acento diferencial na forma verbal «pára». Ao que parece, os leitores — e o Record é, sabiam?, o título desportivo com maiores vendas, 67 mil exemplares/dia — assimilaram bem as novas regras já introduzidas. Seria então: «Ninguém para Cardozo».

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