«Exonerating evidence»

À falta de melhor     


      «Mesmo sem assumir possíveis processos, Rogério Alves deixa entender o que pode acontecer no futuro, ao avisar que “não foram encontrados indícios incriminatórios contra os McCann, o que levou ao encerramento do processo pelo Procurador-Geral da República, portanto os que afirmam o contrário devem estar agora pensar em como salvar a face”» («Investigação ao desaparecimento “dificilmente” será reaberta», Pedro Vilela Marques, Diário de Notícias, 4.08.2008). Corresponde ao inglês incriminating evidence. É questão simples e a sua frequência de uso é elevada. E o antónimo, exonerating evidence, como se diz em português? Se se tratar de uma tradução e os termos ocorrerem juntos («exonerating and incriminating evidences»), melhor será traduzir por «indícios a favor e (indícios) contra».

Léxico: «meleira»

Bons vírus

      «Com um investimento de 200 mil euros, foi ontem inaugurada a primeira central meleira da Beira Baixa» («Nova central meleira», Correio da Manhã, 5.07.2009, p. 27). A indústria situa-se em Queixoperra, no concelho de Mação. Sabiam que há em Mação cerca de 11 mil colmeias, com uma produção média de mel de 20 a 25 quilos cada? E sabiam que o adjectivo «meleiro» não está registado em nenhum dicionário? Como substantivo, sim, meleiro, o vendedor de mel, está registado. E sabiam que ao prego de pau para pregar o fundo dos cortiços e até para segurar a costura lateral, quando falta a verga de vime, se dá o nome de bio? Em Trás-os-Montes, porque na Beira Baixa dá-se-lhe o nome de vírus, e são feitos de madeira de esteva, por ser muito rija.

«Focus group» = grupo de discussão


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      Também acho, caro Francisco C., que a expressão «grupo de foco», tão usada em certas áreas, e que pretende traduzir o inglês focus group, pouco diz ao leitor médio (conceito, já o disse aqui uma vez, que deve mais ao conceito jurídico do que à abstracção, l’homme moyen, do matemático belga Quételet [1796–1874]). Mesmo «grupo-foco», considerado mais correcto por alguns, não diz grande coisa. O foco português é muito diverso do focus inglês. Focus group traduzir-se-á bem por grupo de discussão. É verdade que dizemos que algo está em foco quando está em evidência ou em discussão. Em contrapartida, não dizemos que alguém é o foco das atenções (to be the focus of attention), mas sim que é o centro das atenções. Como também não pedimos a ninguém para se focar no trabalho (focus on work), antes para se concentrar no trabalho. Há muitas acepções iguais, naturalmente, tanto mais que o étimo de focus e de «foco» é o mesmo. Assim, dizemos foco sísmico querendo significar a zona do interior da Terra onde se origina um sismo, isto é, o hipocentro (de que falámos aqui), e em inglês diz-se the focus of an earthquake. De acordo com o étimo, foco anda à volta de luz e fogo, ainda que metaforicamente. Assim, ao local de um forno onde se põe a matéria combustível dá-se o nome de foco, assim como à parte do cachimbo onde se queima o tabaco, também conhecida por fornilho.

Uso da voz passiva

Por mim…

      Revelou Miguel Sousa Tavares na grande entrevista que deu ontem ao Diário de Notícias: «E quero esclarecer que eu nunca telefonei a um primeiro-ministro, sou sempre telefonado, ao contrário de alguns jornalistas» («“De vez em quando almoço com Sócrates”», Catarina Carvalho, Diário de Notícias, 5.07.2009, p. 3). Não apenas soa mal — está mal. Já aqui tinha abordado o uso moderno do verbo abusar na voz passiva. A mesma construção com o verbo telefonar também é incorrecta, pela mesma razão: o verbo é preposicionado. Podia dizê-lo de muitas outras formas, por exemplo: «E quero esclarecer que eu nunca telefonei a um primeiro-ministro, sou sempre eu o contactado, ao contrário de alguns jornalistas.» Ou: «E quero esclarecer que eu nunca telefonei a um primeiro-ministro, é sempre a mim que telefonam, ao contrário de alguns jornalistas.»

Como se pergunta

Não o revisor, mas ele

      Criativo, sim, mas respeitador da gramática (e com cuidados formais quase únicos entre os escritores portugueses): «Mas de onde vem esta gente? Será do crime? Porque é que a estrada não é só para mim?» («Anda tudo rico», Miguel Esteves Cardoso, Público, 10.05.2009, p. 33). «Por que carga de água-de-colónia, então, é que o PSD e o CDS-PP se abstiveram no diploma que criminaliza os promotores de lutas entre animais e os donos de cães perigosos que se atiram às pessoas?» («Silêncio selvagem», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.07.2009, p. 37).

Ferramentas (VI)


Ferramentas de pedreiro

      As duas páginas acima mostram as seguintes ferramentas de pedreiro: pé-de-cabra, alavanca, ponteiros, escopros, cunha, guilho, escassilhadeiras (e não «escacilhadeiras», pois escassilhar é que é desbastar pedra), brocas de percussão, esquadro, prumo, talocha, talocha de remate, trolha, desempenadeira. Pé-de-cabra: alavanca de ferro com uma extremidade fendida, à semelhança do pé da cabra (crowbar, em inglês). Alavanca: barra de ferro ou pau, que se apoia num ponto fixo para remover ou levantar corpos pesados (lever, em inglês). Ponteiro: utensílio aguçado dos canteiros para desbastar pedra (chisel, em inglês). Escopro: instrumento cortante de ferro ou aço, com ou sem cano, que serve para lavrar pedra, madeira, metal, etc. (flat chisel, em inglês). Cunha: peça de ferro ou madeira, com duas faces em ângulo bastante agudo, que serve para rachar lenha, fender pedras, etc. (wedge, em inglês). Guilho: cunha de ferro para rachar cantaria, etc. (pivot, em inglês). Escassilhadeira ou escassilhador: peça de ferro, se secção rectangular, semelhante a um cinzel mas com uma extremidade cortante recta maior. Talocha: rectângulo de madeira ou de plástico provido de uma pega numa das faces e utilizado para estender e alisar argamassa ou estuque (mason’s mortarboard, em inglês). Trolha: pequena tábua, com uma pega na parte inferior, em que o operário traz a argamassa que vai aplicando (mason’s trowel, em inglês). Desempenadeira: espécie de régua de madeira, de plástico ou de aço provida de pega que serve para estender e nivelar o reboco nas paredes (plaster’s trowel, em inglês).

«Tratar-se» e «mandato»

Só duas coisinhas

      De vez em quando, é bom repetir alertas, pois estão sempre novos jornalistas a começar a exercer (com a crise, despedem-se os mais velhos ou os mais incómodos e contratam-se dóceis estagiários). «Ontem, foram identificados mais seis doentes em Portugal, fazendo disparar para 33 o total de casos no País. Tratam-se de cinco homens, com idades entre os 21 e os 84 anos, vindo do Canadá e de Espanha, e uma mulher de 29 anos que esteve também no Canadá» («OMS confirma risco para grávidas mas vacina está por decidir», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 17). Apesar de já aqui ter referido este erro vezes sem conta, continua, e continuará, não tenho ilusões, a ver-se diariamente.
      «Segundo a agência Associated Press [sic], o apartamento foi posto sob custódia ao abrigo de um mandato judicial» («Polícia expulsa Ruth Madoff da casa do casal», Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 43). É lamentável que os jornalistas continuem a confundir «mandato» com «mandado».

Ortografia: «sem-papéis»

Falta pouco

     «Desde ontem, um “sem-papéis” é oficialmente um delinquente, que vê a sua vida familiar transformar-se num inferno — não pode registar os filhos e quem lhe alugar casa pode ser condenado — e se for apanhado será imediatamente expulso é [sic] poderá ser obrigado a pagar uma multa de cinco a dez mil euros» («Crime, multa e expulsão: destino dos ilegais em Itália», Susana Salvador, Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 29). Estamos quase lá, só falta desembaraçarmo-nos das aspas. Já vimos pior.

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