Como se pergunta

Não o revisor, mas ele

      Criativo, sim, mas respeitador da gramática (e com cuidados formais quase únicos entre os escritores portugueses): «Mas de onde vem esta gente? Será do crime? Porque é que a estrada não é só para mim?» («Anda tudo rico», Miguel Esteves Cardoso, Público, 10.05.2009, p. 33). «Por que carga de água-de-colónia, então, é que o PSD e o CDS-PP se abstiveram no diploma que criminaliza os promotores de lutas entre animais e os donos de cães perigosos que se atiram às pessoas?» («Silêncio selvagem», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.07.2009, p. 37).

Ferramentas (VI)


Ferramentas de pedreiro

      As duas páginas acima mostram as seguintes ferramentas de pedreiro: pé-de-cabra, alavanca, ponteiros, escopros, cunha, guilho, escassilhadeiras (e não «escacilhadeiras», pois escassilhar é que é desbastar pedra), brocas de percussão, esquadro, prumo, talocha, talocha de remate, trolha, desempenadeira. Pé-de-cabra: alavanca de ferro com uma extremidade fendida, à semelhança do pé da cabra (crowbar, em inglês). Alavanca: barra de ferro ou pau, que se apoia num ponto fixo para remover ou levantar corpos pesados (lever, em inglês). Ponteiro: utensílio aguçado dos canteiros para desbastar pedra (chisel, em inglês). Escopro: instrumento cortante de ferro ou aço, com ou sem cano, que serve para lavrar pedra, madeira, metal, etc. (flat chisel, em inglês). Cunha: peça de ferro ou madeira, com duas faces em ângulo bastante agudo, que serve para rachar lenha, fender pedras, etc. (wedge, em inglês). Guilho: cunha de ferro para rachar cantaria, etc. (pivot, em inglês). Escassilhadeira ou escassilhador: peça de ferro, se secção rectangular, semelhante a um cinzel mas com uma extremidade cortante recta maior. Talocha: rectângulo de madeira ou de plástico provido de uma pega numa das faces e utilizado para estender e alisar argamassa ou estuque (mason’s mortarboard, em inglês). Trolha: pequena tábua, com uma pega na parte inferior, em que o operário traz a argamassa que vai aplicando (mason’s trowel, em inglês). Desempenadeira: espécie de régua de madeira, de plástico ou de aço provida de pega que serve para estender e nivelar o reboco nas paredes (plaster’s trowel, em inglês).

«Tratar-se» e «mandato»

Só duas coisinhas

      De vez em quando, é bom repetir alertas, pois estão sempre novos jornalistas a começar a exercer (com a crise, despedem-se os mais velhos ou os mais incómodos e contratam-se dóceis estagiários). «Ontem, foram identificados mais seis doentes em Portugal, fazendo disparar para 33 o total de casos no País. Tratam-se de cinco homens, com idades entre os 21 e os 84 anos, vindo do Canadá e de Espanha, e uma mulher de 29 anos que esteve também no Canadá» («OMS confirma risco para grávidas mas vacina está por decidir», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 17). Apesar de já aqui ter referido este erro vezes sem conta, continua, e continuará, não tenho ilusões, a ver-se diariamente.
      «Segundo a agência Associated Press [sic], o apartamento foi posto sob custódia ao abrigo de um mandato judicial» («Polícia expulsa Ruth Madoff da casa do casal», Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 43). É lamentável que os jornalistas continuem a confundir «mandato» com «mandado».

Ortografia: «sem-papéis»

Falta pouco

     «Desde ontem, um “sem-papéis” é oficialmente um delinquente, que vê a sua vida familiar transformar-se num inferno — não pode registar os filhos e quem lhe alugar casa pode ser condenado — e se for apanhado será imediatamente expulso é [sic] poderá ser obrigado a pagar uma multa de cinco a dez mil euros» («Crime, multa e expulsão: destino dos ilegais em Itália», Susana Salvador, Diário de Notícias, 4.07.2009, p. 29). Estamos quase lá, só falta desembaraçarmo-nos das aspas. Já vimos pior.

Léxico: «comoriano»

É natural

      Já repararam que a imprensa, de uma maneira geral, evita usar o gentílico relativo às Comores? Qual é o receio? Quase todos os jornais dizem «naturais das Comores». No entanto, comorense ou comoriano são formas correctas: «Em Paris, o Presidente francês Nicolas Sarkozy assistiu a uma cerimónia inter-religiosa na Mesquita Central, de homenagem às 153 pessoas que seguiam a bordo do Airbus A310 — a maioria franceses e comorianos» («Sobrevivente do acidente no Índico reencontra o pai», Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 27).

«Vontade de»

Ganas

      Tal como o jornalista Licínio Lima errou na regência verbal («coibir de»), também a jornalista Patrícia Jesus erra na regência nominal destacada: «Os sindicatos dos professores estão satisfeitos com a vontade demonstrada por Manuela Ferreira Leite para mudar os estatutos do Aluno e da Carreira Docente, o sistema de avaliação e aliviar a carga burocrática dos professores» («Promessa sobre nova avaliação agrada a professores», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 17). A regência daquele substantivo faz-se com a preposição de: vontade de (como intenção de).

«Aniversário» adjectivo?

O inventor

      E a propósito de transgressão: vejam esta frase do artigo citado no texto anterior: «De resto, realizou-se ontem mais uma cerimónia aniversária da PSP com os habituais discursos, condecorações (ver caixa) e desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Em latim é que anniversarius, «aquilo que regressa todos os anos», era um adjectivo. Em português é meramente substantivo: dia em que se completa um ou mais anos a partir daquele em que uma pessoa nasceu ou um acontecimento ocorreu. Não é preciso, garanto-lhe, inventar tanto para exprimirmos o que pretendemos.

«Coibir de»

Não te coíbas de escrever

      «Mais pragmático e directo, na cerimónia, foi o director nacional da PSP, superintendente chefe Oliveira Pereira, que nem se coibiu em sair do palanque para ajudar na organização do desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Licínio Lima queria escrever superintendente-chefe. À semelhança, já aqui o vimos recentemente, de comandante-chefe, economista-chefe, enfermeiro-chefe, escuteiro-chefe, inspector-chefe, patologista-chefe… O que me levou a escrever, contudo, foi aquele «coibiu em». Na verdade, a regência do verbo não é essa, mas coibir de. Não é preciso reinventar, transgredindo, a língua todos os dias, basta estudar e ler.

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