Léxico: «comoriano»

É natural

      Já repararam que a imprensa, de uma maneira geral, evita usar o gentílico relativo às Comores? Qual é o receio? Quase todos os jornais dizem «naturais das Comores». No entanto, comorense ou comoriano são formas correctas: «Em Paris, o Presidente francês Nicolas Sarkozy assistiu a uma cerimónia inter-religiosa na Mesquita Central, de homenagem às 153 pessoas que seguiam a bordo do Airbus A310 — a maioria franceses e comorianos» («Sobrevivente do acidente no Índico reencontra o pai», Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 27).

«Vontade de»

Ganas

      Tal como o jornalista Licínio Lima errou na regência verbal («coibir de»), também a jornalista Patrícia Jesus erra na regência nominal destacada: «Os sindicatos dos professores estão satisfeitos com a vontade demonstrada por Manuela Ferreira Leite para mudar os estatutos do Aluno e da Carreira Docente, o sistema de avaliação e aliviar a carga burocrática dos professores» («Promessa sobre nova avaliação agrada a professores», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 17). A regência daquele substantivo faz-se com a preposição de: vontade de (como intenção de).

«Aniversário» adjectivo?

O inventor

      E a propósito de transgressão: vejam esta frase do artigo citado no texto anterior: «De resto, realizou-se ontem mais uma cerimónia aniversária da PSP com os habituais discursos, condecorações (ver caixa) e desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Em latim é que anniversarius, «aquilo que regressa todos os anos», era um adjectivo. Em português é meramente substantivo: dia em que se completa um ou mais anos a partir daquele em que uma pessoa nasceu ou um acontecimento ocorreu. Não é preciso, garanto-lhe, inventar tanto para exprimirmos o que pretendemos.

«Coibir de»

Não te coíbas de escrever

      «Mais pragmático e directo, na cerimónia, foi o director nacional da PSP, superintendente chefe Oliveira Pereira, que nem se coibiu em sair do palanque para ajudar na organização do desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Licínio Lima queria escrever superintendente-chefe. À semelhança, já aqui o vimos recentemente, de comandante-chefe, economista-chefe, enfermeiro-chefe, escuteiro-chefe, inspector-chefe, patologista-chefe… O que me levou a escrever, contudo, foi aquele «coibiu em». Na verdade, a regência do verbo não é essa, mas coibir de. Não é preciso reinventar, transgredindo, a língua todos os dias, basta estudar e ler.

Léxico: «sniper»

Atirador especial

      Não chega dizerem que são atiradores especiais: têm de usar o anglicismo «sniper». Sniper, spotter No Diário de Notícias pelo menos não se esqueceram de explicar o termo: «Os três atiradores especiais (snipers) chamados a intervir no assalto ao BES de Campolide, a 7 de Agosto de 2008, em que um dos assaltantes foi abatido e outro ficou ferido, foram ontem condecorados pelo Ministério da Administração Interna no decorrer do 142.º aniversário da PSP» («‘Snipers’ presentes no BES foram condecorados», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). No Correio da Manhã, pelo contrário, acham (mas perguntem mesmo só na redacção, se querem uma prova de quão errados estão) que não é preciso explicar nada: «O Prémio de Segurança Pública foi entregue aos três snipers da Unidade Especial de Polícia que dispararam contra Wellington Nazaré e Nilson Souza, não causando qualquer ferimento nos reféns» («Snipers do BES condecorados», João Tavares, Correio da Manhã, 3.07.2009, p. 14).

Léxico: «paramotor»

Agora sim

      «Ao mesmo tempo, sobre o Centro Cultural de Belém, mostravam-se os seis paramotores pilotados por elementos da PSP» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Ainda pensei que fosse criação vocabular do jornalista, mas, como vêem, o texto não foi escrito por Daniel Lam. Confirmei no Correio da Manhã: «Agora, a PSP também vai andar pelos ares, com a criação de uma equipa de paramotores» («Polícias no ar a combater o crime», João Tavares, Correio da Manhã, 3.07.2009, p. 14). O paramotor, apesar da sua ligeireza, é uma aeronave pessoal que usa uma asa de parapente e um motor montado numa estrutura leve. Ao contrário do parapente, o paramotor não precisa de desnível para descolar.

Sobre «tutela»

Pois é

      Insensivelmente, deixou de se dizer, pelo menos com a frequência de antigamente, ministro da tutela, passando a usar-se, mais laconicamente, tutela. Na televisão, na rádio e nos jornais. Ministro da tutela é a designação do ministro relativamente às questões da área da sua pasta. Assim, o ministro da tutela dos assuntos relacionados com a imigração, por exemplo, é o ministro da Administração Interna (ou do Interior, como se dizia, e, a meu ver bem, antes). Tutela, sem mais, é, omitindo os sentidos figurados, a autoridade legal sobre uma pessoa menor ou interdita ou a sujeição ou obediência técnica ou administrativa, imposta legalmente a um organismo ou uma região. Valha este exemplo, tão bom ou tão mau como outro de qualquer jornal, do Correio da Manhã: «Ao final da tarde, a tutela anunciava mais um caso: um homem que regressou de Palma de Maiorca» («Autoridades não informam turistas», Alexandre M. Silva, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 17). Antes não se refere nunca o ministro da Saúde, mas sim o Ministério da Saúde.

Contra o Acordo de Londres

Pense bem

      Creio que os signatários da petição contra o chamado Acordo de Londres têm — temos, acabei de a subscrever — razão: quando se propala tanto a necessidade de impor a língua portuguesa no mundo e nas instâncias internacionais, seria incoerente que o Governo português, ainda por cima no término da legislatura, subscrevesse este acordo, de adesão, note-se, facultativa. Se queremos copiar os outros países, copiemos então a posição de Espanha, Itália, Grécia, República Checa, Polónia e outros, que não vão aderir. Em resumo, o que está em causa é o seguinte: quem pretenda actualmente validar uma patente europeia em Portugal tem de apresentar a tradução para português. Com o Acordo de Londres, deixa de existir a obrigatoriedade de tradução, passando a vigorar em Portugal as patentes apresentadas em inglês, francês ou alemão. Estão também envolvidas questões económicas, mas, para o que nos interessa, os interesses da língua portuguesa serão postos em causa. Se concorda com a posição dos signatários da petição (que, infelizmente, tem alguns erros, o que é tanto mais lamentável quanto nela se fala da defesa da língua), assine-a aqui.

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