Ortografia: «inter-religioso»

Muito bons são eles

      «As vítimas serão amanhã homenageadas numa cerimónia interreligiosa, em Paris, na qual estará o Presidente Nicolas Sarkozy» («Jovem sobrevive à tragédia no Índico», Susana Salvador, Diário de Notícias, 1.07.2009, p. 5). Nem no âmbito do Acordo Ortográfico de 1945 nem — embora, para o caso, pouco interessasse, e só o refiro para me antecipar a qualquer objecção — no âmbito do Acordo Ortográfico de 1990 se escreve sem hífen, erro que vejo com alguma frequência. Segundo as futuras regras ortográficas, o hífen apenas se usa nas formações com o prefixo inter- quando combinado com elementos iniciados por r: inter-racial, inter-radical, inter-resistente, inter-regional, inter-rei, inter-relação, inter-resistente…

À volta do Twitter

Perguntem à Maria José

      «Nessa altura já os “twitteiros” deverão estar a postos com o seu computador nas galerias da AR para, através da rede informática local, poderem comentar em directo o último debate da XVII legislatura» («Deputado organiza visita à AR através do Twitter», Público, 1.07.2009, p. 6). Ah, mas isto é um lamentável retrocesso. Deviam estar, neste momento, a escrever descomplexadamente «tuiteiros»*. Porquê, perguntam? Eis a razão: «Ainda não eram 15 horas e já as bancadas e as galerias estavam bastante povoadas — lá em cima, convidados e alunos de escolas procuravam os seus lugares; cá em baixo, os deputados entretinham-se a teclar nos computadores embutidos em cada lugar (alguns “tuítavam”, outros espreitavam as edições on-line dos jornais, outros ainda aproveitavam para ler e-mails; de facto, não é fácil ter privacidade com aqueles ecrãs)» («Kavafis, Sófocles e o avô de Lello no Parlamento», Maria José Oliveira, Público, 26.03.2009, p. 10).

* A palavra foneticamente mais aproximada que temos é «tuitivo». É muito usada no âmbito do Direito do Trabalho brasileiro, dizendo-se que o princípio tuitivo é um traço típico, essencial, deste ramo do Direito. Tuitivo é um adjectivo que vem do latim (tuĭtus, «defendido», particípio passado de tuēri, «defender; proteger» +-ivo) e significa que protege, ampara ou defende; próprio para defender. Em espanhol também existe o adjectivo «tuitivo», que se usava antigamente na locução potestad tuitiva, que era a do poder real, aplicada no amparo dos súbditos a quem eram feitos agravos pelos juízes eclesiásticos.

«Descarrilar-se»?


Escrita infernal

      «Um verdadeiro Inferno. Foi desta forma que a maioria dos sobreviventes descreveu a tragédia que ontem de madrugada se abateu sobre a localidade de Viarregio, no norte de Itália, quando um comboio carregado de gás se descarrilou e explodiu, matando pelo menos 16 pessoas» («Explosão de gás mata 16», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 31). A sério? No Diário de Notícias lia-se que as testemunhas diziam que tinha sido um «inferno». O mesmíssimo Diário de Notícias, em texto da autoria de Hugo Coelho, «Material degradado explica acidente do comboio com GPL» (1.07.2009, p. 24), afirmava que Viarregio se situa no Noroeste de Itália. Vendo bem, Viarregio, na região da Toscana (e no Correio da Manhã escrevem Toscânia), fica na Itália Central. Não quero infernar o jornalista, mas sempre lhe digo que aquele «se descarrilou» (que se repete na legenda do mapa) está erradíssimo, pois o verbo não é pronominal. Descarrilar também é, nem de propósito, fazer ou dizer disparates.

Qualquer-coisa-chefe

Cabecilhas

      «Tiago era chefe-escuteiro há cinco anos, e as autoridades vão agora tentar recolher relatos de crianças e visualizar fotos do computador, pois suspeitam de que o universitário há muito praticava o crime de pedofilia» («Escuteiro-chefe violava mais novos», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 32). «Chefe-escuteiro»? Nem pensar! Aliás, no próprio título lê-se a forma correcta escuteiro-chefe, só espero é que não tenha sido por lapso, pois na mesma edição aparece, noutra notícia, chefe de escuteiros: «Continua sem dar sinal de vida à família o jovem chefe de escuteiros que desapareceu no domingo de madrugada, na zona de Alcântara, em Lisboa» («“Filho, volta rápido e bem, por favor!”», Magali Pinto, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 14).
      «Hermínio Frias é o inspector-chefe da 1.ª secção da Brigada de Homicídios, estando à frente desta há mais de um ano» («Suspeitos de Cascais sem ligação aos crimes», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 14.3.2008, p. 22). «Mário Lemos Pires (então coronel) assumiu o cargo de governador e comandante-chefe de Timor-Leste a 14 de Novembro de 1974» («Morreu o último governador de Timor», Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 16). «Zugibe, ex-patologista-chefe do Instituto de Medicina Legal de Nova Iorque, desmente várias teorias clássicas, algumas delas no filme A Paixão de Cristo (na foto): Jesus só carregou o tronco horizontal da Cruz e não a totalidade e só a parte de trás do seu corpo foi açoitada» («Autópsia revela causa da morte de Cristo», Destak/Sábado, 28.2.2008, p. 6).

Siglas e acrónimos (II)

Quase JEsUS

      Já aqui estranhei as siglas e acrónimos de instituições recentes. Vejam estes exemplos: «O Instituto da Construção e Imobiliário (InCI), organismo público que ficou responsável pela execução do Código dos Contratos Públicos, e pela criação de um portal, onde devem ser publicitados todos os ajustes directos e derrapagens, em nome da transparência e do rigor no uso dos dinheiros públicos, não está a conseguir, neste mesmo portal, dar o melhor exemplo» («Portal para a transparência das obras públicas adjudicado sem concurso», Luísa Pinto, Público, 29.06.2009). «O GEsOS [Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago] tem como objectivos promover a investigação historiográfica na área das Ordens Militares, divulgar o património histórico, documental e edificado das Ordens Militares e fomentar o apoio à edição e publicação de trabalhos de investigação nesta área» («Património cultural», Palmela É o Futuro, destacável do Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 10). Desde quando é que partículas como de, sobre e outras têm expressão na composição da sigla? AdP para Águas de Portugal ou BdP para Banco de Portugal é ridículo.



Elemento de composição «recém» (III)

Paciência…

      Ora vejam como o elemento de composição recém- continua a ser tratado: «Recém-ministro francês da cultura, Fréderic Mitterrand recusou o gabinete do antecessor e instalou-se no que pertenceu a Andrè Malraux» («Gabinete», João Vaz, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 30). «O brasileiro Luciano da Silva, de 33 anos, de Minas Gerais, teve pouco tempo para desfrutar a vida de casado. A polícia prendeu-o e acabou com o casamento: a recém-esposa descobriu que Luciano já era casado…» («Recém-casada descobre marido bígamo», Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 31). Em duas páginas seguidas...

Léxico: «estroncar»

Castiço, mas…

      «O ex-guarda estava encapuzado e, à cintura, tinha uma pistola, um pau com um bico em aço, um alicate e ainda uma chave de parafusos, alegadamente para estroncar as portas das casas que pretendia assaltar na madrugada de ontem» («GNR morto a tiro por ser assaltante», Almeida Cardoso, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 10).
      Estroncar é um verbo formidável, tenho é dúvidas se foi usado com propriedade, pois a acepção mais próxima é «partir; quebrar; desarticular». Ora, o contexto pedia algo como «arrombar», «forçar», «abrir».

Sobre «aminoácido»

Às três pancadas

      «Além disso, quando começaram a introduzir amino-ácidos que bloqueiam o acesso a estas bolsas, as moléculas de álcool já não conseguiam activar os GIRP» («Descoberta a área do cérebro onde o álcool actua», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 25). E amino-ácido pretende copiar o francês? Em francês é que é amino-acide, mas o étimo do nosso vocábulo é o inglês amino acid. Há autores que defendem que em compostos semelhantes a este, os semantemas se devem aglutinar entre si, pelo que melhor seria aminácido que aminoácido. Curioso é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe «aminácido» mas neste verbete remeta para «aminoácido». Por outro lado, em todo o texto se lê GIRK, de Gbetagamma-activated inwardly rectifying K. Nesta frase saiu GIRP. Em compensação, explica-se o que são os GIRK: «são canais que abrem quando existe comunicação química entre os neurónios, enfraquecendo os sinais».

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