Preposições «sob» e «sobre»

Esforço brusco

      «É a segunda vez, em menos de um mês, que a PSP do Porto detém um grupo de menores sob o qual pendem fortes indícios da autoria de uma série de crimes violentos praticados na Baixa do Porto sob a forma de “arrastão”» («Rapazes de 12 e 14 anos fazem roubos violentos na rua», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 16). Como é que ainda há, não digo falantes comuns, mas jornalistas que confundem as preposições sob e sobre? Para a trapalhada ser maior, só faltava escrever que tinha sido «sobre a forma de “arrastão”». (Claro que as aspas são por conta do jornalista.) Também não percebo porque não corrigem na página da Internet os erros e gralhas que vão sendo detectados. Não vale a pena, não é?

Léxico: «mototriciclo»


Neologismo

      «Uma mototriciclo Piaggio Ape 50, mais conhecida por “vespa”, estava acorrentada a um carro Opel Corsa para evitar que a roubassem» («Moto acorrentada ‘travou’ roubo de carro», Daniel Lam, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 16). Esqueçam a concordância. Nunca antes vi o vocábulo «mototriciclo». Aos veículos semelhantes ao da imagem vejo ser dada a designação de «triciclo», que é qualquer veículo, com motor ou sem motor, de três rodas. Para distinguir de um triciclo de crianças, desses que custam 10 euros num hipermercado, sim parece-me útil juntar-se o elemento moto-. E, por fim, é claro que o veículo da imagem não é conhecido por vespa.

«Khmeres» ou «Khmers»?

Esta é nova

      «As palavras são de Van Nagh, o primeiro dos três sobreviventes da prisão Tuol Sleng a testemunhar em tribunal no julgamento dos Khmeres Vermelhos» («O sobrevivente dos Khmeres testemunha», Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 24). Insinuou-se ali um ezinho que dantes nunca se via: Khmeres. Julgar-se-á que escrita desta forma a palavra é ou parece mais portuguesa? No Público, por sua vez, lia-se: «O pintor perdeu dois filhos nos “campos da morte” dos khmer vermelhos, que entre 1975 e 1979 foram responsáveis pelo desaparecimento de 1,7 milhões de pessoas — um quinto da população do Camboja — que não resistiram à fome, doenças ou exaustão, ou que foram simplesmente assassinadas» («O pintor de Pol Pot conta como sobreviveu ao centro de detenções S-21», Francisca Gorjão Henriques, Público, 29.06.2009).
      Bem, eu também tenho dúvidas se se deve grafar o nome deste movimento radical comunista com iniciais maiúsculas, questão que voltarei a abordar aqui, mas o certo é que no Livro de Estilo do Público se lê, a propósito da abordagem de assuntos com carga ideológica, Khmer Vermelhos («O sanguinário regime dos Khmer Vermelhos...»).

O elemento «neo-»

É confusão

      «Com este antigo deputado nascido na Colômbia, voltam as ideias neo-liberais do ex-presidente Carlos Menem, de quem Narvaez foi financeiro» («O milionário ruivo que beneficiou do voto anti-Kirchner», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 22). Helena Tecedeiro, uma das mais cuidadosas jornalistas que temos, queria escrever «neoliberais» e «Narváez». O elemento de formação de palavras neo- liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Quanto a «financeiro», ocorreu-me logo que pudesse ser má tradução do espanhol, mas não, o nosso substantivo «financeiro» também tem a acepção de «banqueiro» e não apenas o de «indivíduo versado na ciência das finanças», único significado do espanhol: «Persona versada en la teoría o en la práctica de estas mismas materias», o que remete para o adjectivo: «Perteneciente o relativo a la Hacienda pública, a las cuestiones bancarias y bursátiles o a los grandes negocios mercantiles» (in DRAE). De Narváez não é banqueiro: apoiou financeiramente, em 2003, a campanha de Carlos Menem.
      No Público, lia-se: «Narváez é um milionário de 55 anos que tem sido associado ao regresso das ideias neoliberais do antigo Presidente Carlos Ménem» («Derrota eleitoral põe em causa a “dinastia Kirchner”», Isabel Gorjão Santos, Público, 30.06.2009, p. 15). Neste texto, foi o nome de Menem que saiu errado.

«Limpeza ao estômago»?

Fichas trocadas

      No Correio da Manhã de ontem, a jornalista Ana Maria Ribeiro publicou uma peça sobre Michael Jackson. Eis um excerto: «Antecipa-se o lançamento de uma sucessão de discos, livros e DVD da sua obra, bem como a proliferação de toda a espécie de ‘memorabilia’ que evoque a sua passagem meteórica pelo mundo dos vivos» («Família está rica apesar das dívidas», Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 37). «Passagem meteórica»? Michael Jackson viveu cinquenta anos! Bem, Blaise Pascal morreu com 39 anos. Eu sei, épocas diferentes. Mas ainda assim, só um fã afirmaria o que escreveu a jornalista. Num texto de apoio, ficamos ainda a saber que a ama dos filhos de Michael Jackson lhe fez várias «limpezas ao estômago» (talvez com uma esfregona): «Grace Rwaramba, que trabalhou como ama para Jackson, disse que o cantor abusava muito dos medicamentos e que lhe fez várias limpezas ao estômago.» Vejam lá agora não escrevam lavagem étnica… E mais (vou-me já embora), admitirá o abuso gradações? Duvido.


Léxico: «spotter»

Vejam e disparem

      Atenção: os jornalistas descobriram uma nova palavra, um estrangeirismo, e não nos vão poupar nos próximos tempos: «A PSP, cujos spotters (elementos especializados na vigilância de claques e adeptos problemáticos) estavam encarregados de acompanhar a claque do Benfica No Name Boys até à Academia de Alcochete, remete a responsabilidade da falta de controlo sobre os incidentes de anteontem para o dispositivo da GNR no local» («PSP empurra culpa para a GNR», Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 5). «Enquanto Sporting e Benfica se travam de razões em comunicados, a GNR remete para hoje uma posição cabal sobre os incidentes de sábado em Alcochete que levaram à interrupção do jogo entre os dois clubes que decidia o campeonato de juniores. Mas, apurou o DN, a GNR ignorou a informação dos spotters (agentes da PSP que acompanham e vigiam as claques) no sentido de fechar os portões aos 65 membros das claques do Benfica que depois se envolveram numa troca de pedras» («GNR ignorou dicas de segurança dos ‘spotters’», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 29.06.2009). Em inglês, spotter é simplesmente um observador. Coloquialmente, no inglês americano é detective particular.

Nomes de etnias

Um pouco mais

      «Os três presidenciáveis na eleição de ontem eram Kumba Ialá, líder do PRS, balanta, convertido ao islão, Malan Bacai Sanhá, muçulmano, beafada, e Henrique Rosa, independente, católico, filho de pai português e mãe fula. […] Sanhá é beafada, pelo que receberá votos dos mandingas, dos próprios beafadas e dos djakancos e sarankulés, que foram islamizados pelos mandingas, havendo entre estas etnias uma aliança cultural, social e religiosa. […] Por outro lado, o PAIGC, e não Sanhá, mobiliza os votos dos papeles, manjacos, mancanhos, bijagós, fulupes e bramís» («Prospectivas étnicas», Raul M. Braga Pires, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 23). Estão quase todos dicionarizados: Bijagós, Beafadas (ou Biafadas), Felupes (não vi «Fulupes»), Manjacos (ou Manjaques), Mancanhas (não vi «Mancanhos»), Brames (e não «Bramís», além de que o Dicionário Houaiss o dá como sinónimo de «Mancanhas»). Na Internet, a única ocorrência de «Djakancos» remete para o texto citado, isto porque esta etnia é conhecida por Jacancas. Quanto a «Sarankulés», já tenho lido Saranculés e Seraculés. E ora aparece Papeles ora Papéis. Quando a preocupação, louvável, era escrever os nomes das etnias em português, não percebo porque optou o autor do texto por escrever «djakancos» e «sarankulés».

Verbo «faltar», de novo

Uma gramática ajudava

      «Os jogadores vão concentrar-se no Mar para os habituais exames médicos, numa altura em que ainda faltam acertar algumas aquisições para fechar o plantel.» «Fernando Oliveira, líder da Comissão de Gestão, confirmou ontem que, apesar de faltar dois ou três jogadores, o plantel está quase fechado.» É verdade que os erros se encontravam em páginas diferentes, em textos escritos por dois jornalistas, mas eu estava lá e impedi o desastre. Não vejo a dificuldade. Vejo é que não aprenderam nem provavelmente irão aprender.

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