O elemento «neo-»

É confusão

      «Com este antigo deputado nascido na Colômbia, voltam as ideias neo-liberais do ex-presidente Carlos Menem, de quem Narvaez foi financeiro» («O milionário ruivo que beneficiou do voto anti-Kirchner», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 22). Helena Tecedeiro, uma das mais cuidadosas jornalistas que temos, queria escrever «neoliberais» e «Narváez». O elemento de formação de palavras neo- liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Quanto a «financeiro», ocorreu-me logo que pudesse ser má tradução do espanhol, mas não, o nosso substantivo «financeiro» também tem a acepção de «banqueiro» e não apenas o de «indivíduo versado na ciência das finanças», único significado do espanhol: «Persona versada en la teoría o en la práctica de estas mismas materias», o que remete para o adjectivo: «Perteneciente o relativo a la Hacienda pública, a las cuestiones bancarias y bursátiles o a los grandes negocios mercantiles» (in DRAE). De Narváez não é banqueiro: apoiou financeiramente, em 2003, a campanha de Carlos Menem.
      No Público, lia-se: «Narváez é um milionário de 55 anos que tem sido associado ao regresso das ideias neoliberais do antigo Presidente Carlos Ménem» («Derrota eleitoral põe em causa a “dinastia Kirchner”», Isabel Gorjão Santos, Público, 30.06.2009, p. 15). Neste texto, foi o nome de Menem que saiu errado.

«Limpeza ao estômago»?

Fichas trocadas

      No Correio da Manhã de ontem, a jornalista Ana Maria Ribeiro publicou uma peça sobre Michael Jackson. Eis um excerto: «Antecipa-se o lançamento de uma sucessão de discos, livros e DVD da sua obra, bem como a proliferação de toda a espécie de ‘memorabilia’ que evoque a sua passagem meteórica pelo mundo dos vivos» («Família está rica apesar das dívidas», Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 37). «Passagem meteórica»? Michael Jackson viveu cinquenta anos! Bem, Blaise Pascal morreu com 39 anos. Eu sei, épocas diferentes. Mas ainda assim, só um fã afirmaria o que escreveu a jornalista. Num texto de apoio, ficamos ainda a saber que a ama dos filhos de Michael Jackson lhe fez várias «limpezas ao estômago» (talvez com uma esfregona): «Grace Rwaramba, que trabalhou como ama para Jackson, disse que o cantor abusava muito dos medicamentos e que lhe fez várias limpezas ao estômago.» Vejam lá agora não escrevam lavagem étnica… E mais (vou-me já embora), admitirá o abuso gradações? Duvido.


Léxico: «spotter»

Vejam e disparem

      Atenção: os jornalistas descobriram uma nova palavra, um estrangeirismo, e não nos vão poupar nos próximos tempos: «A PSP, cujos spotters (elementos especializados na vigilância de claques e adeptos problemáticos) estavam encarregados de acompanhar a claque do Benfica No Name Boys até à Academia de Alcochete, remete a responsabilidade da falta de controlo sobre os incidentes de anteontem para o dispositivo da GNR no local» («PSP empurra culpa para a GNR», Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 5). «Enquanto Sporting e Benfica se travam de razões em comunicados, a GNR remete para hoje uma posição cabal sobre os incidentes de sábado em Alcochete que levaram à interrupção do jogo entre os dois clubes que decidia o campeonato de juniores. Mas, apurou o DN, a GNR ignorou a informação dos spotters (agentes da PSP que acompanham e vigiam as claques) no sentido de fechar os portões aos 65 membros das claques do Benfica que depois se envolveram numa troca de pedras» («GNR ignorou dicas de segurança dos ‘spotters’», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 29.06.2009). Em inglês, spotter é simplesmente um observador. Coloquialmente, no inglês americano é detective particular.

Nomes de etnias

Um pouco mais

      «Os três presidenciáveis na eleição de ontem eram Kumba Ialá, líder do PRS, balanta, convertido ao islão, Malan Bacai Sanhá, muçulmano, beafada, e Henrique Rosa, independente, católico, filho de pai português e mãe fula. […] Sanhá é beafada, pelo que receberá votos dos mandingas, dos próprios beafadas e dos djakancos e sarankulés, que foram islamizados pelos mandingas, havendo entre estas etnias uma aliança cultural, social e religiosa. […] Por outro lado, o PAIGC, e não Sanhá, mobiliza os votos dos papeles, manjacos, mancanhos, bijagós, fulupes e bramís» («Prospectivas étnicas», Raul M. Braga Pires, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 23). Estão quase todos dicionarizados: Bijagós, Beafadas (ou Biafadas), Felupes (não vi «Fulupes»), Manjacos (ou Manjaques), Mancanhas (não vi «Mancanhos»), Brames (e não «Bramís», além de que o Dicionário Houaiss o dá como sinónimo de «Mancanhas»). Na Internet, a única ocorrência de «Djakancos» remete para o texto citado, isto porque esta etnia é conhecida por Jacancas. Quanto a «Sarankulés», já tenho lido Saranculés e Seraculés. E ora aparece Papeles ora Papéis. Quando a preocupação, louvável, era escrever os nomes das etnias em português, não percebo porque optou o autor do texto por escrever «djakancos» e «sarankulés».

Verbo «faltar», de novo

Uma gramática ajudava

      «Os jogadores vão concentrar-se no Mar para os habituais exames médicos, numa altura em que ainda faltam acertar algumas aquisições para fechar o plantel.» «Fernando Oliveira, líder da Comissão de Gestão, confirmou ontem que, apesar de faltar dois ou três jogadores, o plantel está quase fechado.» É verdade que os erros se encontravam em páginas diferentes, em textos escritos por dois jornalistas, mas eu estava lá e impedi o desastre. Não vejo a dificuldade. Vejo é que não aprenderam nem provavelmente irão aprender.

O uso de estrangeirismos

Adivinhem

      «Este [o debate nos meios de comunicação social nos Estados Unidos] encontra-se quase completamente ocupado por políticos e por pundits como Bill O’Reilly, Keith Olbermann e Sean Hannity, estes últimos cumprindo a função de comentadores supostamente informados mas, na prática, fazendo parte de um sistema de produção de opiniões cada vez mais politizado e partidarizado, e cuja relação com alguns factos básicos conhecidos sobre a vida política é, no mínimo, problemática» («Os politólogos», Pedro Magalhães, Público, 29.06.2009, p. 29). Nesta última crónica para o Público, Pedro Magalhães usou duas vezes o termo inglês pundit sem nunca explicar do que se tratava. Claro que, não sendo jornalista, não tem a mesma gravidade, mas as consequências para leitor são as mesmas — não compreenderá do que se trata. Pundit é o nosso «pândita», mas noutra acepção que desconhecemos, a de «analista».

Actualização em 14.08.2009

      «Clinicians, pundits and researchers all like to say things like ‘There is a need for more research,’ because it sounds forward-thinking and open-minded» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 57). «Tanto os clínicos como os peritos e os investigadores fazem afirmações do género: «É necessária mais investigação», porque transmite uma ideia de visão do futuro e abertura de espírito» (Ciência da Treta, Ben Goldacre. Tradução de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2009, p. 76).

Ortografia: «superior-geral»

Analogia


      «Apesar de ter agradecido ao Papa o levantamento da excomunhão, Bernard Fellay, superior-geral da Fraternidade [São Pio X], reafirmou as suas reservas quanto à doutrina saída do Concílio Vaticano II» («Integristas desafiam Vaticano», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 27). Sim, superior-geral escreve-se, à semelhança de director-geral, por exemplo, com hífen, embora poucas vezes se veja assim grafado. A língua é muito complexa e dificilmente se conseguirá uniformizá-la, ainda mais no que diz respeito à ortografia. Não é de ontem que o Diário de Notícias grafa assim a palavra: «A 35.ª Congregação Geral da Companhia de Jesus elegeu ontem, em Roma, o espanhol Adolfo Nicolás como novo superior-geral em substituição do padre Hans-Peter Kolvenbach. O padre espanhol, de 71 anos, torna-se o 29.º dirigente da ordem desde a sua fundação, em 1540, por Santo Inácio de Loyola» («Jesuítas elegem padre espanhol para novo superior-geral da ordem», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.01.2008).

«Quiquadrado»?

Qual delas?

      E a propósito de ler aqui num texto «cociente» em vez de «quociente», que prefiro por estar perto do presumível étimo latino: escreve-se qui-quadrado, qui quadrado ou quiquadrado? Em inglês escreve-se chi-square. Se é a mera leitura de X ao quadrado, sim, deveria escrever-se «qui quadrado». Qui é o nome da vigésima segunda letra do alfabeto grego. Contudo, substantivado, creio que o mais correcto é quiquadrado. Há quem escreva chi, mas, pelo menos dicionarizado, é apenas o termo popular e familiar para abraço.

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