O uso de estrangeirismos

Adivinhem

      «Este [o debate nos meios de comunicação social nos Estados Unidos] encontra-se quase completamente ocupado por políticos e por pundits como Bill O’Reilly, Keith Olbermann e Sean Hannity, estes últimos cumprindo a função de comentadores supostamente informados mas, na prática, fazendo parte de um sistema de produção de opiniões cada vez mais politizado e partidarizado, e cuja relação com alguns factos básicos conhecidos sobre a vida política é, no mínimo, problemática» («Os politólogos», Pedro Magalhães, Público, 29.06.2009, p. 29). Nesta última crónica para o Público, Pedro Magalhães usou duas vezes o termo inglês pundit sem nunca explicar do que se tratava. Claro que, não sendo jornalista, não tem a mesma gravidade, mas as consequências para leitor são as mesmas — não compreenderá do que se trata. Pundit é o nosso «pândita», mas noutra acepção que desconhecemos, a de «analista».

Actualização em 14.08.2009

      «Clinicians, pundits and researchers all like to say things like ‘There is a need for more research,’ because it sounds forward-thinking and open-minded» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 57). «Tanto os clínicos como os peritos e os investigadores fazem afirmações do género: «É necessária mais investigação», porque transmite uma ideia de visão do futuro e abertura de espírito» (Ciência da Treta, Ben Goldacre. Tradução de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2009, p. 76).

Ortografia: «superior-geral»

Analogia


      «Apesar de ter agradecido ao Papa o levantamento da excomunhão, Bernard Fellay, superior-geral da Fraternidade [São Pio X], reafirmou as suas reservas quanto à doutrina saída do Concílio Vaticano II» («Integristas desafiam Vaticano», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 27). Sim, superior-geral escreve-se, à semelhança de director-geral, por exemplo, com hífen, embora poucas vezes se veja assim grafado. A língua é muito complexa e dificilmente se conseguirá uniformizá-la, ainda mais no que diz respeito à ortografia. Não é de ontem que o Diário de Notícias grafa assim a palavra: «A 35.ª Congregação Geral da Companhia de Jesus elegeu ontem, em Roma, o espanhol Adolfo Nicolás como novo superior-geral em substituição do padre Hans-Peter Kolvenbach. O padre espanhol, de 71 anos, torna-se o 29.º dirigente da ordem desde a sua fundação, em 1540, por Santo Inácio de Loyola» («Jesuítas elegem padre espanhol para novo superior-geral da ordem», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.01.2008).

«Quiquadrado»?

Qual delas?

      E a propósito de ler aqui num texto «cociente» em vez de «quociente», que prefiro por estar perto do presumível étimo latino: escreve-se qui-quadrado, qui quadrado ou quiquadrado? Em inglês escreve-se chi-square. Se é a mera leitura de X ao quadrado, sim, deveria escrever-se «qui quadrado». Qui é o nome da vigésima segunda letra do alfabeto grego. Contudo, substantivado, creio que o mais correcto é quiquadrado. Há quem escreva chi, mas, pelo menos dicionarizado, é apenas o termo popular e familiar para abraço.

«Liberado»

Muito bem

      Já alguma vez ouviram um português de gema dizer que determinada mulher era sexualmente liberada? Pois não, só um brasileiro o diz. Contudo, a acepção faz-nos falta. Se consultarmos um qualquer dicionário, para o adjectivo «liberado» só encontramos o significado de título que já foi pago. Referido àquele que se libertou de certas convenções sociais e morais seguidas pela maioria, é acepção que nem como brasileirismo aparece referida. Como fazemos: optamos por «libertada»? «Livre»? E será o mesmo? Eis que vejo numa tradução portuguesa, de Fernanda Pinto Rodrigues, a acepção brasileira: «Não é uma semiadolescente, não é desleixada e desgrenhada, não é uma rapariga liberada, digamos» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 12).

«V2»

Como um foguete

      Durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães lançaram V2 sobre Londres. Atingiam velocidades supersónicas ou ultra-sónicas: mais de cinco vezes a velocidade do som. As pessoas só as ouviam quando já tinham atingido o solo. Mas as V2 eram o quê? Em inglês, diz-se rocket. Numa tradução, vejo vertido por foguetão, mas, ao ouvir este vocábulo, mais depressa me ocorre a imagem de um veículo utilizado para transportar satélites artificiais e lançá-los em determinada órbita e para exploração do espaço cósmico do que a de uma arma de deflagração que se projecta à distância. Mas também tenho visto as V2 referidas como foguetes, pois um «foguete» é também um projéctil autopropulsionado. Finalmente, tenho lido igualmente que a V2 é um míssil, pois este é um «projéctil equipado com dispositivo motopropulsor, autoguiado, teleguiado ou não guiado, que pode atingir velocidades supersónicas e alcançar distâncias da ordem dos milhares de quilómetros e é geralmente usado como arma, para atingir um alvo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). O que acham os meus leitores?

Ferramentas (V)


Ferramentas de carpinteiro     


      Pela quinta semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: formão, bedame, goiva, armilheiro, enxó (e não «enchó», que é o mesmo que «ichó», uma armadilha para caçar perdizes e coelhos, do latim ostiolu-, «portinha». Como sucedeu com tantos termos latinos, como plumbu, que deu «prumo» e «chumbo», este deu origem a dois vocábulos em português [é o que se chama formas divergentes ou alotrópicas], uma forma popular, enchó, e um cultismo, ostíolo, que é a designação em Biologia de certos orifícios em órgãos vegetais e animais, como nos conceptáculos das algas, nos esporângios, nos estomas, etc.), raspador, enxó de rabo, nível, prumo, corta-mão, escantilhão e metro de madeira. Passemos, como é habitual, à definição dos mais desconhecidos. Formão: utensílio utilizado por carpinteiros e ferradores, geralmente de forma rectangular, com uma lâmina larga e achatada com gume numa das extremidades e cabo na outra (chisel, em inglês). Bedame (do francês bec-d’âne): formão comprido e estreito, de secção quadrada, para abrir encaixes na madeira (mortise-chisel, em inglês). Goiva: espécie de formão com lâmina em meia-cana, utilizada em carpintaria, escultura, etc., para abrir sulcos na madeira (gouge, em inglês). Há dois tipos de goivas: a de releixo por fora, que apresenta o fio no lado exterior ou convexo, também chamada goiva de releixo; a de releixo por dentro, a que o apresenta do lado interior ou côncavo, também chamada goiva de enxovar. Armilheiro: formão pequeno e estreito, usado para abrir as fendas estreitas em que se alojam as fichas de armilhar. Enxó: utensílio de carpinteiro para desbastar peças grossas de madeira (adze, em inglês). Corta-mão é o mesmo que esquadro (carpenter’s rule or square, em inglês). O escantilhão é um utensílio que serve de molde em certos géneros de desenho.

Sobre «sondagem»

Sondemos

      O que é que um técnico de sondagens (pollster, em inglês) faz? Sim, faz sondagens, que é um método de investigação que consiste na recolha de dados parciais, o universo considerado, que permitam obter um resultado representativo do assunto em análise. Mas o verbo? Um vereador vereia, um presidente preside, um secretário secretaria, um crítico critica, um revisor revê, um tradutor traduz, um médico medica (e engana-se nos diagnósticos, incapaz de interpretar, por falta de formação, as probabilidades), um enfermeiro não enferma, um professor não professa… Estão a ver? Em sentido figurado, sondar (do termo latino hipotético subundare [de sub, «sob» e unda, «onda»], «mergulhar». E hipotético porque não está registado. Para dizerem o mesmo, os Romanos usavam o verbo tentare) é procurar conhecer a opinião de alguém, e foi a partir deste sentido que se formou o substantivo. Este verbo tem outros sentidos figurados. Se eu disser que sondei o meu sogro para ver se ele me dá dinheiro para eu comprar um BMW X3, sondar já significa tactear, procurar saber com cautela.

Léxico: «mosca»


Mosca bilingue     


      Como é que se chama àquele ponto central do alvo? Muitos leitores, aposto, dir-me-ão: «Em inglês é bull’s-eye.» Sim, pois, eu sei que the small central circle on a target tem esse nome, mas em português? É mosca. Mosca simples o ponto central e mosca dupla o círculo em redor daquele. Parece que até em sentido técnico-militar é assim que se designa. Decerto que já ouviram ou usaram a expressão acertar na mosca. É desta mosca que se trata. Ah, pensavam que a expressão vinha do francês… Talvez. Acertar na mouche, dizem os nossos compatriotas mais poliglotas. Faire mouche, dizem os Franceses. Sim, porque mouche é, também, o «petit cercle noir placé au centre d’une cible que l’on vise dans un tir au pistolet ou au fuzil».

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