Nomes de etnias

Um pouco mais

      «Os três presidenciáveis na eleição de ontem eram Kumba Ialá, líder do PRS, balanta, convertido ao islão, Malan Bacai Sanhá, muçulmano, beafada, e Henrique Rosa, independente, católico, filho de pai português e mãe fula. […] Sanhá é beafada, pelo que receberá votos dos mandingas, dos próprios beafadas e dos djakancos e sarankulés, que foram islamizados pelos mandingas, havendo entre estas etnias uma aliança cultural, social e religiosa. […] Por outro lado, o PAIGC, e não Sanhá, mobiliza os votos dos papeles, manjacos, mancanhos, bijagós, fulupes e bramís» («Prospectivas étnicas», Raul M. Braga Pires, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 23). Estão quase todos dicionarizados: Bijagós, Beafadas (ou Biafadas), Felupes (não vi «Fulupes»), Manjacos (ou Manjaques), Mancanhas (não vi «Mancanhos»), Brames (e não «Bramís», além de que o Dicionário Houaiss o dá como sinónimo de «Mancanhas»). Na Internet, a única ocorrência de «Djakancos» remete para o texto citado, isto porque esta etnia é conhecida por Jacancas. Quanto a «Sarankulés», já tenho lido Saranculés e Seraculés. E ora aparece Papeles ora Papéis. Quando a preocupação, louvável, era escrever os nomes das etnias em português, não percebo porque optou o autor do texto por escrever «djakancos» e «sarankulés».

Verbo «faltar», de novo

Uma gramática ajudava

      «Os jogadores vão concentrar-se no Mar para os habituais exames médicos, numa altura em que ainda faltam acertar algumas aquisições para fechar o plantel.» «Fernando Oliveira, líder da Comissão de Gestão, confirmou ontem que, apesar de faltar dois ou três jogadores, o plantel está quase fechado.» É verdade que os erros se encontravam em páginas diferentes, em textos escritos por dois jornalistas, mas eu estava lá e impedi o desastre. Não vejo a dificuldade. Vejo é que não aprenderam nem provavelmente irão aprender.

O uso de estrangeirismos

Adivinhem

      «Este [o debate nos meios de comunicação social nos Estados Unidos] encontra-se quase completamente ocupado por políticos e por pundits como Bill O’Reilly, Keith Olbermann e Sean Hannity, estes últimos cumprindo a função de comentadores supostamente informados mas, na prática, fazendo parte de um sistema de produção de opiniões cada vez mais politizado e partidarizado, e cuja relação com alguns factos básicos conhecidos sobre a vida política é, no mínimo, problemática» («Os politólogos», Pedro Magalhães, Público, 29.06.2009, p. 29). Nesta última crónica para o Público, Pedro Magalhães usou duas vezes o termo inglês pundit sem nunca explicar do que se tratava. Claro que, não sendo jornalista, não tem a mesma gravidade, mas as consequências para leitor são as mesmas — não compreenderá do que se trata. Pundit é o nosso «pândita», mas noutra acepção que desconhecemos, a de «analista».

Actualização em 14.08.2009

      «Clinicians, pundits and researchers all like to say things like ‘There is a need for more research,’ because it sounds forward-thinking and open-minded» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 57). «Tanto os clínicos como os peritos e os investigadores fazem afirmações do género: «É necessária mais investigação», porque transmite uma ideia de visão do futuro e abertura de espírito» (Ciência da Treta, Ben Goldacre. Tradução de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2009, p. 76).

Ortografia: «superior-geral»

Analogia


      «Apesar de ter agradecido ao Papa o levantamento da excomunhão, Bernard Fellay, superior-geral da Fraternidade [São Pio X], reafirmou as suas reservas quanto à doutrina saída do Concílio Vaticano II» («Integristas desafiam Vaticano», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 27). Sim, superior-geral escreve-se, à semelhança de director-geral, por exemplo, com hífen, embora poucas vezes se veja assim grafado. A língua é muito complexa e dificilmente se conseguirá uniformizá-la, ainda mais no que diz respeito à ortografia. Não é de ontem que o Diário de Notícias grafa assim a palavra: «A 35.ª Congregação Geral da Companhia de Jesus elegeu ontem, em Roma, o espanhol Adolfo Nicolás como novo superior-geral em substituição do padre Hans-Peter Kolvenbach. O padre espanhol, de 71 anos, torna-se o 29.º dirigente da ordem desde a sua fundação, em 1540, por Santo Inácio de Loyola» («Jesuítas elegem padre espanhol para novo superior-geral da ordem», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.01.2008).

«Quiquadrado»?

Qual delas?

      E a propósito de ler aqui num texto «cociente» em vez de «quociente», que prefiro por estar perto do presumível étimo latino: escreve-se qui-quadrado, qui quadrado ou quiquadrado? Em inglês escreve-se chi-square. Se é a mera leitura de X ao quadrado, sim, deveria escrever-se «qui quadrado». Qui é o nome da vigésima segunda letra do alfabeto grego. Contudo, substantivado, creio que o mais correcto é quiquadrado. Há quem escreva chi, mas, pelo menos dicionarizado, é apenas o termo popular e familiar para abraço.

«Liberado»

Muito bem

      Já alguma vez ouviram um português de gema dizer que determinada mulher era sexualmente liberada? Pois não, só um brasileiro o diz. Contudo, a acepção faz-nos falta. Se consultarmos um qualquer dicionário, para o adjectivo «liberado» só encontramos o significado de título que já foi pago. Referido àquele que se libertou de certas convenções sociais e morais seguidas pela maioria, é acepção que nem como brasileirismo aparece referida. Como fazemos: optamos por «libertada»? «Livre»? E será o mesmo? Eis que vejo numa tradução portuguesa, de Fernanda Pinto Rodrigues, a acepção brasileira: «Não é uma semiadolescente, não é desleixada e desgrenhada, não é uma rapariga liberada, digamos» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 12).

«V2»

Como um foguete

      Durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães lançaram V2 sobre Londres. Atingiam velocidades supersónicas ou ultra-sónicas: mais de cinco vezes a velocidade do som. As pessoas só as ouviam quando já tinham atingido o solo. Mas as V2 eram o quê? Em inglês, diz-se rocket. Numa tradução, vejo vertido por foguetão, mas, ao ouvir este vocábulo, mais depressa me ocorre a imagem de um veículo utilizado para transportar satélites artificiais e lançá-los em determinada órbita e para exploração do espaço cósmico do que a de uma arma de deflagração que se projecta à distância. Mas também tenho visto as V2 referidas como foguetes, pois um «foguete» é também um projéctil autopropulsionado. Finalmente, tenho lido igualmente que a V2 é um míssil, pois este é um «projéctil equipado com dispositivo motopropulsor, autoguiado, teleguiado ou não guiado, que pode atingir velocidades supersónicas e alcançar distâncias da ordem dos milhares de quilómetros e é geralmente usado como arma, para atingir um alvo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). O que acham os meus leitores?

Ferramentas (V)


Ferramentas de carpinteiro     


      Pela quinta semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: formão, bedame, goiva, armilheiro, enxó (e não «enchó», que é o mesmo que «ichó», uma armadilha para caçar perdizes e coelhos, do latim ostiolu-, «portinha». Como sucedeu com tantos termos latinos, como plumbu, que deu «prumo» e «chumbo», este deu origem a dois vocábulos em português [é o que se chama formas divergentes ou alotrópicas], uma forma popular, enchó, e um cultismo, ostíolo, que é a designação em Biologia de certos orifícios em órgãos vegetais e animais, como nos conceptáculos das algas, nos esporângios, nos estomas, etc.), raspador, enxó de rabo, nível, prumo, corta-mão, escantilhão e metro de madeira. Passemos, como é habitual, à definição dos mais desconhecidos. Formão: utensílio utilizado por carpinteiros e ferradores, geralmente de forma rectangular, com uma lâmina larga e achatada com gume numa das extremidades e cabo na outra (chisel, em inglês). Bedame (do francês bec-d’âne): formão comprido e estreito, de secção quadrada, para abrir encaixes na madeira (mortise-chisel, em inglês). Goiva: espécie de formão com lâmina em meia-cana, utilizada em carpintaria, escultura, etc., para abrir sulcos na madeira (gouge, em inglês). Há dois tipos de goivas: a de releixo por fora, que apresenta o fio no lado exterior ou convexo, também chamada goiva de releixo; a de releixo por dentro, a que o apresenta do lado interior ou côncavo, também chamada goiva de enxovar. Armilheiro: formão pequeno e estreito, usado para abrir as fendas estreitas em que se alojam as fichas de armilhar. Enxó: utensílio de carpinteiro para desbastar peças grossas de madeira (adze, em inglês). Corta-mão é o mesmo que esquadro (carpenter’s rule or square, em inglês). O escantilhão é um utensílio que serve de molde em certos géneros de desenho.

Arquivo do blogue