Sobre «sondagem»

Sondemos

      O que é que um técnico de sondagens (pollster, em inglês) faz? Sim, faz sondagens, que é um método de investigação que consiste na recolha de dados parciais, o universo considerado, que permitam obter um resultado representativo do assunto em análise. Mas o verbo? Um vereador vereia, um presidente preside, um secretário secretaria, um crítico critica, um revisor revê, um tradutor traduz, um médico medica (e engana-se nos diagnósticos, incapaz de interpretar, por falta de formação, as probabilidades), um enfermeiro não enferma, um professor não professa… Estão a ver? Em sentido figurado, sondar (do termo latino hipotético subundare [de sub, «sob» e unda, «onda»], «mergulhar». E hipotético porque não está registado. Para dizerem o mesmo, os Romanos usavam o verbo tentare) é procurar conhecer a opinião de alguém, e foi a partir deste sentido que se formou o substantivo. Este verbo tem outros sentidos figurados. Se eu disser que sondei o meu sogro para ver se ele me dá dinheiro para eu comprar um BMW X3, sondar já significa tactear, procurar saber com cautela.

Léxico: «mosca»


Mosca bilingue     


      Como é que se chama àquele ponto central do alvo? Muitos leitores, aposto, dir-me-ão: «Em inglês é bull’s-eye.» Sim, pois, eu sei que the small central circle on a target tem esse nome, mas em português? É mosca. Mosca simples o ponto central e mosca dupla o círculo em redor daquele. Parece que até em sentido técnico-militar é assim que se designa. Decerto que já ouviram ou usaram a expressão acertar na mosca. É desta mosca que se trata. Ah, pensavam que a expressão vinha do francês… Talvez. Acertar na mouche, dizem os nossos compatriotas mais poliglotas. Faire mouche, dizem os Franceses. Sim, porque mouche é, também, o «petit cercle noir placé au centre d’une cible que l’on vise dans un tir au pistolet ou au fuzil».

Léxico: «umami»

O quinto gosto

      Kikunae Ikeda (1864–1936), professor na Universidade Imperial de Tóquio, descobriu-o em 1908 e só ontem eu o soube, e por acaso. Mas trocava eu a ignorância por uma cirrose? Nem tanto. Grave era se fosse crítico de vinhos (Helder Guégués, wine critic) e desconhecesse que aquele japonês tinha dado o nome de umami ao quinto gosto básico, além dos já conhecidos ácido, amargo, doce e salgado. É verdade, os críticos de vinhos, como os provadores de vinho (Helder Guégués, wine taster), usam aqueles cuspidores, mas a tentação é grande.

Tradução do inglês

O bar do bar     


      Na quinta-feira à noite, dei uma olhadela distraída ao canal Hollywood. Estava a passar o filme Albino Alligator, com Faye Dunaway, Matt Dillon e outros. Conta a história de três foragidos que se escondem num bar depois de uma tentativa de roubo. Dova (Matt Dillon), e foi nesta altura que comecei a ver, pede a Dino (M. Emmet Walsh), o dono do bar, que lhe ponha não sei quê em cima do «bar». Quer dizer, do «bar» foi o que o tradutor escreveu e a personagem disse. Só que, em inglês, bar é não apenas (entre muitas outras acepções, que agora não vêm ao caso) «a place where especially alcoholic drinks are sold and drunk», mas também «a straight piece (as of wood or metal) that is longer than it is wide and has any of various uses (as for a lever, support, barrier, or fastening», isto é, um balcão. Diagnóstico: irreflexão, precipitação do tradutor. Como muitos dicionários bilingues inglês-português no verbete «bar» não registam a acepção de «balcão» ou esta não aparece em primeiro lugar, o tradutor resolve a dificuldade desta maneira.

Ortografia: «pistola-radar»

Dispara mas não mata


      Se se escreve, e bem, pistola-metralhadora, também se deverá escrever pistola-radar (tradução do inglês radar gun), pois o raciocínio que nos leva a usar o hífen no primeiro vocábulo é o mesmo que nos deverá levar a usá-lo no segundo. Afinal, esta pistola não dispara projécteis, não é uma arma de fogo, é antes um radar portátil em forma de pistola. Não simplesmente um radar portátil, pois este é, em inglês, mobile radar. «Três aventureiros polares britânicos vão começar este mês uma caminhada de mil quilómetros até ao Pólo Norte com um radar portátil experimental a fim de medir, com rigor, o ritmo do degelo no oceano Árctico, foi hoje revelado» («Três britânicos vão percorrer mil quilómetros até ao Pólo Norte para medir o degelo do Árctico», Público, 12.02.2009). «They were taking measurements of sea-ice thickness — primarily from drilling following the failure of a mobile radar unit — in a bid to help scientists better understand the changes taking place at the highest latitudes» («Arctic diary: Explorers’ ice quest», David Shukman, BBC News, 14.05.2009).

Tradução de «background»

Música em… diz!

      «(Sounds odd unless, like me, you’ve had the experience of staying up all night grading a tall stack of papers with Star Trek reruns playing in the background to break the monotony.)» Assim justifica o autor, que hoje não posso revelar quem é, e isto não é um jogo, que outro professor tivesse atribuído a dois trabalhos escolares exactamente iguais, porque copiados, duas notas diferentes: a um 79, ao outro, 90. Só me pergunto é como é que alguns consultores do Ciberdúvidas traduziriam aquele background. Agora estão de férias.

Escala de avaliação

Escala AE

Não sei se é a primeira vez, mas reparei que as notas das provas de aferição deste ano estão numa escala de A a E. Numa pauta de classificações que tenho à minha frente, leio: «Observações: A=Muito Bom, B=Bom, C=Satisfaz, D=Não Satisfaz, E=Não Satisfaz». E a que corresponde cada um dos níveis? Quais os intervalos? Os professores correctores saberão, naturalmente, mas não os pais nem, a avaliar pelo que ouvi, os restantes professores. E, este é o cerne da questão, isto não é macaquear a escala de avaliação escolar norte-americana? Pelo menos em relação aos EUA, sabemos que os níveis de classificação nas escolas são os seguintes: A (90-100), B (80-89), C (70-79), D (60-69), F (menos de 60). Caro Telmo Bértolo, ajude-nos.

«Skiff»? «Esquife»!

O esquife da língua

«A skiff com oito piratas da Somália que ontem tentou atacar o navio de Singapura, chegando a disparar para a ponte do navio, já tinha sido registada pela Corte-Real» («Fragata acaba missão a impedir ataque pirata», João Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 23.06.2009, p. 9). Só um lamentável desconhecimento da língua portuguesa pode explicar que um jornalista escreva, sem explicar, «skiff» em vez de «esquife». A língua inglesa terá recebido a palavra do francês — e nós também. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha define esquife como uma embarcação pequena, semelhante à baleeira. (Talvez o nosso leitor Paulo Araujo nos possa explicar se é assim.) Vejam como o Estadão escreve: «O tenente comandante da Otan Alexandre Fernandes afirmou que o petroleiro norueguês MV Kition solicitou ajuda por rádio na tarde de sexta-feira depois que um esquife cheio de piratas armados com rifles e granadas se aproximou» («Forças da Otan evitam ataque a petroleiro norueguês», Alison Bevege, Estadão, 2.05.2009). Na legenda de uma imagem que ilustrava o artigo, lia-se também a variante Côrte-Real. No sítio da Marinha, contudo, lê-se sempre Corte-Real. A anteceder o nome dos navios da Marinha, está sempre a abreviatura N. R. P., que não é de nosso reverendo padre, mas de Navio da República Portuguesa, como a anteceder o nome dos navios da Marinha inglesa está a abreviatura HMS. A propósito, os Brasileiros têm um Dicionário de Formas de Tratamento, da autoria de Luiz Gonzaga Paul, publicado pela AGE em 2008.

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