«Liberado»

Muito bem

      Já alguma vez ouviram um português de gema dizer que determinada mulher era sexualmente liberada? Pois não, só um brasileiro o diz. Contudo, a acepção faz-nos falta. Se consultarmos um qualquer dicionário, para o adjectivo «liberado» só encontramos o significado de título que já foi pago. Referido àquele que se libertou de certas convenções sociais e morais seguidas pela maioria, é acepção que nem como brasileirismo aparece referida. Como fazemos: optamos por «libertada»? «Livre»? E será o mesmo? Eis que vejo numa tradução portuguesa, de Fernanda Pinto Rodrigues, a acepção brasileira: «Não é uma semiadolescente, não é desleixada e desgrenhada, não é uma rapariga liberada, digamos» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 12).

«V2»

Como um foguete

      Durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães lançaram V2 sobre Londres. Atingiam velocidades supersónicas ou ultra-sónicas: mais de cinco vezes a velocidade do som. As pessoas só as ouviam quando já tinham atingido o solo. Mas as V2 eram o quê? Em inglês, diz-se rocket. Numa tradução, vejo vertido por foguetão, mas, ao ouvir este vocábulo, mais depressa me ocorre a imagem de um veículo utilizado para transportar satélites artificiais e lançá-los em determinada órbita e para exploração do espaço cósmico do que a de uma arma de deflagração que se projecta à distância. Mas também tenho visto as V2 referidas como foguetes, pois um «foguete» é também um projéctil autopropulsionado. Finalmente, tenho lido igualmente que a V2 é um míssil, pois este é um «projéctil equipado com dispositivo motopropulsor, autoguiado, teleguiado ou não guiado, que pode atingir velocidades supersónicas e alcançar distâncias da ordem dos milhares de quilómetros e é geralmente usado como arma, para atingir um alvo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). O que acham os meus leitores?

Ferramentas (V)


Ferramentas de carpinteiro     


      Pela quinta semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: formão, bedame, goiva, armilheiro, enxó (e não «enchó», que é o mesmo que «ichó», uma armadilha para caçar perdizes e coelhos, do latim ostiolu-, «portinha». Como sucedeu com tantos termos latinos, como plumbu, que deu «prumo» e «chumbo», este deu origem a dois vocábulos em português [é o que se chama formas divergentes ou alotrópicas], uma forma popular, enchó, e um cultismo, ostíolo, que é a designação em Biologia de certos orifícios em órgãos vegetais e animais, como nos conceptáculos das algas, nos esporângios, nos estomas, etc.), raspador, enxó de rabo, nível, prumo, corta-mão, escantilhão e metro de madeira. Passemos, como é habitual, à definição dos mais desconhecidos. Formão: utensílio utilizado por carpinteiros e ferradores, geralmente de forma rectangular, com uma lâmina larga e achatada com gume numa das extremidades e cabo na outra (chisel, em inglês). Bedame (do francês bec-d’âne): formão comprido e estreito, de secção quadrada, para abrir encaixes na madeira (mortise-chisel, em inglês). Goiva: espécie de formão com lâmina em meia-cana, utilizada em carpintaria, escultura, etc., para abrir sulcos na madeira (gouge, em inglês). Há dois tipos de goivas: a de releixo por fora, que apresenta o fio no lado exterior ou convexo, também chamada goiva de releixo; a de releixo por dentro, a que o apresenta do lado interior ou côncavo, também chamada goiva de enxovar. Armilheiro: formão pequeno e estreito, usado para abrir as fendas estreitas em que se alojam as fichas de armilhar. Enxó: utensílio de carpinteiro para desbastar peças grossas de madeira (adze, em inglês). Corta-mão é o mesmo que esquadro (carpenter’s rule or square, em inglês). O escantilhão é um utensílio que serve de molde em certos géneros de desenho.

Sobre «sondagem»

Sondemos

      O que é que um técnico de sondagens (pollster, em inglês) faz? Sim, faz sondagens, que é um método de investigação que consiste na recolha de dados parciais, o universo considerado, que permitam obter um resultado representativo do assunto em análise. Mas o verbo? Um vereador vereia, um presidente preside, um secretário secretaria, um crítico critica, um revisor revê, um tradutor traduz, um médico medica (e engana-se nos diagnósticos, incapaz de interpretar, por falta de formação, as probabilidades), um enfermeiro não enferma, um professor não professa… Estão a ver? Em sentido figurado, sondar (do termo latino hipotético subundare [de sub, «sob» e unda, «onda»], «mergulhar». E hipotético porque não está registado. Para dizerem o mesmo, os Romanos usavam o verbo tentare) é procurar conhecer a opinião de alguém, e foi a partir deste sentido que se formou o substantivo. Este verbo tem outros sentidos figurados. Se eu disser que sondei o meu sogro para ver se ele me dá dinheiro para eu comprar um BMW X3, sondar já significa tactear, procurar saber com cautela.

Léxico: «mosca»


Mosca bilingue     


      Como é que se chama àquele ponto central do alvo? Muitos leitores, aposto, dir-me-ão: «Em inglês é bull’s-eye.» Sim, pois, eu sei que the small central circle on a target tem esse nome, mas em português? É mosca. Mosca simples o ponto central e mosca dupla o círculo em redor daquele. Parece que até em sentido técnico-militar é assim que se designa. Decerto que já ouviram ou usaram a expressão acertar na mosca. É desta mosca que se trata. Ah, pensavam que a expressão vinha do francês… Talvez. Acertar na mouche, dizem os nossos compatriotas mais poliglotas. Faire mouche, dizem os Franceses. Sim, porque mouche é, também, o «petit cercle noir placé au centre d’une cible que l’on vise dans un tir au pistolet ou au fuzil».

Léxico: «umami»

O quinto gosto

      Kikunae Ikeda (1864–1936), professor na Universidade Imperial de Tóquio, descobriu-o em 1908 e só ontem eu o soube, e por acaso. Mas trocava eu a ignorância por uma cirrose? Nem tanto. Grave era se fosse crítico de vinhos (Helder Guégués, wine critic) e desconhecesse que aquele japonês tinha dado o nome de umami ao quinto gosto básico, além dos já conhecidos ácido, amargo, doce e salgado. É verdade, os críticos de vinhos, como os provadores de vinho (Helder Guégués, wine taster), usam aqueles cuspidores, mas a tentação é grande.

Tradução do inglês

O bar do bar     


      Na quinta-feira à noite, dei uma olhadela distraída ao canal Hollywood. Estava a passar o filme Albino Alligator, com Faye Dunaway, Matt Dillon e outros. Conta a história de três foragidos que se escondem num bar depois de uma tentativa de roubo. Dova (Matt Dillon), e foi nesta altura que comecei a ver, pede a Dino (M. Emmet Walsh), o dono do bar, que lhe ponha não sei quê em cima do «bar». Quer dizer, do «bar» foi o que o tradutor escreveu e a personagem disse. Só que, em inglês, bar é não apenas (entre muitas outras acepções, que agora não vêm ao caso) «a place where especially alcoholic drinks are sold and drunk», mas também «a straight piece (as of wood or metal) that is longer than it is wide and has any of various uses (as for a lever, support, barrier, or fastening», isto é, um balcão. Diagnóstico: irreflexão, precipitação do tradutor. Como muitos dicionários bilingues inglês-português no verbete «bar» não registam a acepção de «balcão» ou esta não aparece em primeiro lugar, o tradutor resolve a dificuldade desta maneira.

Ortografia: «pistola-radar»

Dispara mas não mata


      Se se escreve, e bem, pistola-metralhadora, também se deverá escrever pistola-radar (tradução do inglês radar gun), pois o raciocínio que nos leva a usar o hífen no primeiro vocábulo é o mesmo que nos deverá levar a usá-lo no segundo. Afinal, esta pistola não dispara projécteis, não é uma arma de fogo, é antes um radar portátil em forma de pistola. Não simplesmente um radar portátil, pois este é, em inglês, mobile radar. «Três aventureiros polares britânicos vão começar este mês uma caminhada de mil quilómetros até ao Pólo Norte com um radar portátil experimental a fim de medir, com rigor, o ritmo do degelo no oceano Árctico, foi hoje revelado» («Três britânicos vão percorrer mil quilómetros até ao Pólo Norte para medir o degelo do Árctico», Público, 12.02.2009). «They were taking measurements of sea-ice thickness — primarily from drilling following the failure of a mobile radar unit — in a bid to help scientists better understand the changes taking place at the highest latitudes» («Arctic diary: Explorers’ ice quest», David Shukman, BBC News, 14.05.2009).

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