Anglicismo sintáctico

À flor da pele

«As gueixas debruçavam-se das janelas e das varandas, as compridas mangas de seda flutuando como bandeiras vermelhas e roxas» (Madame Sadayakko, Lesley Downer. Tradução de Maria José Figueiredo e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Bertrand Editora, 2004, p. 292). Isto é português? Bem, não exactamente. Na segunda oração, com o verbo no gerúndio, a sintaxe inglesa, com o sujeito em posição pré-verbal, está lá toda, mal disfarçada. Nesta obra concretamente, os exemplos são mais que muitos (mas podia apontar exemplos de dezenas de traduções): «A zona era atravessada por avenidas, percorridas por centenas de riquexós que se deslocavam a alta velocidade, as rodas produzindo o ruído típico do metal enquanto os condutores berravam advertências aos transeuntes que se lhes atravessavam à frente» (p. 38). Os tradutores acham e os revisores aprovam, submissos. O que acha o Fernando?

Tradução de «fret»

Imagem: http://www.andrewshearman.com/

Don’t fret

Parece ter sido Blaise Pascal (1623–1662), quando especulava com uma ideia para uma máquina de movimento perpétuo, o inventor da roleta (em francês, roulette, «pequena roda»). O que me interessa agora é saber o nome que se dá à divisória entre cada uma das 36 casas, mais o 0 (e 00 na roleta americana), alternadamente vermelhas e pretas. Em inglês é fret, por causa, imagino, da semelhança com cada um dos filetes metálicos que, no braço dos instrumentos de corda, orientam a posição dos dedos. A estes filetes damos nós o nome de trastos, que vem do latim transtrum, «travessa; viga transversal; banco do remador» (de onde também poderá derivar o inglês thwart, «banco de remador; bancada de embarcação»). E na roleta?

Caracteres especiais


No Algarve!?


      A propósito desta notícia, alguns jornais afirmam que a residência do falecido realizador sueco era na ilha báltica de Faro. Noutros, entre os quais destaco o Público (P2, 23.06.2009, p. 8), desta vez cuidadoso, o nome da ilha aparece grafado correctamente: Fårö. Quando, a propósito do nome do futebolista Nemanja Vidić, aqui publiquei um texto em que defendia o uso dos caracteres originais, um ignorante furibundo deixou-me um comentário virulento e insultuoso em que dizia que só um ignorante — no caso, eu — não tinha noção de que nos jornais era impossível grafar os nomes, topónimos ou antropónimos, da forma original. Pois, pois… As letras å e ö são, no alfabeto sueco, vogais, a par de a, e, i, o, u, y e ä. Logo, o sinal que encima o carácter não é um diacrítico, mas uma espécie de ligatura, até porque, historicamente, å veio a determinada altura substituir aa.

Quem faz estatísticas

Profissão?...

Não, não: ao indivíduo que se ocupa de trabalhos estatísticos não se dá o nome de especialista em estatística. Ou dará? Para espanto meu, dizem-se, pelo menos alguns, estaticistas e outros, estatísticos. E estaticista é, há ainda esse risco, quase parónimo de esteticista… O Dicionário Houaiss não regista «estaticista», mas estatista. Em inglês, é statistician; em francês, statisticien; em espanhol, estadístico. Prefiro a forma «estatista», por ser um substantivo comum de dois (o/a estatista) e ser mais curto.

«Auto-recreação», outra vez

Como disse?


      Maria Flor Pedroso esteve a entrevistar Tavares Moreira, antigo governador do Banco de Portugal e antigo secretário de Estado de Miguel Cadilhe, na Antena 1. O motivo, julgo, pois não ouvi desde o início, é a publicação de um livro, Processo Indecente, em que conta que o processo judicial de que foi alvo visava impedir que fosse nomeado para a Caixa Geral de Depósitos, no tempo de Durão Barroso. Às tantas, disse que qualquer coisa tinha sido feita por «auto-recreação». Já vimos aqui esse erro. Também disse, em relação a certa matéria, que não tinha sido «nem ouvido nem achado», o que parece ser a recriação de «nem visto nem achado».

Léxico: «bomba-lapa»

Sua lapa

«A explosão de uma bomba-lapa com cerca de dois quilos de explosivos, colocada junto ao depósito de gasolina, incendiou o carro e propagou as chamas a outros quatro veículos» («Polícia em chamas no seu carro destruído pela ETA gritou “tirem-me daqui”», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2009, p. 16). Em inglês diz-se limpet mine. Limpet traduz-se por lapa, o molusco gastrópode de concha univalve. Em sentido figurado, limpet designa o funcionário público agarrado ao seu lugar. «Chief Inspector Eduardo Puelles García died instantly when a limpet mine attached to his car exploded at 9.05am. The attack took place in car park near his home in Arrigarriga, near Bilbao» («Eta kills Bilbao anti-terror chief Eduardo Puelles García in car bomb attack», Graham Keeley, The Times, 19.06.2009).
Em francês diz-se bombe ventouse. «L’explosion “semble avoir été provoquée par une bombe ventouse fixée sous le véhicule, une méthode souvent employée par l’organisation clandestine pour ses attentats meurtriers, selon cette source [Paxti López, chefe do governo autónomo do País Basco]» («Un policier tué dans un attentat au Pays Basque», Libération, 19.06.2009).

Género de siglas

No… na… hum…

«Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NPR a fazer a crítica de livros e me viram no Thirteen a falar de cultura» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 11). Uma chamada de nota à sigla NPR explica: «National Public Radio. (N. da T.)» Sendo assim, deveria ser «na NPR», como vimos aqui, matéria relacionada com estoutra. Mais à frente, lê-se: «Eu, seu professor de Crítica Prática, o esteta do PBS dos domingos de manhã, a autoridade reinante da televisão de Nova Iorque acerca do que há presentemente de melhor para ver, ouvir e ler — eu declarara-a uma grande obra de arte» (p. 3). Aqui, uma nota a PBS diz: «Public Broadcasting Service. (N. da T.

Sobre «marchante»

Marchand des quatre-saisons

O filho de David Kepesh, o protagonista de O Animal Moribundo, de Philip Roth (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva, p. 11), tem uma empresa de restauração de obras de arte. Diz-lhe o pai: «Conheces todos esses artistas. Conheces todos esses marchantes» (p. 76). Algo nos escapou. Mas a empresa não é de restauração de obras de arte? Nos dicionários que conheço, marchante é aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos. Já alguém me dirá que «neste caso nem é uma palavra nova, é uma apropriação natural de significante para um significado». Pois é, mas o problema nem é esse, mas o leitor desconhecer a intenção (nem todos somos leitores especializados, revisores ou professores universitários, não é?) do tradutor.
O galicismo marchand configura um caso muito interessante. Na língua francesa tem um sentido abrangente de «comerciante»; entre nós (e o mesmo se passa no âmbito do espanhol), usamo-lo para designar apenas o comerciante de obras de arte.

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