Caracteres especiais


No Algarve!?


      A propósito desta notícia, alguns jornais afirmam que a residência do falecido realizador sueco era na ilha báltica de Faro. Noutros, entre os quais destaco o Público (P2, 23.06.2009, p. 8), desta vez cuidadoso, o nome da ilha aparece grafado correctamente: Fårö. Quando, a propósito do nome do futebolista Nemanja Vidić, aqui publiquei um texto em que defendia o uso dos caracteres originais, um ignorante furibundo deixou-me um comentário virulento e insultuoso em que dizia que só um ignorante — no caso, eu — não tinha noção de que nos jornais era impossível grafar os nomes, topónimos ou antropónimos, da forma original. Pois, pois… As letras å e ö são, no alfabeto sueco, vogais, a par de a, e, i, o, u, y e ä. Logo, o sinal que encima o carácter não é um diacrítico, mas uma espécie de ligatura, até porque, historicamente, å veio a determinada altura substituir aa.

Quem faz estatísticas

Profissão?...

Não, não: ao indivíduo que se ocupa de trabalhos estatísticos não se dá o nome de especialista em estatística. Ou dará? Para espanto meu, dizem-se, pelo menos alguns, estaticistas e outros, estatísticos. E estaticista é, há ainda esse risco, quase parónimo de esteticista… O Dicionário Houaiss não regista «estaticista», mas estatista. Em inglês, é statistician; em francês, statisticien; em espanhol, estadístico. Prefiro a forma «estatista», por ser um substantivo comum de dois (o/a estatista) e ser mais curto.

«Auto-recreação», outra vez

Como disse?


      Maria Flor Pedroso esteve a entrevistar Tavares Moreira, antigo governador do Banco de Portugal e antigo secretário de Estado de Miguel Cadilhe, na Antena 1. O motivo, julgo, pois não ouvi desde o início, é a publicação de um livro, Processo Indecente, em que conta que o processo judicial de que foi alvo visava impedir que fosse nomeado para a Caixa Geral de Depósitos, no tempo de Durão Barroso. Às tantas, disse que qualquer coisa tinha sido feita por «auto-recreação». Já vimos aqui esse erro. Também disse, em relação a certa matéria, que não tinha sido «nem ouvido nem achado», o que parece ser a recriação de «nem visto nem achado».

Léxico: «bomba-lapa»

Sua lapa

«A explosão de uma bomba-lapa com cerca de dois quilos de explosivos, colocada junto ao depósito de gasolina, incendiou o carro e propagou as chamas a outros quatro veículos» («Polícia em chamas no seu carro destruído pela ETA gritou “tirem-me daqui”», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2009, p. 16). Em inglês diz-se limpet mine. Limpet traduz-se por lapa, o molusco gastrópode de concha univalve. Em sentido figurado, limpet designa o funcionário público agarrado ao seu lugar. «Chief Inspector Eduardo Puelles García died instantly when a limpet mine attached to his car exploded at 9.05am. The attack took place in car park near his home in Arrigarriga, near Bilbao» («Eta kills Bilbao anti-terror chief Eduardo Puelles García in car bomb attack», Graham Keeley, The Times, 19.06.2009).
Em francês diz-se bombe ventouse. «L’explosion “semble avoir été provoquée par une bombe ventouse fixée sous le véhicule, une méthode souvent employée par l’organisation clandestine pour ses attentats meurtriers, selon cette source [Paxti López, chefe do governo autónomo do País Basco]» («Un policier tué dans un attentat au Pays Basque», Libération, 19.06.2009).

Género de siglas

No… na… hum…

«Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NPR a fazer a crítica de livros e me viram no Thirteen a falar de cultura» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 11). Uma chamada de nota à sigla NPR explica: «National Public Radio. (N. da T.)» Sendo assim, deveria ser «na NPR», como vimos aqui, matéria relacionada com estoutra. Mais à frente, lê-se: «Eu, seu professor de Crítica Prática, o esteta do PBS dos domingos de manhã, a autoridade reinante da televisão de Nova Iorque acerca do que há presentemente de melhor para ver, ouvir e ler — eu declarara-a uma grande obra de arte» (p. 3). Aqui, uma nota a PBS diz: «Public Broadcasting Service. (N. da T.

Sobre «marchante»

Marchand des quatre-saisons

O filho de David Kepesh, o protagonista de O Animal Moribundo, de Philip Roth (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva, p. 11), tem uma empresa de restauração de obras de arte. Diz-lhe o pai: «Conheces todos esses artistas. Conheces todos esses marchantes» (p. 76). Algo nos escapou. Mas a empresa não é de restauração de obras de arte? Nos dicionários que conheço, marchante é aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos. Já alguém me dirá que «neste caso nem é uma palavra nova, é uma apropriação natural de significante para um significado». Pois é, mas o problema nem é esse, mas o leitor desconhecer a intenção (nem todos somos leitores especializados, revisores ou professores universitários, não é?) do tradutor.
O galicismo marchand configura um caso muito interessante. Na língua francesa tem um sentido abrangente de «comerciante»; entre nós (e o mesmo se passa no âmbito do espanhol), usamo-lo para designar apenas o comerciante de obras de arte.

Ortografia: «semiópera»

Semioculto, o erro

Tive de rever um textinho (ou textículo, se quiserem) em que se lia que Henry Purcell compôs «pelo menos meia centena de semi-óperas». Até em publicações da Fundação Calouste Gulbenkian, habitualmente cuidados, vejo o erro: «Henry Purcell deixou-nos um total de cinco semi-óperas: The Dioclesian (1690), The Fairy Queen (1692), The Tempest (ca. 1695), The Indian Queen (1695) e King Arthur (1691) a única com um libreto especificamente escrito para o efeito da autoria de John Dryden, já que as restantes quatro foram adaptações de peças já existentes» («A música como teatro», Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, 1998). Semioculto, semiobscuro, semioficioso…

Léxico: «flanelógrafo»

Imagem: http://3.bp.blogspot.com/

Na escola


«Para quem não se lembrar, o dito flanelógrafo consistia numa prosaica flanela onde as professoras colavam umas árvores, cães, casas, etc., tudo devidamente recortado em flanelas coloridas» («O flanelógrafo, o acetato e o Magalhães», Helena Matos, Público, 26.03.2009, p. 33). Bem, método pedagógico do passado, sim mas não é exactamente uma «prosaica flanela». É antes uma prancha rija, de cartão, cartolina, platex, corticite ou isopor, com um lado revestido de flanela ou feltro (chamando-se então feltrógrafo), habitualmente verde-escura ou preta, onde são aplicados elementos recortados em cartolina e com pequenos pedaços de lixa ou de velcro colados na parte posterior para garantir a aderência de figuras: árvores, cães, casas, etc.

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