Léxico: «bomba-lapa»

Sua lapa

«A explosão de uma bomba-lapa com cerca de dois quilos de explosivos, colocada junto ao depósito de gasolina, incendiou o carro e propagou as chamas a outros quatro veículos» («Polícia em chamas no seu carro destruído pela ETA gritou “tirem-me daqui”», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2009, p. 16). Em inglês diz-se limpet mine. Limpet traduz-se por lapa, o molusco gastrópode de concha univalve. Em sentido figurado, limpet designa o funcionário público agarrado ao seu lugar. «Chief Inspector Eduardo Puelles García died instantly when a limpet mine attached to his car exploded at 9.05am. The attack took place in car park near his home in Arrigarriga, near Bilbao» («Eta kills Bilbao anti-terror chief Eduardo Puelles García in car bomb attack», Graham Keeley, The Times, 19.06.2009).
Em francês diz-se bombe ventouse. «L’explosion “semble avoir été provoquée par une bombe ventouse fixée sous le véhicule, une méthode souvent employée par l’organisation clandestine pour ses attentats meurtriers, selon cette source [Paxti López, chefe do governo autónomo do País Basco]» («Un policier tué dans un attentat au Pays Basque», Libération, 19.06.2009).

Género de siglas

No… na… hum…

«Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NPR a fazer a crítica de livros e me viram no Thirteen a falar de cultura» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 11). Uma chamada de nota à sigla NPR explica: «National Public Radio. (N. da T.)» Sendo assim, deveria ser «na NPR», como vimos aqui, matéria relacionada com estoutra. Mais à frente, lê-se: «Eu, seu professor de Crítica Prática, o esteta do PBS dos domingos de manhã, a autoridade reinante da televisão de Nova Iorque acerca do que há presentemente de melhor para ver, ouvir e ler — eu declarara-a uma grande obra de arte» (p. 3). Aqui, uma nota a PBS diz: «Public Broadcasting Service. (N. da T.

Sobre «marchante»

Marchand des quatre-saisons

O filho de David Kepesh, o protagonista de O Animal Moribundo, de Philip Roth (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva, p. 11), tem uma empresa de restauração de obras de arte. Diz-lhe o pai: «Conheces todos esses artistas. Conheces todos esses marchantes» (p. 76). Algo nos escapou. Mas a empresa não é de restauração de obras de arte? Nos dicionários que conheço, marchante é aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos. Já alguém me dirá que «neste caso nem é uma palavra nova, é uma apropriação natural de significante para um significado». Pois é, mas o problema nem é esse, mas o leitor desconhecer a intenção (nem todos somos leitores especializados, revisores ou professores universitários, não é?) do tradutor.
O galicismo marchand configura um caso muito interessante. Na língua francesa tem um sentido abrangente de «comerciante»; entre nós (e o mesmo se passa no âmbito do espanhol), usamo-lo para designar apenas o comerciante de obras de arte.

Ortografia: «semiópera»

Semioculto, o erro

Tive de rever um textinho (ou textículo, se quiserem) em que se lia que Henry Purcell compôs «pelo menos meia centena de semi-óperas». Até em publicações da Fundação Calouste Gulbenkian, habitualmente cuidados, vejo o erro: «Henry Purcell deixou-nos um total de cinco semi-óperas: The Dioclesian (1690), The Fairy Queen (1692), The Tempest (ca. 1695), The Indian Queen (1695) e King Arthur (1691) a única com um libreto especificamente escrito para o efeito da autoria de John Dryden, já que as restantes quatro foram adaptações de peças já existentes» («A música como teatro», Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, 1998). Semioculto, semiobscuro, semioficioso…

Léxico: «flanelógrafo»

Imagem: http://3.bp.blogspot.com/

Na escola


«Para quem não se lembrar, o dito flanelógrafo consistia numa prosaica flanela onde as professoras colavam umas árvores, cães, casas, etc., tudo devidamente recortado em flanelas coloridas» («O flanelógrafo, o acetato e o Magalhães», Helena Matos, Público, 26.03.2009, p. 33). Bem, método pedagógico do passado, sim mas não é exactamente uma «prosaica flanela». É antes uma prancha rija, de cartão, cartolina, platex, corticite ou isopor, com um lado revestido de flanela ou feltro (chamando-se então feltrógrafo), habitualmente verde-escura ou preta, onde são aplicados elementos recortados em cartolina e com pequenos pedaços de lixa ou de velcro colados na parte posterior para garantir a aderência de figuras: árvores, cães, casas, etc.

Como se escreve nos jornais

Escrever com propriedade

«“Não tinha a noção do que estava a fazer”, afirmou Vítor Santos, que conseguiu votar em duas freguesias (uma do concelho da Batalha e outra de Leiria), porque possuía dois números de eleitor, um já antigo e um outro indexado ao novo Cartão do Cidadão» («Cidadão vota duas vezes», Diário de Notícias, 18.06.2009, p. 11). «Indexado»? Indexado é posto, registado num índice ou lista ordenada. Será o termo correcto? Escrever qualquer coisa que vem à cabeça não me parece lá muito judicioso.

«Tanatoprator»?

Ambiente ascético


      O Diário de Notícias entrevistou Nuno Coutinho, técnico de tanatopraxia na funerária Servilusa: «Eu não embalsamo corpos. Para ser preciso, sou um tanatoprator. Utilizo uma técnica muito parecida com um embalsamamento e mais generalizada. A diferença está nos líquidos que injectamos nos cadáveres. O tanatoprator utiliza líquidos mais fracos do que o técnico que faz os embalsamamentos» («“Será impossível disfarçar a decomposição dos corpos”», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 22.06.2009). Na página na Internet da Servilusa, lê-se, a propósito da tanatopraxia, isto: «Os tratamentos de Tanatopraxia permitem a difusão no conjunto dos tecidos de uma dose suficiente de um produto bactericida adaptado, cujo efeito é somente destruir as bactérias existentes, mas ainda estabelecer um ambiente ascético capaz de resistir a uma invasão microbiana.» Vejamos: os mais comuns dicionários já registam o termo quiropraxia, ao qual não fazem corresponder o adjectivo e nome masculino *quiroprator, mas quiroprático. Assim, a tanatopraxia só pode corresponder tanatoprático. O Dicionário Houaiss regista *tanatopráctico e tanatopráxico. A primeira forma, que aparece em dois verbetes, só pode ser lapso, pois regista, e bem, quiroprático.

Género de «SMS»

Nem pensar



      «E para que as clientes não esperem no exterior, a Pink Ladies envia um SMS a avisar que o táxi já chegou» («Táxis rosa contra agressões sexuais», Diário de Notícias, 6.4.2006, p. 24). «O homem terá então trocado mensagens sms com a vítima, que não conhecia, e em Dezembro de 2008 marcou um encontro em Lisboa, em que sujeitou o jovem “à prática de diversos actos sexuais”» («Seduziu através de ‘chat’ e violou rapaz de 14 anos», Diário de Notícias, 21.02.2009, p. 24). «Mas até ao fecho desta edição a pivô do Jornal Nacional 6.ª Feira e directora adjunta da TVI não atendeu os telefonemas nem respondeu à SMS enviada» («“Moura Guedes é um exemplo de péssimo jornalismo”», Tiago Guilherme, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 59).
      Primeiro do género masculino (considerado o correcto, por ser service o núcleo desta sigla inglesa), depois a adjunção do nome «mensagem» e, finalmente, a passagem ao género feminino, por suposta elisão do nome «mensagem». No meio, algo mais mudou: a sigla passou a ser, irregularmente, grafada em minúsculas.

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