Como se escreve nos jornais

Escrever com propriedade

«“Não tinha a noção do que estava a fazer”, afirmou Vítor Santos, que conseguiu votar em duas freguesias (uma do concelho da Batalha e outra de Leiria), porque possuía dois números de eleitor, um já antigo e um outro indexado ao novo Cartão do Cidadão» («Cidadão vota duas vezes», Diário de Notícias, 18.06.2009, p. 11). «Indexado»? Indexado é posto, registado num índice ou lista ordenada. Será o termo correcto? Escrever qualquer coisa que vem à cabeça não me parece lá muito judicioso.

«Tanatoprator»?

Ambiente ascético


      O Diário de Notícias entrevistou Nuno Coutinho, técnico de tanatopraxia na funerária Servilusa: «Eu não embalsamo corpos. Para ser preciso, sou um tanatoprator. Utilizo uma técnica muito parecida com um embalsamamento e mais generalizada. A diferença está nos líquidos que injectamos nos cadáveres. O tanatoprator utiliza líquidos mais fracos do que o técnico que faz os embalsamamentos» («“Será impossível disfarçar a decomposição dos corpos”», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 22.06.2009). Na página na Internet da Servilusa, lê-se, a propósito da tanatopraxia, isto: «Os tratamentos de Tanatopraxia permitem a difusão no conjunto dos tecidos de uma dose suficiente de um produto bactericida adaptado, cujo efeito é somente destruir as bactérias existentes, mas ainda estabelecer um ambiente ascético capaz de resistir a uma invasão microbiana.» Vejamos: os mais comuns dicionários já registam o termo quiropraxia, ao qual não fazem corresponder o adjectivo e nome masculino *quiroprator, mas quiroprático. Assim, a tanatopraxia só pode corresponder tanatoprático. O Dicionário Houaiss regista *tanatopráctico e tanatopráxico. A primeira forma, que aparece em dois verbetes, só pode ser lapso, pois regista, e bem, quiroprático.

Género de «SMS»

Nem pensar



      «E para que as clientes não esperem no exterior, a Pink Ladies envia um SMS a avisar que o táxi já chegou» («Táxis rosa contra agressões sexuais», Diário de Notícias, 6.4.2006, p. 24). «O homem terá então trocado mensagens sms com a vítima, que não conhecia, e em Dezembro de 2008 marcou um encontro em Lisboa, em que sujeitou o jovem “à prática de diversos actos sexuais”» («Seduziu através de ‘chat’ e violou rapaz de 14 anos», Diário de Notícias, 21.02.2009, p. 24). «Mas até ao fecho desta edição a pivô do Jornal Nacional 6.ª Feira e directora adjunta da TVI não atendeu os telefonemas nem respondeu à SMS enviada» («“Moura Guedes é um exemplo de péssimo jornalismo”», Tiago Guilherme, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 59).
      Primeiro do género masculino (considerado o correcto, por ser service o núcleo desta sigla inglesa), depois a adjunção do nome «mensagem» e, finalmente, a passagem ao género feminino, por suposta elisão do nome «mensagem». No meio, algo mais mudou: a sigla passou a ser, irregularmente, grafada em minúsculas.

«Encomendar» e «pedir»

Are you ready to order?

«Com as pernas a tremer, dirigiram-se ao restaurante mais próximo, onde começaram a encomendar — bifes, caril, tudo aquilo com que haviam sonhado no decurso das últimas semanas» (Madame Sadayakko, Lesley Downer. Tradução de Maria José Figueiredo e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Bertrand Editora, 2004, p. 153). Fico sempre espantado quando vejo tradutores, e tradutores experientes, a encomendar pratos nos restaurantes. E os revisores, na euforia da companhia, fazem, inconscientemente, o mesmo. Lá por em inglês encomendar e pedir poderem ser expressos pelo mesmo verbo, to order, e order, como substantivo, poder ser traduzido por encomenda ou pedido, não quer dizer que seja tudo o mesmo.

Ortografia: «narcoestado»

Sem narcoanálise

      «O resvalar da antiga Guiné Portuguesa para o estatuto de Narcoestado fora admitida o mês passado pelo Departamento de Estado, em Washington» («Primeiro Narcoestado da África Ocidental terá cocaína a circular à média de mais de mil milhões de dólares por ano», Jorge Heitor, Público, 26.03.2009, p. 4). Sim, senhor: narcoestado escreve-se sem hífen, pois o antepositivo narc(o)- solda-se sempre ao elemento seguinte, excepto, naturalmente quando este começa por h, mas, mesmo nesse caso, podemos ter: narco-hipnose e narcoipnose. Já não me parece, caro Jorge Heitor, que precise de começar por maiúscula inicial. Veja este exemplo com outro antepositivo: «Os modelos seleccionados por Pazzi são todos padres católicos que transitam por Roma, mas não são necessariamente italianos: o padre de Fevereiro, por exemplo, é espanhol, de Saragoça, e na cidade que acolhe o microestado do Vaticano, o fotógrafo — que é de Veneza — apanha na sua objectiva sacerdotes de toda a Itália» («Um belo padre por mês», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 32). Escusado será dizer que o termo «narcoestado», cada vez mais usado nos meios de comunicação social, ainda não está dicionarizado.

Sobre «braille»

Iídiche e braile

«Traduzidos em praticamente todas as línguas e linguagens, incluindo o yidish, o latim, o esperanto, o Braille e o ITA (initial teaching alphabet), os dois livros de Milne e a sua desconcertante inocência linguística (nunca como em Winnie-the-Pooh se terá ido tão longe no uso retórico do erro ortográfico e da irrisão e dissolução verbais) constituem um reencontro melancólico e feliz com o distante mistério da infância e são hoje “clássicos” dos públicos adolescentes e adultos mais ainda, talvez, do que do público especificamente infantil» («F de falso», Manuel António Pina, Notícias Magazine, 31.05.2009, p. 98). Não se percebe (ou percebe, já vamos ver) porque é que o autor escrever Braille com maiúscula e o nome das restantes línguas em minúscula inicial. Há-de ter sido porque o sistema de escrita foi inventado pelo pedagogo francês Louis Braille (1809–1852). É claro que podia tê-la grafado em maiúscula inicial, se tivesse feito o mesmo com a designação das outras línguas. Como não o fez, correcto é braille ou mesmo braile. E é claro que prefiro a grafia aportuguesada iídiche.

Prefixo «re-»


O regresso do superomem




      Lembram-se de eu ter aqui perguntado, recentemente, porque é que, se se escreve «carboidrato», não se deveria poder escrever «superomem»? Óptimo, vejo que não se têm esquecido de tomar o Fosgluten. Voltei a pensar no caso depois de ter deparado com a palavra «reabitar». Ora, não é que o Regime de Apoio à Recuperação Habitacional em Áreas Urbanas Antigas (Decreto-Lei n.º 105/96, de 31 de Julho) é conhecido (mas vocês, quando vão pela rua, não olham para os andaimes, onde se vêem cartazes com os dizeres?) por REHABITA? A língua é pura convenção. Nuns casos, julga-se que escrever «superomem» iria mascarar os elementos constitutivos do vocábulo, e rejeita-se a grafia; noutros, já se acha que no verbo reabitar ninguém deixa de ver a habitação, e acolhe-se a grafia. Será mesmo assim?

«Epicentro» e «hipocentro»

Uma questão de sufixo e brio

      Na página da Internet do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), o Ministério da Educação corrigiu um erro que constava na prova de Biologia e Geologia realizada no dia 18, acrescentando a nota final: «Hipocentros e não epicentros como, por lapso, se refere na prova impressa.» Numa legenda a um perfil de uma caldeira vulcânica, designava-se como epicentro (região da superfície terrestre, por cima do hipocentro, onde é máxima a intensidade de um abalo sísmico e onde este atingiu em primeiro lugar a superfície do solo) o que de facto era o hipocentro (ponto do interior da crosta terrestre onde tem origem um sismo, foco sísmico). Concordo com o Prof. Carlos Fiolhais: «Devemos aplaudir quando um erro, qualquer que ele seja, é emendado.» Criticável é que o Ministério da Educação não contrate revisores para todos os documentos que redige e publica. Naturalmente que na prova impressa o erro permanecerá incorrigível. Contudo, a prova continuará a ser descarregada do sítio do GAVE.
      Num caso, o prefixo é epi- (que exprime a ideia de por cima de, sobre, fora de, por fora de), como em epitáfio e epiderme; no outro, o prefixo é hip(o)- (que exprime a ideia de debaixo, em posição inferior), como em hipoderme e hipoblasto.

Arquivo do blogue