«Encomendar» e «pedir»

Are you ready to order?

«Com as pernas a tremer, dirigiram-se ao restaurante mais próximo, onde começaram a encomendar — bifes, caril, tudo aquilo com que haviam sonhado no decurso das últimas semanas» (Madame Sadayakko, Lesley Downer. Tradução de Maria José Figueiredo e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Bertrand Editora, 2004, p. 153). Fico sempre espantado quando vejo tradutores, e tradutores experientes, a encomendar pratos nos restaurantes. E os revisores, na euforia da companhia, fazem, inconscientemente, o mesmo. Lá por em inglês encomendar e pedir poderem ser expressos pelo mesmo verbo, to order, e order, como substantivo, poder ser traduzido por encomenda ou pedido, não quer dizer que seja tudo o mesmo.

Ortografia: «narcoestado»

Sem narcoanálise

      «O resvalar da antiga Guiné Portuguesa para o estatuto de Narcoestado fora admitida o mês passado pelo Departamento de Estado, em Washington» («Primeiro Narcoestado da África Ocidental terá cocaína a circular à média de mais de mil milhões de dólares por ano», Jorge Heitor, Público, 26.03.2009, p. 4). Sim, senhor: narcoestado escreve-se sem hífen, pois o antepositivo narc(o)- solda-se sempre ao elemento seguinte, excepto, naturalmente quando este começa por h, mas, mesmo nesse caso, podemos ter: narco-hipnose e narcoipnose. Já não me parece, caro Jorge Heitor, que precise de começar por maiúscula inicial. Veja este exemplo com outro antepositivo: «Os modelos seleccionados por Pazzi são todos padres católicos que transitam por Roma, mas não são necessariamente italianos: o padre de Fevereiro, por exemplo, é espanhol, de Saragoça, e na cidade que acolhe o microestado do Vaticano, o fotógrafo — que é de Veneza — apanha na sua objectiva sacerdotes de toda a Itália» («Um belo padre por mês», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 32). Escusado será dizer que o termo «narcoestado», cada vez mais usado nos meios de comunicação social, ainda não está dicionarizado.

Sobre «braille»

Iídiche e braile

«Traduzidos em praticamente todas as línguas e linguagens, incluindo o yidish, o latim, o esperanto, o Braille e o ITA (initial teaching alphabet), os dois livros de Milne e a sua desconcertante inocência linguística (nunca como em Winnie-the-Pooh se terá ido tão longe no uso retórico do erro ortográfico e da irrisão e dissolução verbais) constituem um reencontro melancólico e feliz com o distante mistério da infância e são hoje “clássicos” dos públicos adolescentes e adultos mais ainda, talvez, do que do público especificamente infantil» («F de falso», Manuel António Pina, Notícias Magazine, 31.05.2009, p. 98). Não se percebe (ou percebe, já vamos ver) porque é que o autor escrever Braille com maiúscula e o nome das restantes línguas em minúscula inicial. Há-de ter sido porque o sistema de escrita foi inventado pelo pedagogo francês Louis Braille (1809–1852). É claro que podia tê-la grafado em maiúscula inicial, se tivesse feito o mesmo com a designação das outras línguas. Como não o fez, correcto é braille ou mesmo braile. E é claro que prefiro a grafia aportuguesada iídiche.

Prefixo «re-»


O regresso do superomem




      Lembram-se de eu ter aqui perguntado, recentemente, porque é que, se se escreve «carboidrato», não se deveria poder escrever «superomem»? Óptimo, vejo que não se têm esquecido de tomar o Fosgluten. Voltei a pensar no caso depois de ter deparado com a palavra «reabitar». Ora, não é que o Regime de Apoio à Recuperação Habitacional em Áreas Urbanas Antigas (Decreto-Lei n.º 105/96, de 31 de Julho) é conhecido (mas vocês, quando vão pela rua, não olham para os andaimes, onde se vêem cartazes com os dizeres?) por REHABITA? A língua é pura convenção. Nuns casos, julga-se que escrever «superomem» iria mascarar os elementos constitutivos do vocábulo, e rejeita-se a grafia; noutros, já se acha que no verbo reabitar ninguém deixa de ver a habitação, e acolhe-se a grafia. Será mesmo assim?

«Epicentro» e «hipocentro»

Uma questão de sufixo e brio

      Na página da Internet do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), o Ministério da Educação corrigiu um erro que constava na prova de Biologia e Geologia realizada no dia 18, acrescentando a nota final: «Hipocentros e não epicentros como, por lapso, se refere na prova impressa.» Numa legenda a um perfil de uma caldeira vulcânica, designava-se como epicentro (região da superfície terrestre, por cima do hipocentro, onde é máxima a intensidade de um abalo sísmico e onde este atingiu em primeiro lugar a superfície do solo) o que de facto era o hipocentro (ponto do interior da crosta terrestre onde tem origem um sismo, foco sísmico). Concordo com o Prof. Carlos Fiolhais: «Devemos aplaudir quando um erro, qualquer que ele seja, é emendado.» Criticável é que o Ministério da Educação não contrate revisores para todos os documentos que redige e publica. Naturalmente que na prova impressa o erro permanecerá incorrigível. Contudo, a prova continuará a ser descarregada do sítio do GAVE.
      Num caso, o prefixo é epi- (que exprime a ideia de por cima de, sobre, fora de, por fora de), como em epitáfio e epiderme; no outro, o prefixo é hip(o)- (que exprime a ideia de debaixo, em posição inferior), como em hipoderme e hipoblasto.

Ferramentas (IV)


Ferramentas de carpinteiro

Pela quarta semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: esmeril, banco de carpinteiro, gigantes, rebolo, burra, gastalho, grampo, cinta, moço e pinça. Na página da direita, temos apenas ferramentas de aperto. Vamos, como é habitual, à definição dos mais desconhecidos. Gastalho: grampo usado especialmente pelos tanoeiros e marceneiros (cramp, em inglês), que consiste numa peça de madeira grossa e rija, com um cavado onde se introduzem as tábuas a colar a topo, etc., sendo o aperto dado por uma cunha. Para peças muito largas, o carpinteiro usa o sargento, que é uma prensa grande de madeira ou de ferro. Moço: instrumento com que os carpinteiros apertam peças largas. Burra ou cavalete de serrador: cavalete usado pelos serradores de madeira (sawstool, em inglês), constituído por um frechal longitudinal, apoiado em quatro pés. Destina-se à serragem de grossas vigas. Rebolo: pequena mó que gira em torno de um eixo e serve para amolar objectos cortantes (grindstone, em inglês). A mesa de trabalho do carpinteiro designa-se por banco (carpenter’s workbench, em inglês). É constituído por uma trave longitudinal, chamada frechal ou barra, fixa por meio de mechas a quatro pés ligados entre si por travessas e em geral revestidos de tabuado de modo a formar um pequeno armário onde o carpinteiro guarda ferramentas, papéis, etc. Os pés são inclinados a fim de aumentar a estabilidade do banco. A parte rebaixada, a todo o comprimento, do tampo é denominada caixa ou cacifo, e serve para guardar as diversas ferramentas. A superfície do banco tem vários furos quadrados, que se vêem na imagem, em que entram, por pressão, os prismas de madeira dura ou ferro a que se dá o nome de colchetes ou esperas, que se levantam mais ou menos segundo é preciso; servem para a eles se encostarem as tábuas ou outras peças a aplainar, por exemplo. Um dos elementos mais característicos do banco de carpinteiro é o cabeçote, que é uma peça móvel de madeira, que, por meio de parafuso e guias de ferro ou de madeira, permite apertar qualquer peça de madeira que se queira serrar, aplainar, etc.

«Ficcionalizar» existe?

Queremos dois?

Um leitor pergunta-me se ficcionalizar existe oficialmente. Por «oficialmente» entenda-se a sua dicionarização. Em nenhum dicionário encontrei este verbo. Era, aliás, uma questão à qual já tinha dedicado uns momentos de reflexão. Vem do inglês, isso é certo, fictionalize, mas nós já temos «ficcionar», que, curiosamente, nem todos (!) os dicionários registam. Mas é como o leitor escrevia: encontra-se em todo o lado, mas sobretudo em estudos literários e crítica literária. Quanto à formação no inglês, foi feita por uma das formas que também encontramos na língua portuguesa: a um adjectivo, fictional (ficcional) acrescentou-se o sufixo ize (izar). Em português, a formação de verbos em –izar é a mais frequente a partir de adjectivos e é usada sobretudo na terminologia formal, académica e técnica (agilizar, compatibilizar, consciencializar, disponibilizar, esterilizar, fertilizar, fidelizar, industrializar, minimizar, oficializar, poetizar, relativizar, sintetizar, urbanizar, visualizar…), como é o caso. Em conclusão, se não está ainda definitivamente legitimado pela inclusão nos dicionários gerais da língua, está todavia bem formado. Já tenho é dúvidas se nos fará falta. É relativo. Não nos chega apenas uma gravata? Mas temos duas ou dúzias. Assim, talvez possamos também ter e usar ficcionar e ficcionalizar.

Concordância quanto ao número

Paideia

«Começavam os miríficos anos 60 em que parecia que tudo acontecia. Staline tinha morrido em 1953 e dir-se-ia que o grande império soviético e a sua rigidez começava a dar de si» («Maio 68», Teresa Maria, Paideia-Educação, n.º 128, Abril/Maio/Junho/Julho/Agosto de 2009, p. 8). O sujeito é composto, logo, em rigor o verbo vai para o plural. Apenas no caso de os núcleos do sujeito serem sinónimos e estarem no singular é que o verbo poderá ficar no plural (concordância gramatical ou lógica) ou no singular (concordância estilística). Veja-se esta frase: «A propaganda do Reich e, em toda a parte, a propaganda dos colaboracionistas partiam desse postulado, com a aprovação entusiástica da direita continental» («As consequências de uma batalha», Vasco Pulido Valente, Público, 7.06.2009, p. 40). Em frases semelhantes, muitas vezes a concordância é feita no singular, o que se deverá atribuir ao facto de o sujeito se repetir. De qualquer modo, encontrei erros e gralhas (e a pontuação…) sem conta naquela revistinha, e tem apenas 24 páginas… É verdade que a directora tem 91 anos, mas ninguém espera que seja o director de uma publicação a velar pessoalmente por esses aspectos. Há-de (tem de) haver lá alguém. Neste caso, prescindiu-se dos serviços de um revisor. Talvez porque é editada por uma associação de professores, a Associação de Professores Católicos.

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