Prefixo «re-»


O regresso do superomem




      Lembram-se de eu ter aqui perguntado, recentemente, porque é que, se se escreve «carboidrato», não se deveria poder escrever «superomem»? Óptimo, vejo que não se têm esquecido de tomar o Fosgluten. Voltei a pensar no caso depois de ter deparado com a palavra «reabitar». Ora, não é que o Regime de Apoio à Recuperação Habitacional em Áreas Urbanas Antigas (Decreto-Lei n.º 105/96, de 31 de Julho) é conhecido (mas vocês, quando vão pela rua, não olham para os andaimes, onde se vêem cartazes com os dizeres?) por REHABITA? A língua é pura convenção. Nuns casos, julga-se que escrever «superomem» iria mascarar os elementos constitutivos do vocábulo, e rejeita-se a grafia; noutros, já se acha que no verbo reabitar ninguém deixa de ver a habitação, e acolhe-se a grafia. Será mesmo assim?

«Epicentro» e «hipocentro»

Uma questão de sufixo e brio

      Na página da Internet do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), o Ministério da Educação corrigiu um erro que constava na prova de Biologia e Geologia realizada no dia 18, acrescentando a nota final: «Hipocentros e não epicentros como, por lapso, se refere na prova impressa.» Numa legenda a um perfil de uma caldeira vulcânica, designava-se como epicentro (região da superfície terrestre, por cima do hipocentro, onde é máxima a intensidade de um abalo sísmico e onde este atingiu em primeiro lugar a superfície do solo) o que de facto era o hipocentro (ponto do interior da crosta terrestre onde tem origem um sismo, foco sísmico). Concordo com o Prof. Carlos Fiolhais: «Devemos aplaudir quando um erro, qualquer que ele seja, é emendado.» Criticável é que o Ministério da Educação não contrate revisores para todos os documentos que redige e publica. Naturalmente que na prova impressa o erro permanecerá incorrigível. Contudo, a prova continuará a ser descarregada do sítio do GAVE.
      Num caso, o prefixo é epi- (que exprime a ideia de por cima de, sobre, fora de, por fora de), como em epitáfio e epiderme; no outro, o prefixo é hip(o)- (que exprime a ideia de debaixo, em posição inferior), como em hipoderme e hipoblasto.

Ferramentas (IV)


Ferramentas de carpinteiro

Pela quarta semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: esmeril, banco de carpinteiro, gigantes, rebolo, burra, gastalho, grampo, cinta, moço e pinça. Na página da direita, temos apenas ferramentas de aperto. Vamos, como é habitual, à definição dos mais desconhecidos. Gastalho: grampo usado especialmente pelos tanoeiros e marceneiros (cramp, em inglês), que consiste numa peça de madeira grossa e rija, com um cavado onde se introduzem as tábuas a colar a topo, etc., sendo o aperto dado por uma cunha. Para peças muito largas, o carpinteiro usa o sargento, que é uma prensa grande de madeira ou de ferro. Moço: instrumento com que os carpinteiros apertam peças largas. Burra ou cavalete de serrador: cavalete usado pelos serradores de madeira (sawstool, em inglês), constituído por um frechal longitudinal, apoiado em quatro pés. Destina-se à serragem de grossas vigas. Rebolo: pequena mó que gira em torno de um eixo e serve para amolar objectos cortantes (grindstone, em inglês). A mesa de trabalho do carpinteiro designa-se por banco (carpenter’s workbench, em inglês). É constituído por uma trave longitudinal, chamada frechal ou barra, fixa por meio de mechas a quatro pés ligados entre si por travessas e em geral revestidos de tabuado de modo a formar um pequeno armário onde o carpinteiro guarda ferramentas, papéis, etc. Os pés são inclinados a fim de aumentar a estabilidade do banco. A parte rebaixada, a todo o comprimento, do tampo é denominada caixa ou cacifo, e serve para guardar as diversas ferramentas. A superfície do banco tem vários furos quadrados, que se vêem na imagem, em que entram, por pressão, os prismas de madeira dura ou ferro a que se dá o nome de colchetes ou esperas, que se levantam mais ou menos segundo é preciso; servem para a eles se encostarem as tábuas ou outras peças a aplainar, por exemplo. Um dos elementos mais característicos do banco de carpinteiro é o cabeçote, que é uma peça móvel de madeira, que, por meio de parafuso e guias de ferro ou de madeira, permite apertar qualquer peça de madeira que se queira serrar, aplainar, etc.

«Ficcionalizar» existe?

Queremos dois?

Um leitor pergunta-me se ficcionalizar existe oficialmente. Por «oficialmente» entenda-se a sua dicionarização. Em nenhum dicionário encontrei este verbo. Era, aliás, uma questão à qual já tinha dedicado uns momentos de reflexão. Vem do inglês, isso é certo, fictionalize, mas nós já temos «ficcionar», que, curiosamente, nem todos (!) os dicionários registam. Mas é como o leitor escrevia: encontra-se em todo o lado, mas sobretudo em estudos literários e crítica literária. Quanto à formação no inglês, foi feita por uma das formas que também encontramos na língua portuguesa: a um adjectivo, fictional (ficcional) acrescentou-se o sufixo ize (izar). Em português, a formação de verbos em –izar é a mais frequente a partir de adjectivos e é usada sobretudo na terminologia formal, académica e técnica (agilizar, compatibilizar, consciencializar, disponibilizar, esterilizar, fertilizar, fidelizar, industrializar, minimizar, oficializar, poetizar, relativizar, sintetizar, urbanizar, visualizar…), como é o caso. Em conclusão, se não está ainda definitivamente legitimado pela inclusão nos dicionários gerais da língua, está todavia bem formado. Já tenho é dúvidas se nos fará falta. É relativo. Não nos chega apenas uma gravata? Mas temos duas ou dúzias. Assim, talvez possamos também ter e usar ficcionar e ficcionalizar.

Concordância quanto ao número

Paideia

«Começavam os miríficos anos 60 em que parecia que tudo acontecia. Staline tinha morrido em 1953 e dir-se-ia que o grande império soviético e a sua rigidez começava a dar de si» («Maio 68», Teresa Maria, Paideia-Educação, n.º 128, Abril/Maio/Junho/Julho/Agosto de 2009, p. 8). O sujeito é composto, logo, em rigor o verbo vai para o plural. Apenas no caso de os núcleos do sujeito serem sinónimos e estarem no singular é que o verbo poderá ficar no plural (concordância gramatical ou lógica) ou no singular (concordância estilística). Veja-se esta frase: «A propaganda do Reich e, em toda a parte, a propaganda dos colaboracionistas partiam desse postulado, com a aprovação entusiástica da direita continental» («As consequências de uma batalha», Vasco Pulido Valente, Público, 7.06.2009, p. 40). Em frases semelhantes, muitas vezes a concordância é feita no singular, o que se deverá atribuir ao facto de o sujeito se repetir. De qualquer modo, encontrei erros e gralhas (e a pontuação…) sem conta naquela revistinha, e tem apenas 24 páginas… É verdade que a directora tem 91 anos, mas ninguém espera que seja o director de uma publicação a velar pessoalmente por esses aspectos. Há-de (tem de) haver lá alguém. Neste caso, prescindiu-se dos serviços de um revisor. Talvez porque é editada por uma associação de professores, a Associação de Professores Católicos.

Pronome relativo «quem»

Quem disse?

«O anúncio foi feito ontem pelo secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, segundo quem podem ser dispensados da prova os professores que tiverem classificação de Bom ou mais na avaliação» («Professores com Bom não fazem prova de ingresso», C. S., Correio da Manhã, 13.06.2009, p. 23). Só queria que reparassem no uso relativamente invulgar do pronome relativo quem neste tipo de construção. É muito mais comum encontrarmos a construção «segundo o(a) qual». Contudo, neste caso, por se referir a uma pessoa, foi correctamente usado. Esta é mesmo a única possibilidade de usar este pronome relativo sem estar antecedido de preposição (e algumas gramáticas editadas no Brasil afirmam, incorrectamente, que este pronome só pode aparecer preposicionado), funcionando como sujeito da oração. Quem é o acusativo latino (quĕm) dos pronomes relativo, interrogativo e relativo indefinido qui, quis, tendo passado a desempenhar funções na língua portuguesa tanto de complemento como de sujeito de oração. Em espanhol, quien desempenha as mesmas funções sintácticas, mas, ao contrário do português, varia em número: ¿Quiénes son los mejores músicos del país? Em catalão, o pronome relativo referente a pessoas é qui, do latim quī: L’home de qui parlàvem.

Prefixo «super-»

É desta?
No Diário de Notícias, que não tem revisores, escreve-se assim: «Estes problemas afectam sobretudo os casos de obesidade mais grave, como os de pessoas com índices de massa corporal (relação peso-altura) acima dos 45 — superobesos» («Empresas cobram mais do dobro por seguros a obesos», Diana Mendes, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 20). No Correio da Manhã, com revisores, escreve-se assim: «O super-espião que faz super-notas de 100 dólares foi identificado, pelos sul-coreanos e pelos americanos» («Ver claro», José Mateus, Correio da Manhã, 13.06.2009, p. 34). Será difícil perceber que este prefixo só está sujeito ao hífen antes de h ou r, será? Vá lá, não me façam acreditar que há criaturas indocíveis.

Sobre a gripe

Façam um referendo

Num texto publicado anteontem, os revisores do Le Monde afirmam que, à semelhança do vírus, também a designação sofreu mutações: «grippe mexicaine, grippe porcine, grippe A (H1N1)». Se a enumeração pretendia ser cronológica, está incorrecta e incompleta, pois a primeira designação foi gripe suína. Só quando, nos finais de Abril, o vice-ministro da Saúde israelita, Yakov Litzman, pediu ao público e aos jornalistas que deixassem de usar a designação de gripe suína, em deferência às sensibilidades judaica e muçulmana em relação ao porco, e propondo em alternativa gripe mexicana, é que esta designação passou a ser usada em todo o mundo, mas somente como alternativa. Entretanto, também a Confederação de Suinicultores Mexicanos reclamou uma alteração à denominação dada à doença (e estes, supõe-se, estão mais preocupados com o negócio do que com os concidadãos, pelo que pouco se importarão que se chame gripe mexicana). Observam os revisores do Le Monde que «dans un titre, grippe porcine peut se révéler plus intéressant que grippe A (H1N1)». Por ordem: gripe suína, gripe mexicana, gripe A (H1N1), gripe A, gripe H1N1. Cinco designações para a mesma doença? Não pensam nos leitores?
«Gripe mexicana é “muito pouco provável” na criança de Chaves» (Jornal de Notícias, 29.04.2009). «Gripe H1N1: Brasil com mais 3 novos casos, sobe para 14 o número de casos confirmados» (Jornal de Notícias, 29.05.2009). «Portugueses em cruzeiro onde há casos de Gripe A “estão bem”» (Jornal de Notícias, 29.05.2009). «Primeiro caso suspeito de gripe suína em criança» (Diário de Notícias, 29.04.2009). «Gripe A H1N1: Vírus em franca expansão no Canadá fez passar fasquia dos 3500 doentes» (Jornal de Notícias, 13.06.2009).
No dia 30 de Abril de 2009, a OMS passou a designar a gripe suína por gripe A.

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