Pronome relativo «quem»

Quem disse?

«O anúncio foi feito ontem pelo secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, segundo quem podem ser dispensados da prova os professores que tiverem classificação de Bom ou mais na avaliação» («Professores com Bom não fazem prova de ingresso», C. S., Correio da Manhã, 13.06.2009, p. 23). Só queria que reparassem no uso relativamente invulgar do pronome relativo quem neste tipo de construção. É muito mais comum encontrarmos a construção «segundo o(a) qual». Contudo, neste caso, por se referir a uma pessoa, foi correctamente usado. Esta é mesmo a única possibilidade de usar este pronome relativo sem estar antecedido de preposição (e algumas gramáticas editadas no Brasil afirmam, incorrectamente, que este pronome só pode aparecer preposicionado), funcionando como sujeito da oração. Quem é o acusativo latino (quĕm) dos pronomes relativo, interrogativo e relativo indefinido qui, quis, tendo passado a desempenhar funções na língua portuguesa tanto de complemento como de sujeito de oração. Em espanhol, quien desempenha as mesmas funções sintácticas, mas, ao contrário do português, varia em número: ¿Quiénes son los mejores músicos del país? Em catalão, o pronome relativo referente a pessoas é qui, do latim quī: L’home de qui parlàvem.

Prefixo «super-»

É desta?
No Diário de Notícias, que não tem revisores, escreve-se assim: «Estes problemas afectam sobretudo os casos de obesidade mais grave, como os de pessoas com índices de massa corporal (relação peso-altura) acima dos 45 — superobesos» («Empresas cobram mais do dobro por seguros a obesos», Diana Mendes, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 20). No Correio da Manhã, com revisores, escreve-se assim: «O super-espião que faz super-notas de 100 dólares foi identificado, pelos sul-coreanos e pelos americanos» («Ver claro», José Mateus, Correio da Manhã, 13.06.2009, p. 34). Será difícil perceber que este prefixo só está sujeito ao hífen antes de h ou r, será? Vá lá, não me façam acreditar que há criaturas indocíveis.

Sobre a gripe

Façam um referendo

Num texto publicado anteontem, os revisores do Le Monde afirmam que, à semelhança do vírus, também a designação sofreu mutações: «grippe mexicaine, grippe porcine, grippe A (H1N1)». Se a enumeração pretendia ser cronológica, está incorrecta e incompleta, pois a primeira designação foi gripe suína. Só quando, nos finais de Abril, o vice-ministro da Saúde israelita, Yakov Litzman, pediu ao público e aos jornalistas que deixassem de usar a designação de gripe suína, em deferência às sensibilidades judaica e muçulmana em relação ao porco, e propondo em alternativa gripe mexicana, é que esta designação passou a ser usada em todo o mundo, mas somente como alternativa. Entretanto, também a Confederação de Suinicultores Mexicanos reclamou uma alteração à denominação dada à doença (e estes, supõe-se, estão mais preocupados com o negócio do que com os concidadãos, pelo que pouco se importarão que se chame gripe mexicana). Observam os revisores do Le Monde que «dans un titre, grippe porcine peut se révéler plus intéressant que grippe A (H1N1)». Por ordem: gripe suína, gripe mexicana, gripe A (H1N1), gripe A, gripe H1N1. Cinco designações para a mesma doença? Não pensam nos leitores?
«Gripe mexicana é “muito pouco provável” na criança de Chaves» (Jornal de Notícias, 29.04.2009). «Gripe H1N1: Brasil com mais 3 novos casos, sobe para 14 o número de casos confirmados» (Jornal de Notícias, 29.05.2009). «Portugueses em cruzeiro onde há casos de Gripe A “estão bem”» (Jornal de Notícias, 29.05.2009). «Primeiro caso suspeito de gripe suína em criança» (Diário de Notícias, 29.04.2009). «Gripe A H1N1: Vírus em franca expansão no Canadá fez passar fasquia dos 3500 doentes» (Jornal de Notícias, 13.06.2009).
No dia 30 de Abril de 2009, a OMS passou a designar a gripe suína por gripe A.

Verbo «meter». Confusões (II)

Mete pena

      Já aqui abordei mais de uma vez as confusões em relação aos verbos pôr e colocar e, menos frequente, entre estes e o verbo meter. Veja-se este exemplo: «Sai do mato dentro de uma carrinha vermelha de caixa aberta. Apanha o cabelo, mete os óculos escuros, compõe o sutiã e vira-se de novo para a estrada» («Romenas disputam estrada», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 14.06.2009, p. 7). Ó senhora jornalista (e senhora, não é?, revisora), então meter não é «inserir, pôr dentro, fazer entrar, introduzir»? Podia ter metido os óculos num estojo, isso sim.

«Porta a porta»

E dar em terra

      «Amanhã, os pães que sobrarem serão distribuídos porta a porta pelos elementos da irmandade, juntamente com um litro de vinho de cheiro (feito a partir da casta americana Isabelle)» («Espírito Santo. O Divino sai à rua — e as melhores roupas também», Sandra Silva Costa, Público/P2, 7.06.2009, p. 5). Está certo: porta a porta, porque é locução. Se for substantivo, será porta-a-porta (distribuição porta-a-porta, v. g.). Por coincidência, na Gramática Histórica, de Ismael de Lima Coutinho, que citei no texto «Ou velho lusismo?», leio: «Até hoje a preposição em é empregada com idéia de movimento, em português correto, nos seguintes casos: Saltar em terra, ir de porta em porta, etc.» (p. 339). No dicionário de Rafael Bluteau, lê-se no verbete «porta»: «De porta em porta, i e. de casa em casa v. g. “mendigar de porta em porta”».

Lapsos jornalísticos

É uma bica e um dicionário

A jornalista do Público Sandra Silva Costa cometeu a duvidosa proeza de escrever uma reportagem, «Espírito Santo. O Divino sai à rua — e as melhores roupas também» (P2, 7.06.2009, pp. 4–7), sobre a festa do Espírito Santo nos Açores em que usou seis vezes a palavra «império» sem nunca explicar do que se trata. O leitor, que já é crescidinho, que se desenrasque. Vá lá, façam qualquer coisa, que a senhora jornalista tem mais que fazer. Em três páginas inteiras de texto, não tivemos mais que aproximações: «De um dos lados, atrás da fila de carros de bois, está uma pequena capelinha branca debruada a cor-de-rosa. É um Império do Espírito Santo e foi construído em 1894.» Sim, mas o que são «impérios»? «Nos Açores, explica Rui Costa, o culto ao Divino gira em torno dos impérios — e só na Terceira são mais de 60, aos quais correspondem outras tantas irmandades.» Sim, mas o que são «impérios»? «São oito domingos em que há coroações, sendo que os dois últimos domingos são os do bodo, que se distinguem dos outros porque a irmandade responsável pelo império em causa oferece pão a toda a comunidade.» Sim, mas o que são «impérios»? «Agora que a procissão acabou, o padre da freguesia dirige-se para o império — o feno verdinho espalhado pelo chão dá-lhe um agradável aroma campestre.» Sim, mas o que são «impérios»? «O primeiro império dos Açores data de 1670 e a manutenção, ainda hoje, de tradições como o abate de animais revela que o culto “tem um fundo judaico muito forte”.» Sim, mas o que são «impérios»? «E chegamos ao bolo: “A organização das irmandades é um exemplar valiosíssimo de uma forma de democracia que tem funcionado em pleno”, entende Antonieta Costa, que, entre 2000 e 2003, coordenou a candidatura dos impérios dos Açores a património cultural imaterial da UNESCO.» Sim, mas o que são «impérios»?
O Dicionário Houaiss explica que é o «recinto (coreto, capela ou ermida de madeira ou de pedra) onde se expõe a coroa do Espírito Santo no Domingo de Pentecostes; arraial por ocasião dessas festividades». Fica-se igualmente a saber que, por metonímia, é, nos Açores, o nome que se dá «ao conjunto de festejos em honra do Divino Espírito Santo». Para agravar a culpa da jornalista, o termo é usado no texto nestes dois sentidos.

O elemento «anti-»

Culpa da Lusa?


      Lamento sempre quando algum jornalista se limita a copiar, e bastas vezes mal, a fonte para a notícia que redigiu. Valha este caso: «O sol, as sardinhas e o salmão são algumas fontes de vitamina D, uma substância que ajuda a prevenir doenças como o cancro, as depressões, a demência, a esquizofrenia, o raquitismo e os enfartes, alertou o especialista norte-americano Michael Holik no II Congresso Ibérico de Medicina Anti-Envelhecimento, em Vilamoura» («Sol, salmão e sardinhas ajudam a prevenir cancros», Público, 7.06.2009, p. 14). O jornalista tem obrigação de saber que o elemento anti- se aglutina com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen. Logo: antienvelhecimento. Sim, é isso mesmo que estou a afirmar: o jornalista deve estar a borrifar-se para o nome «oficial». Por outro lado, o jornalista tinha obrigação de pesquisar o nome do especialista citado. Dá-se o caso de existir um Michael Holik, mas é outro macaco qualquer, não o professor de Medicina, Fisiologia e Biofísica e director do Centro Médico da Universidade de Boston (BMC). E mais: pergunto-me se não será ambíguo afirmar que o especialista é norte-americano, quando é canadiano. (E sim, sei o que registam muitos dicionários: de ou relativo aos naturais de qualquer dos países que constituem a América do Norte [Canadá, Estados Unidos e México].)

As dobragens e os erros

Tomem esta insónia

aqui lembrei um dia o caso da minha condiscípula Amélia, que não era capaz de articular o vocábulo «mesa», saindo-lhe sempre, qual moçoila do Lácio, «mensa». No episódio de ontem de Era uma vez os irmãos Grimm, no canal Panda, que se apresenta como um «canal temático educativo», uma ou duas personagens diziam «condensa» em vez de «condessa». Os actores terão lá as suas deficiências, mas é imperdoável que o director de dobragem não exerça controlo sobre a forma como as palavras, matéria-prima da sua actividade, são pronunciadas. Macacos me mordam se eu, e que Laurence Peter (uma nota de cultura highbrow para servir de pábulo às luminárias que frequentam estas paragens) me valha, não fazia uma dobragem com mais qualidade.

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