O substantivo «ex»

Que fue y ha dejado de serlo


      «Não faltam nas livrarias exemplos de vinganças pessoais, apoiadas em “revelações” especulativas e assinadas por antigos mordomos, amantes traídas ou amigos desavindos, ávidos de um ajuste de conta que humilhe o ‘ex-’ na praça pública» («O lado negro do senhor cem milhões», José Mário Silva, Actual, 23.05.2009, p. 40).
      Caro José Mário: liberte o pobre ex das aspas e do hífen, coitado, não vê que ele é pequeno mas não precisa desses amparos? Costuma dizer-se, eu próprio já o disse, que a realidade vai muito à frente dos lexicógrafos. O que nunca se diz é que eles são aflitivamente conservadores, e por isso lentos a reagir. Há quanto tempo é que o prefixo «ex» passou a ser também, e de pleno direito, um substantivo? Também para os Brasileiros ex é, nesta acepção de ex-marido/namorado/companheiro, um substantivo. Como para os Espanhóis, já com acolhimento no Diccionario de la Real Academia Española (DRAE): «Persona que ha dejado de ser cónyuge o pareja sentimental de otra.» O que afirmei em relação a «ex» aplica-se, mutatis mutandis, a «vice», com a diferença de que este elemento se autonomizou há menos tempo.
      A consulta ao DRAE deixou-me a cismar. Não há dúvida de que, etimologicamente, «ex» provém da preposição latina ex. Em espanhol, contudo, «ex» não é, como em português, «prefixo que exprime a ideia de separação, extracção, afastamento e significa aquilo que alguém foi mas já não é, quando seguido de nome que indique estado ou profissão e esteja a ele ligado por hífen (ex-marido, ex-ministro)» (na formulação do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), mas adjectivo. «Que fue y ha dejado de serlo. Ex ministro, ex marido.» (Já tinha pensado nisto, Fernando?) Somente quando exprime as ideias de «fora, mais afastado» ou a indicar privação (ou quando não acrescenta nenhum significado especial, como em «exclamar» ou «exornar», por exemplo) é que é prefixo.

Actualização em 25.07.2009

      Ainda não há novidades: «O número de vinganças conjugais tem crescido de tal forma que já é possível traçar preferências de actuação consoante o género: as mulheres ateiam fogo aos carros dos ‘ex’, “que é onde dói mais aos homens” e “os homens incendeiam as casas com que elas ficaram após as partilhas do divórcio ou onde vivem com o namorado”, diz a PJ» («PJ deteve 17 suspeitos de incêndios urbanos», Raquel Moleiro, Expresso, 25.07.2009, p. 15). Mas, na mesma edição deste jornal, lê-se: «Autarca de Caminha expulsou o seu ex-vice de reunião» («Só volta quem gosta da presidente», Ricardo Jorge Pinto, Expresso, 25.07.2009, p. 17).

«Web» ou «web»?

Imagem: http://www.hebertphp.net/

Digam lá, excelências




      «A web e o passa-palavra, os vírus e os outsourcings, a long tail e outros factores relacionados com os social media significam que toda a gente (todas as pessoas, todos nós, os seis mil milhões) têm mais poder do que nunca» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 38). «A Web põe as pessoas em contacto» (idem, ibidem, p. 96). É, mais uma infausta vez, a incongruência que espanta. Como sabem, uso e recomendo Internet e Multibanco, e, agora que se fala neste vocábulo, Web. A propósito, estou mortinho por ouvir o que se vai dizer na próxima emissão do programa Páginas de Português. Segundo se lê no Ciberdúvidas, uma das questões é sobre se «será possível arranjarmos palavras portuguesas para designar “twitter” e “facebook”». Já agora, porque não substituir também Google, Internet e outras que tais? Com tantos problemas que a língua apresenta, dão prioridade a estas magnas questões…

«Dezenas de milhares»

Ai esta cabeça

      «Encontrei milhares (talvez dezenas de milhar) de pessoas com grandes ideias» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 42). «Poucas horas depois de um produto ser anunciado, a notícia chegava a milhões e até a dezenas de milhares de utilizadores — tudo via digital, tudo online» (idem, ibidem, p. 51). Mais um caso de incongruência, mas que serve para referir o erro de concordância.
      Em 2003, era Estrela Serrano provedora do leitor no Diário de Notícias (cargo que desempenhou entre 2001 e 2004), uma leitora abordou esta questão, afirmando: «Leio somente as notícias que me interessam — e muitas vezes na diagonal. E mesmo assim, encontrei três erros: “centenas de milhares” — quando deveria estar “centenas de milhar”; “Á margem da exposição” — quando deveria estar “À margem da exposição”; “a maioria das pessoas que fuma se encontram” — quando deveria estar “a maioria das pessoas que fuma se encontra”.» Concluiu então a provedora: «Vejamos: a leitora tem razão, não apenas na identificação e correcção dos três erros que aponta mas, também, na referência que faz à responsabilidade dos meios de comunicação social na difusão da língua portuguesa.» Claro que a leitora não tinha razão. Não tinha, pelo menos, razão em relação a todas as questões, e a provedora deveria ter tido mais cuidado. Já aqui aflorei a questão das «dezenas de milhares».

Plural das siglas (II)

Qual guru! Um simples revisor


      «É simples: agora há tribos por todo o lado; dentro e fora de organizações, no sector público e no privado, nas ONG, nas salas de aula, por todo o planeta» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 13). «Quanto mais perto estivermos de ser reis/CEOs, maior a influência e o poder que temos» (idem, ibidem, p. 19). Já aqui o escrevi a propósito da mesma questão: pior do que ter um critério errado, só não ter nenhum critério. A propósito da agora omnipresente sigla CEO, ver aqui.

«Corrector» e «corretor» (II)

É do que eles precisam

«Imaginem só se tivessem de trabalhar na AOL ou na Sears, ou se tivessem de ser correctores de hipotecas» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 15). Como já aqui escrevi a propósito do mesmo erro, nunca é inútil voltar a falar das coisas (ainda que alguns, vejo-os daqui, tenham o narizinho empinado e achem que é questão de lana-caprina). Claro que o livro não ter tido revisão (pelo menos não aparecem os créditos na ficha técnica) explica muita coisa. No caso, até os jornais acertam: «Os corretores de hipotecas emergiram como o grupo mais vulnerável no negócio de empréstimos à habitação, à medida que os incumprimentos continuam a manchar a indústria» («Revista de imprensa: destaques do “Wall Street Journal”», Público, 5.07.2007).

«Consumar-se»?

Jornalismo consumado

«Este brutal e trágico acidente de viação rodoviária consumou-se numa zona de extensa recta» («Três mortos em acidente de camião do lixo», Joana de Belém e Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 24). Apesar de «viação» dizer respeito a qualquer meio de transporte, habitualmente dizemos apenas «acidente de viação». Também não dizemos, já repararam, «acidente de aviação aérea». Já quanto ao verbo «consumar», a escolha não podia ter sido pior. Como verbo pronominal, significa «completar-se; terminar; realizar-se; tornar-se exímio, aperfeiçoar-se». Por exemplo, quando há relação sexual, diz-se que o casamento se consuma. O étimo latino significa tão-só «acabar; completar». Assim, quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. No Eclesiástico ou livro de Ben Sira também se lê: «Uma paixão ardente como fogo aceso não se acalma até que se tenha consumado».

«Punjab», «Penjabe»…

Na entredúvida


      «O sikhismo é uma religião que surgiu no início do século XVI no Penjabe, através dos ensinamentos do Guru Nanak. […] Com a independência e a partição em Índia e Paquistão, em 1947, os sikhs decidiram ficar cidadãos indianos, uma vez que esta parecia ser a única forma de manterem a maioria no Punjab e alguns dos seus direitos» («Os homens do turbante que defendem a paz mas ficaram na história como guerreiros», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 30). Afinal, como é: Penjabe ou Punjab? As duas formas no mesmo texto? Prefiro, já aqui o escrevi uma vez, a forma aportuguesada Punjabe.

Uma acepção de «linguista»

Sem diploma nem obra

«O criminoso mais procurado da Alemanha, em fuga há nove anos, foi capturado à saída de um bar no bairro vermelho de Hamburgo. Thomas Wolf, um talentoso linguista de 56 aos que fugiu à polícia recorrendo a várias identidades falsas, disse aos investigadores que esperava ser apanhado mais tarde ou mais cedo» («Detido o alemão mais procurado», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 33). «Linguista»? Hum… Como tantas vezes sucede, as notícias são copiadas, e mal traduzidas, de jornais estrangeiros. Vejamos. «Thomas Wolf, 56, a talented linguist who eluded police with multiple aliases, was captured after being under observation in Hamburg for several days after authorities got a tip-off» («German’s most wanted criminal captured in Hamburg», Telegraph, 29.05.2009). Linguist, em inglês, é também «a person accomplished in languages; especially: one who speaks several languages», como leio no Merriam-Webster, por exemplo. Contudo, não são todos os dicionários de língua portuguesa que registam esta acepção — «pessoa versada em línguas», como está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora —, o que pode redundar em equívocos. No último parágrafo da notícia, explica-se porque é linguista: «O homem mais procurado da Alemanha falava fluentemente o holandês e o inglês, imitando na perfeição o sotaque irlandês ou escocês.»

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