Plural das siglas (II)

Qual guru! Um simples revisor


      «É simples: agora há tribos por todo o lado; dentro e fora de organizações, no sector público e no privado, nas ONG, nas salas de aula, por todo o planeta» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 13). «Quanto mais perto estivermos de ser reis/CEOs, maior a influência e o poder que temos» (idem, ibidem, p. 19). Já aqui o escrevi a propósito da mesma questão: pior do que ter um critério errado, só não ter nenhum critério. A propósito da agora omnipresente sigla CEO, ver aqui.

«Corrector» e «corretor» (II)

É do que eles precisam

«Imaginem só se tivessem de trabalhar na AOL ou na Sears, ou se tivessem de ser correctores de hipotecas» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 15). Como já aqui escrevi a propósito do mesmo erro, nunca é inútil voltar a falar das coisas (ainda que alguns, vejo-os daqui, tenham o narizinho empinado e achem que é questão de lana-caprina). Claro que o livro não ter tido revisão (pelo menos não aparecem os créditos na ficha técnica) explica muita coisa. No caso, até os jornais acertam: «Os corretores de hipotecas emergiram como o grupo mais vulnerável no negócio de empréstimos à habitação, à medida que os incumprimentos continuam a manchar a indústria» («Revista de imprensa: destaques do “Wall Street Journal”», Público, 5.07.2007).

«Consumar-se»?

Jornalismo consumado

«Este brutal e trágico acidente de viação rodoviária consumou-se numa zona de extensa recta» («Três mortos em acidente de camião do lixo», Joana de Belém e Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 24). Apesar de «viação» dizer respeito a qualquer meio de transporte, habitualmente dizemos apenas «acidente de viação». Também não dizemos, já repararam, «acidente de aviação aérea». Já quanto ao verbo «consumar», a escolha não podia ter sido pior. Como verbo pronominal, significa «completar-se; terminar; realizar-se; tornar-se exímio, aperfeiçoar-se». Por exemplo, quando há relação sexual, diz-se que o casamento se consuma. O étimo latino significa tão-só «acabar; completar». Assim, quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. No Eclesiástico ou livro de Ben Sira também se lê: «Uma paixão ardente como fogo aceso não se acalma até que se tenha consumado».

«Punjab», «Penjabe»…

Na entredúvida


      «O sikhismo é uma religião que surgiu no início do século XVI no Penjabe, através dos ensinamentos do Guru Nanak. […] Com a independência e a partição em Índia e Paquistão, em 1947, os sikhs decidiram ficar cidadãos indianos, uma vez que esta parecia ser a única forma de manterem a maioria no Punjab e alguns dos seus direitos» («Os homens do turbante que defendem a paz mas ficaram na história como guerreiros», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 30). Afinal, como é: Penjabe ou Punjab? As duas formas no mesmo texto? Prefiro, já aqui o escrevi uma vez, a forma aportuguesada Punjabe.

Uma acepção de «linguista»

Sem diploma nem obra

«O criminoso mais procurado da Alemanha, em fuga há nove anos, foi capturado à saída de um bar no bairro vermelho de Hamburgo. Thomas Wolf, um talentoso linguista de 56 aos que fugiu à polícia recorrendo a várias identidades falsas, disse aos investigadores que esperava ser apanhado mais tarde ou mais cedo» («Detido o alemão mais procurado», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 33). «Linguista»? Hum… Como tantas vezes sucede, as notícias são copiadas, e mal traduzidas, de jornais estrangeiros. Vejamos. «Thomas Wolf, 56, a talented linguist who eluded police with multiple aliases, was captured after being under observation in Hamburg for several days after authorities got a tip-off» («German’s most wanted criminal captured in Hamburg», Telegraph, 29.05.2009). Linguist, em inglês, é também «a person accomplished in languages; especially: one who speaks several languages», como leio no Merriam-Webster, por exemplo. Contudo, não são todos os dicionários de língua portuguesa que registam esta acepção — «pessoa versada em línguas», como está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora —, o que pode redundar em equívocos. No último parágrafo da notícia, explica-se porque é linguista: «O homem mais procurado da Alemanha falava fluentemente o holandês e o inglês, imitando na perfeição o sotaque irlandês ou escocês.»

«A» rádio e «o» rádio

Dentro do carro?

«Em vez disso, ouvia-se na rádio do carro o diálogo do apresentador da Antena 2 com um crítico musical muito conhecido a comentar a encenação» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 124). O aparelho receptor de sinais radiofónicos é do género masculino, o rádio, a estação ou emissora é do género feminino, a rádio. É um erro relativamente comum.

Léxico: «entressílabas»

Outras ficções

«E foi nessa mesma tarde, ao transcrever a conversa n.º 351, enlevada por aquela voz de quentes modulações, que se apercebeu nas entressílabas de que Zacarias estava a sacar a alguém uma série de escaldantes informações sobre um processo em segredo de justiça» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 92). É outra forma de dizer entrelinhas, sentido implícito. Parece ser feliz invenção do promotor do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa, contra o Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura. Alguns dos 22 magníficos textos desta colectânea estão entressemeados de estrangeirismos escusados. Claro que a defesa da língua não passa toda pela rejeição dos estrangeirismos, mas ainda assim, ao lermos esta obra, não deixamos de relacionar as coisas.

Léxico: «sofraldeca»

Vão nus

De desbragamento passei, naturalmente, a bragas, e destas cheguei a sofraldeca, que é aquela que sofralda, que ergue as vestes inferiores por sistema. No fundo, é isto que fazem os jornalistas que, na televisão e na rádio, se tuteiam. Só estranhava que ninguém mais estranhasse. Mas alguém que aprecio veio dizê-lo: «Qualquer jornalismo tem especificidades nacionais. Mas, no caso português, há especificidades que deixam um observador europeu atónito. Uma delas é a que leva os jornalistas do audiovisual a tratarem-se por tu nas emissões. E outra é a que faz que tratem um entrevistado por “você” e muitas vezes pelo seu nome próprio (“o professor Marcelo”), o que o entrevistado faz também amiúde (“a Judite”, “o Ricardo”, “o Nicolau”,…). Intimidades que excluem ouvintes e espectadores do círculo restrito dos intervenientes, traduzem conivências e revelam até um desbragamento nas regras de cortesia» («Mal-entendidos que dão jeito…», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 6.06.2009, p. 63). Mas leia-se outra opinião, como a de João Paulo Meneses, aqui.

Actualização em 7.08.2009

«Do lado da estação, José Carlos Castro, a par de Pedro Pinto o mais completo pivô do canal, fez as perguntas que se impunham. Mesmo a familiaridade do tratamento por tu, sempre desaconselhada, percebe-se neste caso» («A entrevista de Moniz», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 7.08.2009, p. 57).

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