«A» rádio e «o» rádio

Dentro do carro?

«Em vez disso, ouvia-se na rádio do carro o diálogo do apresentador da Antena 2 com um crítico musical muito conhecido a comentar a encenação» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 124). O aparelho receptor de sinais radiofónicos é do género masculino, o rádio, a estação ou emissora é do género feminino, a rádio. É um erro relativamente comum.

Léxico: «entressílabas»

Outras ficções

«E foi nessa mesma tarde, ao transcrever a conversa n.º 351, enlevada por aquela voz de quentes modulações, que se apercebeu nas entressílabas de que Zacarias estava a sacar a alguém uma série de escaldantes informações sobre um processo em segredo de justiça» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 92). É outra forma de dizer entrelinhas, sentido implícito. Parece ser feliz invenção do promotor do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa, contra o Acordo Ortográfico, Vasco Graça Moura. Alguns dos 22 magníficos textos desta colectânea estão entressemeados de estrangeirismos escusados. Claro que a defesa da língua não passa toda pela rejeição dos estrangeirismos, mas ainda assim, ao lermos esta obra, não deixamos de relacionar as coisas.

Léxico: «sofraldeca»

Vão nus

De desbragamento passei, naturalmente, a bragas, e destas cheguei a sofraldeca, que é aquela que sofralda, que ergue as vestes inferiores por sistema. No fundo, é isto que fazem os jornalistas que, na televisão e na rádio, se tuteiam. Só estranhava que ninguém mais estranhasse. Mas alguém que aprecio veio dizê-lo: «Qualquer jornalismo tem especificidades nacionais. Mas, no caso português, há especificidades que deixam um observador europeu atónito. Uma delas é a que leva os jornalistas do audiovisual a tratarem-se por tu nas emissões. E outra é a que faz que tratem um entrevistado por “você” e muitas vezes pelo seu nome próprio (“o professor Marcelo”), o que o entrevistado faz também amiúde (“a Judite”, “o Ricardo”, “o Nicolau”,…). Intimidades que excluem ouvintes e espectadores do círculo restrito dos intervenientes, traduzem conivências e revelam até um desbragamento nas regras de cortesia» («Mal-entendidos que dão jeito…», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 6.06.2009, p. 63). Mas leia-se outra opinião, como a de João Paulo Meneses, aqui.

Actualização em 7.08.2009

«Do lado da estação, José Carlos Castro, a par de Pedro Pinto o mais completo pivô do canal, fez as perguntas que se impunham. Mesmo a familiaridade do tratamento por tu, sempre desaconselhada, percebe-se neste caso» («A entrevista de Moniz», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 7.08.2009, p. 57).

«Maus-tratos» ou «maus tratos»?

Maltreito?

      «Agora, o Ministério Público de Oeiras, no despacho de acusação, decidiu que Mónica, 26 anos, será julgada pelo crime de maus-tratos por omissão agravada» («Mãe de Daniel no banco dos réus», T. F., Visão, n.º 690, 25 a 31 de Maio de 2006, p. 28). «A suspeita de maus tratos, levantadas por familiares e vizinhos, ou alegada negligência médica da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Minho estão agora a ser investigadas» («Falta de comunicação ao MP na origem de insólito em Viana», Andrea Cruz, Público, 18.04.2009, p. 18).
      Afinal como se escreve? Rui Gouveia, do Ciberdúvidas, não tem dúvidas: «Maus tratos, sem hífen. Por analogia com mau tratamento.» No mesmíssimo Ciberdúvidas, o consultor F. V. Peixoto da Fonseca acha que é indiferente: «Existe maltreito e maus-tratos (no plural), o primeiro registado por Rebelo Gonçalves e o segundo pelo dicionário Aurélio. É claro que se pode escrever mau trato ou mau tratamento (ambos sem hífen).»
      Num estudo sobre o projecto Disque-Gramática, do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina, lê-se: «Aqui também um dicionário bastaria para sanar as dúvidas. No entanto, não raro acontece de haver divergências entre autores. É o caso, por exemplo, de mau-trato (ou mau trato). Enquanto Houaiss (2001) e Ferreira [Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira] (1999) apresentam a forma com hífen, Michaelis (1998) não trata essa construção como um vocábulo, pois não a apresente. E Almeida [Napoleão M. Dicionário de Questões vernáculas. 3.ª ed., São Paulo: Ática] (1996) assim assevera: “Não existe um composto, uma só palavra; escreve-se analiticamente, o plural é maus tratos, sem hífen” (p. 335)» («Entre a norma e o uso: as dúvidas mais freqüentes de 2007», Fernanda Menezes de Carvalho et al., aqui).
      Luiz Antonio Sacconi, professor de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo e autor de várias obras de divulgação sobre a língua portuguesa, também se debruçou sobre a questão, afirmando que «maus-tratos (com hífen) é termo eminentemente jurídico e significa crime cometido por aquele que põe em risco a vida ou a saúde de pessoa que está sob sua autoridade, guarda ou vigilância», ao passo que «maus tratos (sem hífen) é uma expressão equivalente de sevícias, tormento, flagelo, tortura, mau tratamento», distinção que me parece inteiramente da lavra do autor. Não há dúvida de que o vocábulo provém da área jurídica, e os vulgares dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registam: «maus-tratos. Direito delito praticado por quem põe em risco a vida ou a saúde de uma pessoa que está sob a sua dependência ou guarda, privando-a de alimentos e cuidados indispensáveis, ou exercendo sobre ela qualquer forma de violência (física ou psicológica).» Nas traduções, vêem-se ambas as grafias, mas talvez prepondere, tal como na imprensa, a forma com hífen: «Para muitos dos povos minoritários que se encontravam sob domínio chinês, levou séculos de maus-tratos e opressão» (História da China, Stephen G. Haw. Tradução de Joana Estorninho de Almeida e Rita Graña e revisão de Raquel Mouta. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2008, p. 274). «Depois, ele e a Avó queixaram-se dos jovens malfeitores que andavam a aterrorizar o bairro e a infligir maus tratos e abusos às crianças mais novas» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 112). Eu prefiro, se isso interessa, grafar sempre sem hífen, «maus tratos».


Uma acepção de «embalagem»

Embrulha

      «Mas Irina tinha ganho embalagem e continuava a recitar de olhos fechados algumas páginas do capítulo sobre Literatura Portuguesa do Manual prático do espião soviético que a sua tão prodigiosa quanto bem treinada memória lhe permitia recapitular com uma precisão fotográfica» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 22). Onde diacho pára esta acepção de «embalagem» nos dicionários mais à mão? Não andarão os nossos caros lexicógrafos um bocadinho distraídos? Sim, vem do francês, e inicialmente apenas se aplicava no âmbito do ciclismo: «Accélération brutale et désordonnée des coureurs au moment du sprint. Le coureur [cycliste] ne devient un homme de premier ordre que lorsqu’il est arrivé à acquérir un emballage final foudroyant (Baudry de Saunier, Cycl., 1892, p. 412)» (in TLFI). Para a generalidade dos dicionários, embalar é somente o acto ou efeito de proteger em pacote e o próprio invólucro usado para conter, proteger, transportar e/ou apresentar mercadorias. Alguns, vá lá, ainda acrescentam que em sentido figurado e na linguagem coloquial, embalagem é a aparência, o aspecto exterior. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, não perdeu este verbete.

Léxico: «trincheira»

Para variar     


      Trench coat pode, naturalmente, traduzir-se por «impermeável». Como também pode traduzir-se por «trincheira». É o que fazem alguns dicionários, registando tratar-se de certo tipo de impermeável. Talvez tenha sido a empresa inglesa Burberry a criar, decorria a Primeira Grande Guerra, um casaco de chuva feito a partir de gabardina, a que deu o nome de trench coat. Vemo-lo em obras de autores portugueses: «O homem, de chapéu enfiado na cabeça até aos olhos, envergando uma trincheira escura e de luvas pretas calçadas, veio ter com ela» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 60).

Conversão (II)

Para termos uma ideia


      Já tinha tratado da questão aqui. Seguiu-se uma intensa troca de mensagens com revisores e tradutores, mas, curiosamente, nem sequer um comentário. No exemplo de hoje, foi o próprio autor e não as tradutoras a fazer o câmbio, lembrando que é a taxa «actual», o que se pode entender ser a da própria data da publicação da obra, 2005: «A maioria dos chineses tem de viver com o que em países desenvolvidos seria considerado uma insignificância: alguns milhares de yuan por mês (a taxa de câmbio está agora na ordem dos dez yuan para um euro) representa um bom ordenado para a maioria dos chineses (os níveis salariais variam consideravelmente de região para região)» (História da China, Stephen G. Haw. Tradução de Joana Estorninho de Almeida e Rita Graña e revisão de Raquel Mouta. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2008, p. 266). Uma coisa é certa: se não for o autor, alguém terá de assumir a tarefa de fazer a conversão para o completo entendimento da obra.

Ferramentas (II)


Ferramentas de carpinteiro

      Na imagem de hoje, continuamos a ter ferramentas de carpinteiro: turquês, alicate, travadeira, punções, pé-de-cabra, arranca-pregos, pedra de afiar, pedra de assentar fio, lima paralela, grosa de meia-cana, lima de três quinas, suporte para lixa, arco de pua, berbequim, trado, furador, brocas, furador e verruma. Os termos menos conhecidos, creio, serão travadeira, que é o nome que se dá à lâmina de ferro fendida nos bordos, com que se dá trava aos dentes da serra, isto é, a inclinação alternada dos dentes da serra para um e para outro lado do plano da folha, trado, que é uma verruma grande de que se servem os bombeiros, carpinteiros e tanoeiros para abrir furos grandes (aos próprios furos abertos com a ferramenta se dá o nome de trados), e pua, que designa o aparelho manual munido de uma broca giratória, usado para fazer furos. De todas as ferramentas, só desconhecia a pedra de assentar fio. Sei agora que é semelhante à pedra de afiar, também de grão muito fino, e que a superfície de atrito é lubrificada com óleo (em inglês diz-se, sugestivamente, oilstone). O fio, é claro, é o gume de qualquer instrumento cortante. Em alguns, ao gume opõe-se a cota.

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