«Maus-tratos» ou «maus tratos»?

Maltreito?

      «Agora, o Ministério Público de Oeiras, no despacho de acusação, decidiu que Mónica, 26 anos, será julgada pelo crime de maus-tratos por omissão agravada» («Mãe de Daniel no banco dos réus», T. F., Visão, n.º 690, 25 a 31 de Maio de 2006, p. 28). «A suspeita de maus tratos, levantadas por familiares e vizinhos, ou alegada negligência médica da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Minho estão agora a ser investigadas» («Falta de comunicação ao MP na origem de insólito em Viana», Andrea Cruz, Público, 18.04.2009, p. 18).
      Afinal como se escreve? Rui Gouveia, do Ciberdúvidas, não tem dúvidas: «Maus tratos, sem hífen. Por analogia com mau tratamento.» No mesmíssimo Ciberdúvidas, o consultor F. V. Peixoto da Fonseca acha que é indiferente: «Existe maltreito e maus-tratos (no plural), o primeiro registado por Rebelo Gonçalves e o segundo pelo dicionário Aurélio. É claro que se pode escrever mau trato ou mau tratamento (ambos sem hífen).»
      Num estudo sobre o projecto Disque-Gramática, do Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina, lê-se: «Aqui também um dicionário bastaria para sanar as dúvidas. No entanto, não raro acontece de haver divergências entre autores. É o caso, por exemplo, de mau-trato (ou mau trato). Enquanto Houaiss (2001) e Ferreira [Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira] (1999) apresentam a forma com hífen, Michaelis (1998) não trata essa construção como um vocábulo, pois não a apresente. E Almeida [Napoleão M. Dicionário de Questões vernáculas. 3.ª ed., São Paulo: Ática] (1996) assim assevera: “Não existe um composto, uma só palavra; escreve-se analiticamente, o plural é maus tratos, sem hífen” (p. 335)» («Entre a norma e o uso: as dúvidas mais freqüentes de 2007», Fernanda Menezes de Carvalho et al., aqui).
      Luiz Antonio Sacconi, professor de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo e autor de várias obras de divulgação sobre a língua portuguesa, também se debruçou sobre a questão, afirmando que «maus-tratos (com hífen) é termo eminentemente jurídico e significa crime cometido por aquele que põe em risco a vida ou a saúde de pessoa que está sob sua autoridade, guarda ou vigilância», ao passo que «maus tratos (sem hífen) é uma expressão equivalente de sevícias, tormento, flagelo, tortura, mau tratamento», distinção que me parece inteiramente da lavra do autor. Não há dúvida de que o vocábulo provém da área jurídica, e os vulgares dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registam: «maus-tratos. Direito delito praticado por quem põe em risco a vida ou a saúde de uma pessoa que está sob a sua dependência ou guarda, privando-a de alimentos e cuidados indispensáveis, ou exercendo sobre ela qualquer forma de violência (física ou psicológica).» Nas traduções, vêem-se ambas as grafias, mas talvez prepondere, tal como na imprensa, a forma com hífen: «Para muitos dos povos minoritários que se encontravam sob domínio chinês, levou séculos de maus-tratos e opressão» (História da China, Stephen G. Haw. Tradução de Joana Estorninho de Almeida e Rita Graña e revisão de Raquel Mouta. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2008, p. 274). «Depois, ele e a Avó queixaram-se dos jovens malfeitores que andavam a aterrorizar o bairro e a infligir maus tratos e abusos às crianças mais novas» (Filho de Ninguém, Michael Seed. Tradução de Mário Matos e revisão de Luís Milheiro. 3.ª ed. Lisboa: QuidNovi, 2008, p. 112). Eu prefiro, se isso interessa, grafar sempre sem hífen, «maus tratos».


Uma acepção de «embalagem»

Embrulha

      «Mas Irina tinha ganho embalagem e continuava a recitar de olhos fechados algumas páginas do capítulo sobre Literatura Portuguesa do Manual prático do espião soviético que a sua tão prodigiosa quanto bem treinada memória lhe permitia recapitular com uma precisão fotográfica» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 22). Onde diacho pára esta acepção de «embalagem» nos dicionários mais à mão? Não andarão os nossos caros lexicógrafos um bocadinho distraídos? Sim, vem do francês, e inicialmente apenas se aplicava no âmbito do ciclismo: «Accélération brutale et désordonnée des coureurs au moment du sprint. Le coureur [cycliste] ne devient un homme de premier ordre que lorsqu’il est arrivé à acquérir un emballage final foudroyant (Baudry de Saunier, Cycl., 1892, p. 412)» (in TLFI). Para a generalidade dos dicionários, embalar é somente o acto ou efeito de proteger em pacote e o próprio invólucro usado para conter, proteger, transportar e/ou apresentar mercadorias. Alguns, vá lá, ainda acrescentam que em sentido figurado e na linguagem coloquial, embalagem é a aparência, o aspecto exterior. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, não perdeu este verbete.

Léxico: «trincheira»

Para variar     


      Trench coat pode, naturalmente, traduzir-se por «impermeável». Como também pode traduzir-se por «trincheira». É o que fazem alguns dicionários, registando tratar-se de certo tipo de impermeável. Talvez tenha sido a empresa inglesa Burberry a criar, decorria a Primeira Grande Guerra, um casaco de chuva feito a partir de gabardina, a que deu o nome de trench coat. Vemo-lo em obras de autores portugueses: «O homem, de chapéu enfiado na cabeça até aos olhos, envergando uma trincheira escura e de luvas pretas calçadas, veio ter com ela» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 60).

Conversão (II)

Para termos uma ideia


      Já tinha tratado da questão aqui. Seguiu-se uma intensa troca de mensagens com revisores e tradutores, mas, curiosamente, nem sequer um comentário. No exemplo de hoje, foi o próprio autor e não as tradutoras a fazer o câmbio, lembrando que é a taxa «actual», o que se pode entender ser a da própria data da publicação da obra, 2005: «A maioria dos chineses tem de viver com o que em países desenvolvidos seria considerado uma insignificância: alguns milhares de yuan por mês (a taxa de câmbio está agora na ordem dos dez yuan para um euro) representa um bom ordenado para a maioria dos chineses (os níveis salariais variam consideravelmente de região para região)» (História da China, Stephen G. Haw. Tradução de Joana Estorninho de Almeida e Rita Graña e revisão de Raquel Mouta. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2008, p. 266). Uma coisa é certa: se não for o autor, alguém terá de assumir a tarefa de fazer a conversão para o completo entendimento da obra.

Ferramentas (II)


Ferramentas de carpinteiro

      Na imagem de hoje, continuamos a ter ferramentas de carpinteiro: turquês, alicate, travadeira, punções, pé-de-cabra, arranca-pregos, pedra de afiar, pedra de assentar fio, lima paralela, grosa de meia-cana, lima de três quinas, suporte para lixa, arco de pua, berbequim, trado, furador, brocas, furador e verruma. Os termos menos conhecidos, creio, serão travadeira, que é o nome que se dá à lâmina de ferro fendida nos bordos, com que se dá trava aos dentes da serra, isto é, a inclinação alternada dos dentes da serra para um e para outro lado do plano da folha, trado, que é uma verruma grande de que se servem os bombeiros, carpinteiros e tanoeiros para abrir furos grandes (aos próprios furos abertos com a ferramenta se dá o nome de trados), e pua, que designa o aparelho manual munido de uma broca giratória, usado para fazer furos. De todas as ferramentas, só desconhecia a pedra de assentar fio. Sei agora que é semelhante à pedra de afiar, também de grão muito fino, e que a superfície de atrito é lubrificada com óleo (em inglês diz-se, sugestivamente, oilstone). O fio, é claro, é o gume de qualquer instrumento cortante. Em alguns, ao gume opõe-se a cota.

Léxico: «palinologia»

E há quem acredite

      «Duarte Nuno Vieira, presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal e da Academia Internacional de Medicina Legal, realça a importância das novas técnicas de investigação e áreas de estudo, nomeadamente a panilogia (pólens) e a micologia (fungos)» («Peritos forenses debatem êxitos da autópsia virtual», C. N., Diário de Notícias, 29.05.2009, p. 22). É assim, *panilogia, que se lê em alguns blogues e, como se vê, no Diário de Notícias. Se entre parênteses não estivesse a palavra «pólens», ia jurar que tinha algo que ver com pão, dado o antepositivo pani-. Contudo, trata-se de um mero erro. O termo é, na realidade, palinologia (do grego palynien, «derramar, dispersar, difundir»), e foi introduzido por dois cientistas ingleses, H. A. Hyde e D. A. Williams em 1944. A palinologia, que constitui uma subdivisão da paleobotânica, é o estudo das características morfológicas externas de grãos de pólen e esporos (fósseis e actuais) e também da sua dispersão e aplicações. No texto da notícia, é a palinologia forense que está em causa.
      O Dicionário Houaiss regista os vocábulos «palinologia», «palinológico», «palinologista» e «palinólogo», precisamente os mesmos registados pela 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

Léxico: «murça»

Está com a bolha

      O leitor Nuno Simões quer saber se há alguma palavra para designar as bolhas que se vêem, por vezes, no vidro, especialmente nos de fabrico mais antigo. Há. Na indústria vidreira, dá-se o nome de murça à bolha que aparece no vidro, o que prova que, durante a afinação, não estava bastante fluido ou que não foi bem colhido. Já outro termo da indústria vidreira, lágrima-batávica, passou por aqui.

Léxico: «nocebo»

Causarei dano

      «Médicos que hoje estudam estes casos não têm dúvidas: acreditou tão intensamente na profecia clínica que foi vítima do efeito nocebo. […] Agora, o investigador britânico James Rudin está a verificar se os relatos dos malefícios das antenas dos telemóveis não serão apenas efeito nocebo — um vudu moderno.» («A ciência explica como funciona o vudu», André Barbosa, Sábado, 21.05.2009, p. 110). O vocábulo «placebo», lembrar-se-ão, já por aqui passou. Nocebo está registado em vários dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Preparado inócuo, teoricamente sem efeitos, mas que, aliado a factores psicológicos, pode produzir reacções negativas no paciente.» É a 1.ª pessoa do singular do futuro do indicativo do verbo latino nocere, «causar dano».

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