Conversão (II)

Para termos uma ideia


      Já tinha tratado da questão aqui. Seguiu-se uma intensa troca de mensagens com revisores e tradutores, mas, curiosamente, nem sequer um comentário. No exemplo de hoje, foi o próprio autor e não as tradutoras a fazer o câmbio, lembrando que é a taxa «actual», o que se pode entender ser a da própria data da publicação da obra, 2005: «A maioria dos chineses tem de viver com o que em países desenvolvidos seria considerado uma insignificância: alguns milhares de yuan por mês (a taxa de câmbio está agora na ordem dos dez yuan para um euro) representa um bom ordenado para a maioria dos chineses (os níveis salariais variam consideravelmente de região para região)» (História da China, Stephen G. Haw. Tradução de Joana Estorninho de Almeida e Rita Graña e revisão de Raquel Mouta. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2008, p. 266). Uma coisa é certa: se não for o autor, alguém terá de assumir a tarefa de fazer a conversão para o completo entendimento da obra.

Ferramentas (II)


Ferramentas de carpinteiro

      Na imagem de hoje, continuamos a ter ferramentas de carpinteiro: turquês, alicate, travadeira, punções, pé-de-cabra, arranca-pregos, pedra de afiar, pedra de assentar fio, lima paralela, grosa de meia-cana, lima de três quinas, suporte para lixa, arco de pua, berbequim, trado, furador, brocas, furador e verruma. Os termos menos conhecidos, creio, serão travadeira, que é o nome que se dá à lâmina de ferro fendida nos bordos, com que se dá trava aos dentes da serra, isto é, a inclinação alternada dos dentes da serra para um e para outro lado do plano da folha, trado, que é uma verruma grande de que se servem os bombeiros, carpinteiros e tanoeiros para abrir furos grandes (aos próprios furos abertos com a ferramenta se dá o nome de trados), e pua, que designa o aparelho manual munido de uma broca giratória, usado para fazer furos. De todas as ferramentas, só desconhecia a pedra de assentar fio. Sei agora que é semelhante à pedra de afiar, também de grão muito fino, e que a superfície de atrito é lubrificada com óleo (em inglês diz-se, sugestivamente, oilstone). O fio, é claro, é o gume de qualquer instrumento cortante. Em alguns, ao gume opõe-se a cota.

Léxico: «palinologia»

E há quem acredite

      «Duarte Nuno Vieira, presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal e da Academia Internacional de Medicina Legal, realça a importância das novas técnicas de investigação e áreas de estudo, nomeadamente a panilogia (pólens) e a micologia (fungos)» («Peritos forenses debatem êxitos da autópsia virtual», C. N., Diário de Notícias, 29.05.2009, p. 22). É assim, *panilogia, que se lê em alguns blogues e, como se vê, no Diário de Notícias. Se entre parênteses não estivesse a palavra «pólens», ia jurar que tinha algo que ver com pão, dado o antepositivo pani-. Contudo, trata-se de um mero erro. O termo é, na realidade, palinologia (do grego palynien, «derramar, dispersar, difundir»), e foi introduzido por dois cientistas ingleses, H. A. Hyde e D. A. Williams em 1944. A palinologia, que constitui uma subdivisão da paleobotânica, é o estudo das características morfológicas externas de grãos de pólen e esporos (fósseis e actuais) e também da sua dispersão e aplicações. No texto da notícia, é a palinologia forense que está em causa.
      O Dicionário Houaiss regista os vocábulos «palinologia», «palinológico», «palinologista» e «palinólogo», precisamente os mesmos registados pela 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

Léxico: «murça»

Está com a bolha

      O leitor Nuno Simões quer saber se há alguma palavra para designar as bolhas que se vêem, por vezes, no vidro, especialmente nos de fabrico mais antigo. Há. Na indústria vidreira, dá-se o nome de murça à bolha que aparece no vidro, o que prova que, durante a afinação, não estava bastante fluido ou que não foi bem colhido. Já outro termo da indústria vidreira, lágrima-batávica, passou por aqui.

Léxico: «nocebo»

Causarei dano

      «Médicos que hoje estudam estes casos não têm dúvidas: acreditou tão intensamente na profecia clínica que foi vítima do efeito nocebo. […] Agora, o investigador britânico James Rudin está a verificar se os relatos dos malefícios das antenas dos telemóveis não serão apenas efeito nocebo — um vudu moderno.» («A ciência explica como funciona o vudu», André Barbosa, Sábado, 21.05.2009, p. 110). O vocábulo «placebo», lembrar-se-ão, já por aqui passou. Nocebo está registado em vários dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Preparado inócuo, teoricamente sem efeitos, mas que, aliado a factores psicológicos, pode produzir reacções negativas no paciente.» É a 1.ª pessoa do singular do futuro do indicativo do verbo latino nocere, «causar dano».

Ortografia: «porta-fólio»

Afinal, há quem     

     
      «A OK! Teleseguro passa a denominar-se OK! Teleseguros para corresponder à expansão do porta-fólio de produtos da seguradora e tem no ar uma nova campanha publicitária, da autoria da agência Fuel, constituída por quatro filmes de TV, com a Marta como protagonista» («‘Rebranding’. OK! Teleseguro(s) com nova imagem já hoje», Paula Brito, Diário de Notícias, 1.06.2009, p. 50). Como podem ver, há jornalistas que optam por uma ortografia registada há décadas em detrimento do anglicismo portfolio.



«Guarda-prisional»? (I)

Divagações

      «Guardas prisionais preparam festa alternativa de protesto» (Paula Carmo, Diário de Notícias, 1.06.2009, p. 21). É só uma pergunta: se se escreve guarda-civil, guarda-florestal, guarda-freios, guarda-municipal, guarda-nocturno e guarda-republicano, não se deveria escrever também guarda-prisional? Parece ser um composto em que entram, foneticamente distintos, um substantivo e um adjectivo, em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos, conforme exige a Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945: «Emprega-se o hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos (e, portanto, com acentos gráficos, se os têm à parte), dois ou mais substantivos, ligados ou não por preposição ou outro elemento, um substantivo e um adjectivo, um adjectivo e um substantivo, dois adjectivos ou um adjectivo e um substantivo com valor adjectivo, uma forma verbal e um substantivo, duas formas verbais, ou ainda outras combinações de palavras, e em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos. Exemplos: água-de-colónia, arco-da-velha, bispo-conde, brincos-de-princesa, cor-de-rosa (adjectivo e substantivo invariável), decreto-lei, erva-de-santa-maria, médico-cirurgião, rainha-cláudia, rosa-do-japão, tio-avô; alcaide-mor, amor-perfeito, cabra-cega, criado-mudo, cristão-novo, fogo-fátuo, guarda-nocturno, homem-bom, lugar-comum, obra-prima, sangue-frio; alto-relevo, baixo-relevo, belas-letras, boa-nova (insecto), grande-oficial, grão-duque, má-criação, primeiro-ministro, primeiro-sargento, quota-parte, rico-homem, segunda-feira, segundo-sargento; amarelo-claro, azul-escuro, azul-ferrete, azul-topázio, castanho-escuro, verde-claro, verde-esmeralda, verde-gaio, verde-negro, verde-rubro; conta-gotas, deita-gatos, finca-pé, guarda-chuva, pára-quedas, porta-bandeira, quebra-luz, torna-viagem, troca-tintas; puxa-puxa, ruge-ruge; assim-assim (advérbio de modo), bem-me-quer, bem-te-vi, chove-não-molha, diz-que-diz-que, mais-que-perfeito, maria-já-é-dia, menos-mal (= «sofrivelmente»), menos-mau (= «sofrível»). Se, porém, no conjunto dos elementos de um composto, está perdida a noção da composição, faz-se a aglutinação completa: girassol, madrepérola, madressilva, pontapé

Discos de «shellac»?

Falemos da cochinilha

      «Como explica depois Maria de São José Côrte-Real no booklet de um dos volumes da colecção, “a qualidade sonora dos fonogramas originais das grandes empresas discográficas da época a operar em Portugal e no Brasil (…) foi agora refinada”» («Fados dos tempos das grafonolas na era digital», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 1.06.2009, p. 48). Vamos fingir que booklet não se pode traduzir por «folheto» ou «livrinho», por exemplo. Num texto de apoio a este, «A música antes dos dias do vinil», Nuno Galopim dá o golpe final: «Produzidos no quebradiço ‘shellac’, e com limitação na duração de tempo das gravações, os discos de 78 rotações e os gramofones que os tocavam contam memórias da música dos anos 20 a 50.» Mas shellac, valha-me Deus!, não se traduz por goma-laca!? Que disparate é este?

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