Ortografia: «porta-fólio»

Afinal, há quem     

     
      «A OK! Teleseguro passa a denominar-se OK! Teleseguros para corresponder à expansão do porta-fólio de produtos da seguradora e tem no ar uma nova campanha publicitária, da autoria da agência Fuel, constituída por quatro filmes de TV, com a Marta como protagonista» («‘Rebranding’. OK! Teleseguro(s) com nova imagem já hoje», Paula Brito, Diário de Notícias, 1.06.2009, p. 50). Como podem ver, há jornalistas que optam por uma ortografia registada há décadas em detrimento do anglicismo portfolio.



«Guarda-prisional»? (I)

Divagações

      «Guardas prisionais preparam festa alternativa de protesto» (Paula Carmo, Diário de Notícias, 1.06.2009, p. 21). É só uma pergunta: se se escreve guarda-civil, guarda-florestal, guarda-freios, guarda-municipal, guarda-nocturno e guarda-republicano, não se deveria escrever também guarda-prisional? Parece ser um composto em que entram, foneticamente distintos, um substantivo e um adjectivo, em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos, conforme exige a Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945: «Emprega-se o hífen nos compostos em que entram, foneticamente distintos (e, portanto, com acentos gráficos, se os têm à parte), dois ou mais substantivos, ligados ou não por preposição ou outro elemento, um substantivo e um adjectivo, um adjectivo e um substantivo, dois adjectivos ou um adjectivo e um substantivo com valor adjectivo, uma forma verbal e um substantivo, duas formas verbais, ou ainda outras combinações de palavras, e em que o conjunto dos elementos, mantida a noção da composição, forma um sentido único ou uma aderência de sentidos. Exemplos: água-de-colónia, arco-da-velha, bispo-conde, brincos-de-princesa, cor-de-rosa (adjectivo e substantivo invariável), decreto-lei, erva-de-santa-maria, médico-cirurgião, rainha-cláudia, rosa-do-japão, tio-avô; alcaide-mor, amor-perfeito, cabra-cega, criado-mudo, cristão-novo, fogo-fátuo, guarda-nocturno, homem-bom, lugar-comum, obra-prima, sangue-frio; alto-relevo, baixo-relevo, belas-letras, boa-nova (insecto), grande-oficial, grão-duque, má-criação, primeiro-ministro, primeiro-sargento, quota-parte, rico-homem, segunda-feira, segundo-sargento; amarelo-claro, azul-escuro, azul-ferrete, azul-topázio, castanho-escuro, verde-claro, verde-esmeralda, verde-gaio, verde-negro, verde-rubro; conta-gotas, deita-gatos, finca-pé, guarda-chuva, pára-quedas, porta-bandeira, quebra-luz, torna-viagem, troca-tintas; puxa-puxa, ruge-ruge; assim-assim (advérbio de modo), bem-me-quer, bem-te-vi, chove-não-molha, diz-que-diz-que, mais-que-perfeito, maria-já-é-dia, menos-mal (= «sofrivelmente»), menos-mau (= «sofrível»). Se, porém, no conjunto dos elementos de um composto, está perdida a noção da composição, faz-se a aglutinação completa: girassol, madrepérola, madressilva, pontapé

Discos de «shellac»?

Falemos da cochinilha

      «Como explica depois Maria de São José Côrte-Real no booklet de um dos volumes da colecção, “a qualidade sonora dos fonogramas originais das grandes empresas discográficas da época a operar em Portugal e no Brasil (…) foi agora refinada”» («Fados dos tempos das grafonolas na era digital», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 1.06.2009, p. 48). Vamos fingir que booklet não se pode traduzir por «folheto» ou «livrinho», por exemplo. Num texto de apoio a este, «A música antes dos dias do vinil», Nuno Galopim dá o golpe final: «Produzidos no quebradiço ‘shellac’, e com limitação na duração de tempo das gravações, os discos de 78 rotações e os gramofones que os tocavam contam memórias da música dos anos 20 a 50.» Mas shellac, valha-me Deus!, não se traduz por goma-laca!? Que disparate é este?

Léxico: «triquíni»

Imagem: http://starfields3.blogspot.com/

Um triquíni, se faz favor


      «Surgem novos modelos como o triquíni — uma mistura entre fato de banho (parte da frente) e o biquíni (parte de trás)» («A peça perfeita para mais um Verão», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 64). Aplica-se a este caso o que aqui escrevi anteontem sobre cabeça de lista: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa)» (6.º Base XV). Não é por se escrever «fato-de-macaco» que se tem necessariamente de escrever «fato-de-banho» e «fato-de-treino». Infelizmente, o Ciberdúvidas anda a propalar o contrário.

Léxico: «porta-automóveis»

Novidade

      «Das 30 porta-automóveis que operam internacionalmente, dez já cessaram actividade e as restantes funcionam com fluxo muito reduzido face a 2008, em que importaram mais de 50 mil viaturas usadas (4500/mês), o correspondente a 40% das viaturas matriculadas em Portugal» («Impostos sobre veículos ameaça 32 mil empregos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 7). Nunca antes vi esta acepção. Conhecia vagões e camiões porta-automóveis, não empresas porta-automóveis.

Ortografia: «multirresistente»

O multisciente

      «No certificado de óbito de J.B., de 74 anos, está escrito que a causa da morte foi uma infecção generalizada, que teve como “causa inicial” a Clostridium Difficile» («Filha da vítima quer processar Hospital de Faro», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 21). «Em causa está uma bactéria multiresistente, a clostridium difficile, que desde Janeiro infectou 31 pessoas no Hospital de Faro» («Mais cuidados travam infecção por bactéria», Diana Mendes, Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 25).
      Escreve-se multirresistente, como também se escreve multirracial, multirracialidade, multirradiado, multirradicular, multirrisco… Por outro lado, é triste que em nenhuma das vezes tenham acertado na grafia correcta da bactéria: Clostridium difficile. Já aqui tratei demasiadas vezes da matéria. Admitamos: muito acertam eles, sem revisores…

Evitar estrangeirismos

Impressiona mais

«Um caçador de cabeças indicou-o para product manager de roupa masculina do Continente, onde esteve três anos, até se iniciar nos segredos dos centros comerciais abrindo dois — um em Madrid (Gran Via) e outro em Valência — por conta dos franceses da Trema» («O caso do espanhol poliglota especialista em fazer ‘outlets’», Jorge Fiel, Diário de Notícias/DN Bolsa, 15.05.2009, p. 20). O jornalista soube evitar, com inteligência, o anglicismo headhunter (por vezes também aparece talent scout). Os Espanhóis conseguiram fugir à colagem ao inglês, forjando cazatalentos, já registado no Diccionario de la Real Academia. Já não soube evitar product manager. Gerente de produto ficará aquém do que a locução inglesa significa? E, claro, o vocábulo vía está incorrectamente grafado.

Sobre «uádi» e revisão

Fica a sugestão

«Por vezes, a chuva cai em quantidades tropicais, o que ocasionalmente provoca enormes leitos de água (wadis) que causam grande erosão nos terrenos, arrastando tudo na sua passagem» (Guia Bíblico e Cultural da Terra Santa, João Duarte Lourenço. Revisão de Maria José Rodrigues. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2008, p. 13). Ora aqui está um bom exemplo de um estrangeirismo que pede aportuguesamento — o que já aconteceu há muito tempo. Há anos que eu ando a escrever e a emendar para uádi (como também podia ser para uade), em conformidade, aliás, com o geralmente criterioso Dicionário Houaiss. Este também é um exemplo de uma obra que, tendo sido revista, precisa urgentemente, pela sua importância, de ser de novo revista, pois o domínio das regras ortotipográficas que revela é elementaríssimo. Eis um bom exercício prático para os alunos do curso de formação avançada em Revisão e Edição de Texto ministrado na Universidade Católica Portuguesa.

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