Ortografia: «multirresistente»

O multisciente

      «No certificado de óbito de J.B., de 74 anos, está escrito que a causa da morte foi uma infecção generalizada, que teve como “causa inicial” a Clostridium Difficile» («Filha da vítima quer processar Hospital de Faro», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 21). «Em causa está uma bactéria multiresistente, a clostridium difficile, que desde Janeiro infectou 31 pessoas no Hospital de Faro» («Mais cuidados travam infecção por bactéria», Diana Mendes, Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 25).
      Escreve-se multirresistente, como também se escreve multirracial, multirracialidade, multirradiado, multirradicular, multirrisco… Por outro lado, é triste que em nenhuma das vezes tenham acertado na grafia correcta da bactéria: Clostridium difficile. Já aqui tratei demasiadas vezes da matéria. Admitamos: muito acertam eles, sem revisores…

Evitar estrangeirismos

Impressiona mais

«Um caçador de cabeças indicou-o para product manager de roupa masculina do Continente, onde esteve três anos, até se iniciar nos segredos dos centros comerciais abrindo dois — um em Madrid (Gran Via) e outro em Valência — por conta dos franceses da Trema» («O caso do espanhol poliglota especialista em fazer ‘outlets’», Jorge Fiel, Diário de Notícias/DN Bolsa, 15.05.2009, p. 20). O jornalista soube evitar, com inteligência, o anglicismo headhunter (por vezes também aparece talent scout). Os Espanhóis conseguiram fugir à colagem ao inglês, forjando cazatalentos, já registado no Diccionario de la Real Academia. Já não soube evitar product manager. Gerente de produto ficará aquém do que a locução inglesa significa? E, claro, o vocábulo vía está incorrectamente grafado.

Sobre «uádi» e revisão

Fica a sugestão

«Por vezes, a chuva cai em quantidades tropicais, o que ocasionalmente provoca enormes leitos de água (wadis) que causam grande erosão nos terrenos, arrastando tudo na sua passagem» (Guia Bíblico e Cultural da Terra Santa, João Duarte Lourenço. Revisão de Maria José Rodrigues. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2008, p. 13). Ora aqui está um bom exemplo de um estrangeirismo que pede aportuguesamento — o que já aconteceu há muito tempo. Há anos que eu ando a escrever e a emendar para uádi (como também podia ser para uade), em conformidade, aliás, com o geralmente criterioso Dicionário Houaiss. Este também é um exemplo de uma obra que, tendo sido revista, precisa urgentemente, pela sua importância, de ser de novo revista, pois o domínio das regras ortotipográficas que revela é elementaríssimo. Eis um bom exercício prático para os alunos do curso de formação avançada em Revisão e Edição de Texto ministrado na Universidade Católica Portuguesa.

Sobre «libertas»

Propaganda obscura

      Ao dobrar da esquina, deparo com um homem, a rondar os 60 anos, obviamente dado à monologia (ver dicionário), especado em frente de um cartaz do MPT: «Veja-me isto: “Libertas para a Europa”. Mas que querem eles dizer com isto? Só tenho a antiga 4.ª classe, mas fui professor primário em Timor. Sei muito bem o que é uma liberta: é a escrava que obteve carta de alforria — sabe o que significa “alforria”? Isto não tem pés nem cabeça!» Expliquei-lhe o que era o Libertas. Disse-lhe mesmo que quem fala de libertas, com licença, fala de sanitas. E de veritas. E de caritas. Despejei-lhe mais algum latim para cima, mas concordei com o meu ocasional interlocutor: este cartaz de propaganda do Partido da Terra não é de imediata compreensão.

«Cabeça-de-lista»?

Não vejo porquê     

      «O cabeça-de-lista do PS, Vital Moreira, considerou que além de ser “garante da estabilidade dos preços e de fornecimento de meios monetários ao sistema bancário, o BCE deve assumir também a função de supervisão macroprudencial do sistema financeiro europeu no seu conjunto”» («Maioria aceita rever poder do BCE», Diário de Notícias, 22.05.2009, p. 11). «Já Vital Moreira, o cabeça de lista do PS, optou por imprimir uma tónica de optimismo na sua campanha» («Cavaco Silva pede serenidade em campanha agitada entre PS e PSD», Nuno Simas, Maria José Santana, Maria Lopes, Margarida Gomes e Sofia Branco, Público, 26.05.2009, p. 8). Acho absolutamente irrelevante que as últimas edições do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafem este substantivo comum de dois com hífenes. O texto do Acordo Ortográfico de 1990, que ainda não está em vigor (o que, a avaliar pelo número de mensagens, sobretudo de estudantes, que recebo a perguntarem se já se pode aplicar, não é do domínio público), consigna uma regra que me parece preciosa: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa)» (6.º Base XV). Nos últimos anos, os jornalistas têm-se agarrado aos hífens como náufragos a tábuas.

Ortografia: «muregona»(?)

Imagem: http://afonsorochaescultura.blogspot.com/

Uma grafia (talvez) controversa  
     

      João Xavier, professor, escrevia ontem no blogue Marafado que «muitos dos que passam pela rotunda da entrada ocidental de Tavira ficam sem saber o que representa a obra de arte [escultura de bronze com 10 metros de diâmetro e 3 metros de altura] que foi construída no seu centro. É uma murejona/murjona/morejona/morjona. Trata-se de um aparelho artesanal de pesca em forma de armadilha: dentro, são colocados pedaços de peixe que atraem peixes e polvos que, uma vez lá dentro, muito dificilmente conseguem escapar. O nome deste aparelho não está registado nos principais dicionários de língua portuguesa, por ser uma invenção algarvia (aberração dos linguistas puristas!…) e por isso não se generalizou ainda uma versão única da sua grafia. No documento mais antigo que pesquisei, encontrei a palavra morjona. Mas já encontrei em outros documentos as grafias morejona, murjona e murejona… Falta acrescentar que entre os pescadores facilmente ouvimos falar em merjona…»
      O filólogo José Pedro Machado, que era natural de Faro (e às vezes, já aqui o demonstrei, dormitava), regista no Grande Dicionário da Língua Portuguesa «muregona» («armadilha de verga, em forma esferóide»), como também regista «murjona» («rede que se usa em Olhão»). Pela descrição, parece que a muregona de José Pedro Machado é a murejona/murjona/morejona/morjona/merjona de João Xavier.
     

«Gaffe» e «gafe»

O tempo

      É verdade que a preferência dos falantes ainda se divide entre dossier e dossiê, para lançar mão de um exemplo já aqui referido, mas já não entre football e futebol. O tempo cura tudo… ou quase. Embora eu consiga imaginar um mundo sem a palavra gafe, é assim que prefiro que se grafe. «No dia em que começam a ser sepultadas as vítimas do terramoto da região de Abruzzo, Silvio Berlusconi comete mais uma gafe: em declarações a uma cadeia de televisão alemã, o primeiro-ministro italiano aconselhou os desalojados da cidade de Áquila a olharem para a situação como “um fim-de-semana de campismo”» («Berlusconi comete gafe no dia do 1.º funeral», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 9.04.2009). «O primeiro-ministro italiano cometeu ontem nova gaffe ao dizer que Roma, Nápoles e Palermo “parecem mais cidades africanas que europeias” pela degradação em que estão» («Gaffes, eu?», Clara Barata, Público, 26.05.2009, p. 13).

Léxico: «carboidrato»

Então, se é assim…


      «O ideal seria que a primeira refeição fosse constituída por 50% de carboidratos, 30% de proteína e 20% de gordura» («Tome o pequeno-almoço», Cosmopolitan, n.º 203, Março de 2009, p. 95). Dantes, eram conhecidos apenas por hidratos de carbono e só os dicionários brasileiros registavam carboidrato. Agora, pelo que vejo, até nos dicionários editados em Portugal está registado. Já tenho lido a forma, incorrecta, pois o h interno nunca pode persistir, carbohidrato. Por outro lado, se se escreve «carboidrato», não se deveria poder escrever «superomem»? Certo, super é um prefixo, e com prefixos, usa-se sempre o hífen antes de palavra iniciada por h. Mas também em subumano (que a 5.ª edição do Volp regista a par de sub-humano, tal como regista carboidrato e carbo-hidrato, tendo a Academia Brasileira de Letras afirmado, oportunamente, que a regra é a de nos casos em que não houver perda da vogal do primeiro elemento e o elemento seguinte começar com h, serem usadas as duas formas gráficas) é prefixo e o h caiu, ocorrendo aglutinação. Uma excepçãozinha... A propósito, na translineação, divide-se assim o vocábulo: su-bu-ma-no. É que, em português, e por muito que isto não caiba na cabeça de alguns falantes, a separação de sílabas é feita sem levar em conta a estrutura morfológica dos vocábulos.

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