Sobre «libertas»

Propaganda obscura

      Ao dobrar da esquina, deparo com um homem, a rondar os 60 anos, obviamente dado à monologia (ver dicionário), especado em frente de um cartaz do MPT: «Veja-me isto: “Libertas para a Europa”. Mas que querem eles dizer com isto? Só tenho a antiga 4.ª classe, mas fui professor primário em Timor. Sei muito bem o que é uma liberta: é a escrava que obteve carta de alforria — sabe o que significa “alforria”? Isto não tem pés nem cabeça!» Expliquei-lhe o que era o Libertas. Disse-lhe mesmo que quem fala de libertas, com licença, fala de sanitas. E de veritas. E de caritas. Despejei-lhe mais algum latim para cima, mas concordei com o meu ocasional interlocutor: este cartaz de propaganda do Partido da Terra não é de imediata compreensão.

«Cabeça-de-lista»?

Não vejo porquê     

      «O cabeça-de-lista do PS, Vital Moreira, considerou que além de ser “garante da estabilidade dos preços e de fornecimento de meios monetários ao sistema bancário, o BCE deve assumir também a função de supervisão macroprudencial do sistema financeiro europeu no seu conjunto”» («Maioria aceita rever poder do BCE», Diário de Notícias, 22.05.2009, p. 11). «Já Vital Moreira, o cabeça de lista do PS, optou por imprimir uma tónica de optimismo na sua campanha» («Cavaco Silva pede serenidade em campanha agitada entre PS e PSD», Nuno Simas, Maria José Santana, Maria Lopes, Margarida Gomes e Sofia Branco, Público, 26.05.2009, p. 8). Acho absolutamente irrelevante que as últimas edições do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafem este substantivo comum de dois com hífenes. O texto do Acordo Ortográfico de 1990, que ainda não está em vigor (o que, a avaliar pelo número de mensagens, sobretudo de estudantes, que recebo a perguntarem se já se pode aplicar, não é do domínio público), consigna uma regra que me parece preciosa: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa)» (6.º Base XV). Nos últimos anos, os jornalistas têm-se agarrado aos hífens como náufragos a tábuas.

Ortografia: «muregona»(?)

Imagem: http://afonsorochaescultura.blogspot.com/

Uma grafia (talvez) controversa  
     

      João Xavier, professor, escrevia ontem no blogue Marafado que «muitos dos que passam pela rotunda da entrada ocidental de Tavira ficam sem saber o que representa a obra de arte [escultura de bronze com 10 metros de diâmetro e 3 metros de altura] que foi construída no seu centro. É uma murejona/murjona/morejona/morjona. Trata-se de um aparelho artesanal de pesca em forma de armadilha: dentro, são colocados pedaços de peixe que atraem peixes e polvos que, uma vez lá dentro, muito dificilmente conseguem escapar. O nome deste aparelho não está registado nos principais dicionários de língua portuguesa, por ser uma invenção algarvia (aberração dos linguistas puristas!…) e por isso não se generalizou ainda uma versão única da sua grafia. No documento mais antigo que pesquisei, encontrei a palavra morjona. Mas já encontrei em outros documentos as grafias morejona, murjona e murejona… Falta acrescentar que entre os pescadores facilmente ouvimos falar em merjona…»
      O filólogo José Pedro Machado, que era natural de Faro (e às vezes, já aqui o demonstrei, dormitava), regista no Grande Dicionário da Língua Portuguesa «muregona» («armadilha de verga, em forma esferóide»), como também regista «murjona» («rede que se usa em Olhão»). Pela descrição, parece que a muregona de José Pedro Machado é a murejona/murjona/morejona/morjona/merjona de João Xavier.
     

«Gaffe» e «gafe»

O tempo

      É verdade que a preferência dos falantes ainda se divide entre dossier e dossiê, para lançar mão de um exemplo já aqui referido, mas já não entre football e futebol. O tempo cura tudo… ou quase. Embora eu consiga imaginar um mundo sem a palavra gafe, é assim que prefiro que se grafe. «No dia em que começam a ser sepultadas as vítimas do terramoto da região de Abruzzo, Silvio Berlusconi comete mais uma gafe: em declarações a uma cadeia de televisão alemã, o primeiro-ministro italiano aconselhou os desalojados da cidade de Áquila a olharem para a situação como “um fim-de-semana de campismo”» («Berlusconi comete gafe no dia do 1.º funeral», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 9.04.2009). «O primeiro-ministro italiano cometeu ontem nova gaffe ao dizer que Roma, Nápoles e Palermo “parecem mais cidades africanas que europeias” pela degradação em que estão» («Gaffes, eu?», Clara Barata, Público, 26.05.2009, p. 13).

Léxico: «carboidrato»

Então, se é assim…


      «O ideal seria que a primeira refeição fosse constituída por 50% de carboidratos, 30% de proteína e 20% de gordura» («Tome o pequeno-almoço», Cosmopolitan, n.º 203, Março de 2009, p. 95). Dantes, eram conhecidos apenas por hidratos de carbono e só os dicionários brasileiros registavam carboidrato. Agora, pelo que vejo, até nos dicionários editados em Portugal está registado. Já tenho lido a forma, incorrecta, pois o h interno nunca pode persistir, carbohidrato. Por outro lado, se se escreve «carboidrato», não se deveria poder escrever «superomem»? Certo, super é um prefixo, e com prefixos, usa-se sempre o hífen antes de palavra iniciada por h. Mas também em subumano (que a 5.ª edição do Volp regista a par de sub-humano, tal como regista carboidrato e carbo-hidrato, tendo a Academia Brasileira de Letras afirmado, oportunamente, que a regra é a de nos casos em que não houver perda da vogal do primeiro elemento e o elemento seguinte começar com h, serem usadas as duas formas gráficas) é prefixo e o h caiu, ocorrendo aglutinação. Uma excepçãozinha... A propósito, na translineação, divide-se assim o vocábulo: su-bu-ma-no. É que, em português, e por muito que isto não caiba na cabeça de alguns falantes, a separação de sílabas é feita sem levar em conta a estrutura morfológica dos vocábulos.

Eminência parda

Almas penadas

      Acabei de ouvir um tempo de antena do Partido Nacional Renovador (PNR). Depois de dizerem que a União Europeia prejudica Portugal e de falarem dos políticos «federastas» de Bruxelas, veio Humberto Nuno de Oliveira acusar as «almas pardas do regime» de terem vindo dizer que os Portugueses não se podiam pronunciar sobre o Tratado de Lisboa porque era demasiado complexo. «Almas pardas»? Não é a primeira vez que ouço este disparate. Na realidade, quem o diz pretende dizer eminência parda, que é alguém, um conselheiro, por exemplo, que está próximo de uma alta personalidade e que ocultamente toma todas as decisões. É a tradução do francês éminence grise, que era o nome que se dava ao padre Joseph de Tremblay (1577–1638), conselheiro do cardeal de Richelieu (1585–1642). Parda porque manobrava na sombra e porque vestia o hábito, negro, de capuchinho, a cuja ordem pertencia.

De «bungalow» a «bangaló» e «bangalô»

De Bengala

      Seguindo muitos outros aportuguesamentos, bangaló ou bangalô está a destronar o inglês bungalow. Não apenas nos jornais e nas traduções, o que é menos de surpreender, mas em obras originais em português. Vejam-se estes exemplos: «Atrás, nas areias puríssimas da praia, ergue-se agora um bar-bangaló» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 69). «De facto, já não é um campo mas uma medonha estância de veraneio a abarrotar numa balbúrdia de bangalôs de péssima construção, suspeito que projectados pelo mesmo idiota responsável pelos mamarrachos ao fundo do jardim» (O Mar, John Banville. Tradução de Teresa Curvelo. 3.ª ed. Porto: Asa Editores, 2006, p. 35).

Léxico: «melfha»

Imagem: http://maite-emakumea.blogspot.com/

No Sara Ocidental


      «Irreconhecível à primeira vista, é uma outra menina sem a sua melfha, o lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauís, e que Lamira veste por cima das calças de ganga e dos ténis» («À espera de uma vida normal», Joana Simões Piedade, Notícias Sábado, 23.05.2009, p. 41).

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