Eminência parda

Almas penadas

      Acabei de ouvir um tempo de antena do Partido Nacional Renovador (PNR). Depois de dizerem que a União Europeia prejudica Portugal e de falarem dos políticos «federastas» de Bruxelas, veio Humberto Nuno de Oliveira acusar as «almas pardas do regime» de terem vindo dizer que os Portugueses não se podiam pronunciar sobre o Tratado de Lisboa porque era demasiado complexo. «Almas pardas»? Não é a primeira vez que ouço este disparate. Na realidade, quem o diz pretende dizer eminência parda, que é alguém, um conselheiro, por exemplo, que está próximo de uma alta personalidade e que ocultamente toma todas as decisões. É a tradução do francês éminence grise, que era o nome que se dava ao padre Joseph de Tremblay (1577–1638), conselheiro do cardeal de Richelieu (1585–1642). Parda porque manobrava na sombra e porque vestia o hábito, negro, de capuchinho, a cuja ordem pertencia.

De «bungalow» a «bangaló» e «bangalô»

De Bengala

      Seguindo muitos outros aportuguesamentos, bangaló ou bangalô está a destronar o inglês bungalow. Não apenas nos jornais e nas traduções, o que é menos de surpreender, mas em obras originais em português. Vejam-se estes exemplos: «Atrás, nas areias puríssimas da praia, ergue-se agora um bar-bangaló» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 69). «De facto, já não é um campo mas uma medonha estância de veraneio a abarrotar numa balbúrdia de bangalôs de péssima construção, suspeito que projectados pelo mesmo idiota responsável pelos mamarrachos ao fundo do jardim» (O Mar, John Banville. Tradução de Teresa Curvelo. 3.ª ed. Porto: Asa Editores, 2006, p. 35).

Léxico: «melfha»

Imagem: http://maite-emakumea.blogspot.com/

No Sara Ocidental


      «Irreconhecível à primeira vista, é uma outra menina sem a sua melfha, o lenço colorido que cobre todo o corpo e cabelo das mulheres sarauís, e que Lamira veste por cima das calças de ganga e dos ténis» («À espera de uma vida normal», Joana Simões Piedade, Notícias Sábado, 23.05.2009, p. 41).

Registos de língua

Falemos em changana

      O último texto do provedor dos leitores do Diário de Notícias, Mário Bettencourt Resendes, foi inteiramente dedicado, a propósito da reclamação de um leitor, ao registo de língua. Eis um excerto do texto: «O provedor pensa, mesmo assim, que cabe a um jornal que se reclama de “referência” ou de “qualidade” uma atitude de rigor e exigência neste domínio. Ou seja, uma coisa é a transcrição, em discurso directo, de palavras de terceiros que podem ser relevantes para o conteúdo de uma matéria noticiosa, outra, assaz diferente, é a incorporação, no texto do jornalista, de termos que, embora utilizados em algum “português coloquial”, não cumprem os requisitos mínimos de elegância (que não é antónimo de simplicidade) que se esperam de um jornal “bem escrito”» («Uma lição de português», 30.05.2009). Recentemente, lia-se, a respeito do chefe inglês Jamie Oliver, na Notícias Sábado: «Segundo a Reuters, o mediático mestre cuca assinou contrato com a cadeia norte-americana ABC para um reality show nas cidades mais afectadas pela obesidade» («Mestre cuca muda gordos da América», 23.05.2009, p. 14). Certo, é na secção «Gente». Vejam então um exemplo de excesso de informalidade no outrora seriíssimo diário: «Mandou matar marido e leva 19 anos de prisão» (Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 21). Andam distraídos ou é o novo estilo?

Uma acepção de «locação»

Pois então

      «Passámos o dia de ontem a visitar “pontos turísticos” e algumas possíveis locações para o filme: o Grande Hotel da Huíla, o Cristo-Rei, a serpenteante estrada da serra da Leba, a fenda da Tundavala» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 81). A palavra é portuguesa, «locação», sem dúvida, mas a acepção é inglesa. Location é um termo da área do cinema e designa os exteriores, o local fora dos estúdios onde se realiza uma filmagem. Claro que, como sucede com «restaurador» (a propósito do qual um anónimo comentou que «nem é uma palavra nova, é uma apropriação natural de significante para um significado»), a integração no léxico é mais fácil, pois que se trata de acrescentar acepções a vocábulos preexistentes. Em todo o caso, os lexicógrafos devem levar sempre em consideração a frequência de uso destas acepções, antes de as integrarem nos dicionários descritivos. Tanto em relação a «restaurador» como a «locação», o seu pouco uso levaria à sua não inclusão.

Ferramentas (I)


Ferramentas de carpinteiro

      Uma vez por semana, e durante 22 semanas, publicarei aqui uma reprodução de desenhos de ferramentas que encontrei num manual que me foi oferecido por um amigo (a lembrar Jan Potocki, só o facto de o meu amigo também ser soldado, pelo que poderia ser o Manuscrito Encontrado em Mirandela). Não há qualquer referência à autoria, mas o meu amigo afirma que foi editado pelo extinto Fundo de Fomento à Habitação. As duas páginas acima mostram as seguintes ferramentas de carpinteiro: graminho, galgadeira, suta, esquadro, meia-esquadria, compasso, cintel, lápis de carpinteiro, serra de carpinteiro, serrote de ponta, serrote de samblar (e não «sambrar»), serrote de traçar (com imagem comparativa do pormenor dos dentes) caixa de meias-esquadrias e espera. Apresento a definição de alguns, os menos comuns, termos. Graminho: instrumento para traçar linhas paralelas a pequena distância das arestas das peças de madeira. Galgadeira: instrumento com que se riscam, nos lados das tábuas, traços ou vincos paralelos aos mesmos. Suta: esquadro de peças móveis para traçar ângulos de qualquer medida. Cintel: instrumento que substitui o compasso, para traçar círculos de grande raio. Espera: peça de ferro ou madeira que serve para impedir o movimento em determinado sentido de certos objectos, ferramentas, por exemplo.


Sobrenome duplo

Que Churchill nos ajude


      «À medida que Mary fazia mais perguntas, Helen amealhava mais ponto: um marido contabilista numa empresa da City, uma velha mansão, um sobrenome duplo, um potro na cavalariça» (Adultério para Principiantes, Sarah Duncan. Tradução de Ana Mendes Lopes, com revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Porto: Asa Editores, 2006, p. 18). A personagem chama-se Helen Weedon-Smith. Analisemos a questão recorrendo a um sobrenome semelhante, por exemplo o dos duques de Marlborough, Spencer-Churchill. George Spencer (1766–1840), 5.° duque de Marlborough, obteve uma licença da Coroa para poder acrescentar o sobrenome Churchill ao sobrenome da família, Spencer, passando a assinar George Spencer-Churchill. Ora, o que sucede é que a segunda filha do primeiro duque de Marlborough, Lady Anne Churchill, se tinha casado com Charles Spencer, 3.° conde de Sunderland (1674–1722). Com a licença real, Spencer-Churchill passou a valer como um só sobrenome — é um apelido composto. O sobrenome Weedon-Smith terá, provavelmente, a mesma génese. À face da lei portuguesa (que reflecte, já aqui o dissemos, regras gramaticais), o conceito de sobrenome duplo designa uma realidade diferente. Sobrenome duplo — um apelido da mãe e um apelido do pai — quase todos os cidadãos portugueses têm, o que se recomenda até para diminuir as probabilidades de homonímia.

Léxico: «butô»

Do Japão

«O seu último álbum contém várias referências à dança — a começar pela capa, foto do mestre japonês do butô Kazuo Ohno — mas o bailarino que surgiu em palco ensaiou movimentos teatralizados e exteriores, longe da dimensão enxuta e interiorizada do butô e, principalmente, da música de Antony» («A nova natureza de Antony», Vítor Belanciano, Público/P2, 16.05.2009, p. 14). O termo «butô» designa uma dança contemporânea japonesa que combina teatro e mímica. A palavra tem origem em bu, «dança, mover-se com elegância» e toh, «passo, pisar».

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